Paulo Cacela, o português que fez de Cabo Verde a sua casa e agora divulga as ilhas no YouTube

Natural de Lisboa, Portugal, há cerca de 11 anos, o engenheiro civil Paulo Cacela trocou as terras lusas por Cabo Verde. Veio a trabalho, se apaixonou pela morabeza, fincou raízes e agora divulga o país pelo mundo através do YouTube. “No estrangeiro temos tudo, mas a verdadeira qualidade de vida nós temos aqui em Cabo Verde”, diz em entrevista ao Balai.

Paulo Cacela é um engenheiro civil português que há mais de uma década mudou-se para Cabo Verde em busca de trabalho na área da construção civil.

 

“Terminei o meu curso em 2006 e nessa altura começou uma crise muito grande nessa área na Europa, nomeadamente em Portugal. Tive alguns trabalhos como empreiteiro, mas eram muito precários. Tive colegas que foram para Angola, mas não me cativou muito a ideia. Em 2009/2010, tive algumas pessoas conhecidas que vieram para Cabo Verde e falaram maravilhas do país. Despertou-me o interesse e surgiu-me oportunidade para vir para cá trabalhar”, conta.

 

Em 2010, viajou para Cabo Verde. A primeira paragem foi em Santiago e depois Sal, em 2011.

 

“Estive seis meses na ilha das Salinas de Pedra de Lume e depois regressei à capital do país, onde fazia viagens regulares, todas as quintas-feiras, para o Sal para reuniões semanais de obras”, diz e afirma que foram seis meses de terror, visto que, não gosta de andar de avião. “Foi terrorífico, mas ajudou-me um bocado a ganhar paixão pelas ilhas e a conhecer muita coisa. Impus a mim próprio a missão de conhecer todas as nove ilhas habitadas e, quem sabe, também Santa Luzia (ilha não habitada)”.

 

De engenheiro civil a youtuber

 

Paulo trabalhou durante nove anos consecutivos, de 2010 a 2019, na área de construção civil.

 

“Trabalhei numa empresa onde inclusive tive uma pequena percentagem. Cheguei também a ter um pequeno investimento na plataforma digital Airbnb, onde recebia alguns turistas, nomeadamente franceses”.

 

Como forma de alcançar um número maior de turistas, Paulo criou um canal na plataforma YouTube, que atualmente conta com quase 11 mil subscritores, para promover o turismo local. “O meu objetivo é divulgar Cabo Verde e a sua cultura pelo mundo”, diz e acrescenta que o feedback do público tem sido positivo.

 

Os primeiros vídeos no canal foram em inglês, precisamente para alcançar mais turistas. “Fiz cerca de 3 a 4 vídeos em inglês, mas depois de tudo feito não achava piada. Não me sentia natural a falar e parecia forçado (risos)”.

 

“Decidi começar a fazer os conteúdos em português e, aí sim, felizmente tive melhor aceitação, porque também me sentia melhor a faze-los. É uma coisa que gosto de fazer. Aliás, nunca houve um trabalho que me sentisse tão bem-disposto e feliz a fazer”, conta e diz que agora se sente mais realizado profissionalmente.

 

Com a chegada da pandemia da Covid-19 no país, Paulo desligou-se do mundo da construção e apostou no YouTube. “Desliguei-me um bocado, por opção própria e porque senti que tempo não é dinheiro. Faço isso com dificuldade, mas sou feliz. Não quero influenciar ninguém, mas é a minha perspetiva atual da nossa vida. A pandemia também nos ensinou muito acerca disso e a minha maneira de ver as coisas é que o tempo, atualmente, não é dinheiro. Sei que há muitas pessoas que não estão de acordo, mas as opiniões são sempre divergentes”.

 

Diz que o que o YouTube paga pelas visualizações dos seus vídeos não dá para cobrir os gastos das viagens e que tem sido quase 100% com a ajuda da família, principalmente da mãe.

 

“Quando fazemos um projeto desses almejamos que seja autossustentável um dia ou mais tarde. Atualmente, ainda não é e tenho que viver com ajuda, principalmente, tratando-se de Cabo Verde. As dificuldades são maiores a todos os níveis. A própria audiência é menor, isto por causa da internet que é limitada. E o número da população é reduzido se compararmos, por exemplo, com o Brasil”.

 

O produtor de conteúdo explica que, apesar de já ter alguma receita do YouTube, ainda não dá para viver apenas disso. “É preciso investir em internet em espaços públicos”.

 

De mochila às costas, Paulo já desbravou 8 das 9 ilhas habitadas


A ideia de fazer um tour pelas ilhas surgiu em finais de 2019 quando Paulo Cacela estava a fazer alguns vídeos na ilha de Santiago. “O vídeo que acho que despertou mais interesse foi uma viagem que fiz ao interior da ilha de Santiago”.


Paulo conta que, normalmente, todo o desenvolvimento do vídeo é feito sem um planeamento. “Às vezes não sai tão bem, mas é a minha forma de fazer e detesto fazer cortes, precisamente porque detesto perder tempo a editar”.


De seguida, pegou na sua mochila onde leva uma muda de roupa e algumas peças de roupas interior, uns chinelo e equipamentos de gravação, e rumou para a ilha do Fogo, onde afirma que gravou o melhor conteúdo do canal.


“É um vídeo muito bem estruturado desde o início ao fim. Se formos ver as regras de como estruturar bem um vídeo, está perfeito neste aspeto e foi sem querer, a calhas e sem planos. Quando vejo esse filme tenho muito gosto (…) Tenho pena que não tenha mais visualizações. Por exemplo, o do Sal tem mais visualizações, mas não o considero que chegue nem perto ao do Fogo. Mas, pronto, o Sal é uma ilha muito procurada pelos turistas”.


Seguiram-se as ilhas de Maio, Brava e Sal. Depois veio a pandemia da Covid-19 e o ‘viajante das ilhas’ fez uma pausa, tendo aproveitado o período para regressar a Portugal.


“Cabo Verde já é minha casa. Inclusive, quando se deu a pandemia estive seis meses em Portugal e senti-me completamente desenquadrado. E interessava-me apenas saber notícias de Cabo Verde. Costumo dizer, em forma de brincadeira, aos cabo-verdianos que estão fora do país que no estrangeiro têm tudo, mas a verdadeira qualidade de vida nós temos aqui (Cabo Verde). É claro que temos muitas dificuldades, mas temos uma qualidade de vida fabulosa. Acho que nos países africanos as pessoas são mais felizes, apesar das dificuldades. Chama-se ser feliz com pouco”, afirma Paulo que já tem nacionalidade cabo-verdiana.


Passado seis meses, Paulo regressou ao arquipélago e retomou as viagens pelas ilhas e foi a Boa Vista e, mais recentemente, a Santo Antão e São Vicente. Atualmente, opta por fazer as viagens de barco, mas diz que as dificuldades aumentaram com a pandemia.


“Tenho que fazer o teste de antigénio 72 horas antes, os custos aumentaram e tenho que planear muito bem a viagem. Pode acontecer que o teste dê positivo e ter que ficar retido numa ilha. Não é fácil, apesar de parecer um mar de rosas. É como digo para quem esteja a pensar fazer uma coisa do género pode contar com muitos meses para conseguir visitar todas as ilhas. Não é em um mês que se vai às nove ilhas habitadas, garantidamente. Nem é em 2 meses que se consegue visitar as ilhas todas (…) Quero deixar um marco histórico, independentemente das receitas”, diz o engenheiro.

 

De mochila às costas, Paulo já desbravou 8 das 9 ilhas habitadas. Falta-lhe retratar os encantos de São Nicolau, onde esteve em 2011 a trabalho, para concluir a sua missão de mostrar a morabeza do arquipélago. “Estou a planear ir assim que resolver uns assuntos na capital”.


O que mais o marcou nessas viagens foram as pessoas, principalmente as de Santo Antão. “Nos primeiros vídeos talvez me preocupasse mais em mostrar as paisagens em si, mas hoje em dia estou mais preocupado em mostrar a cultura. Não consigo escolher uma ilha que mais me marcou, mas os santantonenses marcaram-me mais. É uma entre ajuda que não se vê em lado nenhum. As pessoas estão dispostas a ajudar a todo o custo”, diz admirado.


Já Santa Luzia, diz que se conseguir fazer a viagem, será um bónus.” Não quero que as pessoas venham cobrar que não fui. Poderei ir ou não. Vou fazer essa tentativa, é uma promessa. Poderia ir de bote, mas tenho algum receio. Estive a ver desde o Calhau, em São Vicente, o mar é relativamente bravo e são 2 km para fazer de bote. Assim, fechava com chave de ouro o tour pelas ilhas”.

 

Questionado se aconselharia outras pessoas a fazer um tour pelas as ilhas, Paulo não hesita em dizer que sim, mas diz de antemão que vão ter algumas dificuldades. “Pode parecer mais fácil no vídeo, porque não relato as dificuldades, não é esse o objetivo, mas há muitas dificuldades. A internet e os meios de transportes são as maiores dificuldades. O resto é razoável e claro que a pessoa tem que ter um espírito de aventureiro”.


No que se refere a planos para o futuro, Paulo diz que ainda tem cerca de 25 a 30 vídeos planeados. “Serão sobre as ilhas e depois quero fazer uma coisa que tem sido muito solicitada, que por acaso não tenho mostrado muito, que são os pratos tradicionais. Quero mostrar e provar os pratos. E depois quero experimentar outra parte de África e explorar os países da CPLP. A expansão das minhas viagens está dependente do crescimento do canal no YouTube”.

 

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest

Deixe um comentário