Pousada Bio CV, um negócio familiar que há 30 anos aposta no cultivo sem agrotóxicos

Situada em São Domingos, na ilha de Santiago, a Pousada Bio CV dedica-se à agricultura sem agrotóxicos há cerca de três décadas. Inicialmente, a produção destinava-se ao autoconsumo, mas com o tempo evoluiu e hoje em dia é feita a comercialização e entrega ao domicílio de frutas e legumes frescos sem agrotóxicos.

Há cerca de 30 anos, os pais de Leonilde “Nilde” Lima começaram o cultivo na horta situado no interior de Santiago. Depois do falecimento dos mesmos, os filhos assumiram o negócio.

 

“Tivemos que tomar conta do sítio. Sempre primaram pelo cultivo natural e sem agrotóxicos e continuamos nessa mesma linha”, diz Nilde em entrevista ao Balai.

 

Segundo a empreendedora, as principais dificuldades do cultivo orgânico e biológico são as mesmas enfrentadas na agricultura de uma forma geral: a falta de chuva e água e as pragas.

 

“Em Cabo Verde é complicado encontrar produtos biológicos para combater as pragas e por ser um tipo de agricultura que exige mais estudo e trabalho muitos agricultores optam por utilizar inseticidas e não param para pensar nas consequências para o meio ambiente e para a saúde.

 

A agricultura biológica demora mais tempo, mas traz muitos benefícios para a saúde e para o meio ambiente”, diz e afirma que utiliza vinagre, água e detergente de louça no combate às pragas.

 

Na horta nada se perde, tudo se aproveita. “Aproveitamos os excedentes, o esterco dos animais para fazer fertilizante, as folhas das bananeiras para manter a humidade da terra, (…)”.

 

Como forma de poupar água, Nilde diz que tem apostado em consociações de culturas, que consiste em cultivar em simultâneo duas ou mais espécies diferentes no mesmo espaço. “Por exemplo, plantamos mandioca com o milho ou junto com a alface. É uma forma de poupar água e permite um maior aproveitamento dos nutrientes”, explica e diz que também utilizam o sistema de gota-a-gota.

 

Da horta à mesa dos clientes

 

A agricultura biológica exige muito estudo e para aprimorar o conhecimento que tinha na área, há cerca de três anos, Nilde que é engenheira informática e trabalha como consultora, fez uma formação no Sítio Agro-ecológico de João Varela para nos tempos livres dedicar-se ao negócio familiar. “Já tinha interesse nessa área e quando surgiu a formação ‘Produção biológica em sistemas agro-ecológicos’ agarrei a oportunidade”.

 

Os primeiros clientes foram as rabidantes, mas segundo Nilde estas “não valorizam a agricultura biológica”. “Sempre houve um histórico com as rabidantes. Foram as nossas primeiras clientes, mas não havia um retorno financeiro e não dava para pagar as nossas despesas”, diz e explica que existe ainda uma falta de informação sobre a agricultura biológica no país.

 

Recorda que a primeira experiência não correu bem. “Tínhamos um campo de repolho e as rabidantes compraram cada unidade por 20 escudos. Foram três meses de trabalho para ganhar apenas 3 mil escudos. Então tivemos que mudar de estratégia”.

 

Em 2019, a empresária passou a comercializar os produtos por outra via. “Tinha excelentes produtos e comecei a vendê-los aos meus colegas de trabalho para poder pagar os trabalhadores da horta. Com o tempo o negócio cresceu e os clientes aumentaram”, diz. Atualmente, emprega 4 pessoas na horta.

 

Uma vez por semana, a Pousada Bio CV disponibiliza aos seus clientes uma variedade de produtos frescos desde frutas como maracujá, manga, banana e morangos a legumes como couve chinesa, alface, rúcula, tomate, batata comum, mandioca, coentro (…).

 

“Os produtos são colhidos no dia da entrega e primam pela qualidade e sabor”, diz e defende que, para além de serem saudáveis, os produtos biológicos duram mais tempo do que os outros.

Recentemente, como forma de reduzir o uso do plástico, apostaram em recipientes ecológicos para transportar os produtos.

 

Os clientes da Pousada Bio CV são maioritariamente da classe média alta. ”São principalmente dos bairros do Palmarejo, Palmarejo-Baixo, Plateau e Palmarejo-Grande”.

 

O feedback do público tem superado as expectativas. “A demanda é maior que a nossa capacidade. A horta não é a nossa actividade a 100% e por isso não queremos criar muita expectativa para depois não conseguirmos dar resposta a todos os pedidos”, diz e já estão a ver qual será a melhor alternativa para o próximo ano agrícola.

 

Como forma de colmatar a falta de tempo, o grupo tem convidado os clientes a irem fazer as compras diretamente na horta. “Fazemos as entregas a domicílio porque gostamos e porque respeitamos os nossos clientes. Mas se fossem colher os próprios produtos facilitariam o nosso trabalho e de bónus estariam em contacto com a natureza”, diz, mas explica que a iniciativa ainda não caiu no agrado de todos.

 

“Já realizamos duas visitas. Os clientes gostaram, mas pararam de ir. Acho que as pessoas ainda têm um certo medo de sair da sua zona de conforto”. Afirma que estão a criar condições na horta para receber os clientes. “Espero já no próximo ano agrícola, em dezembro, termos as condições”.

 

A Pousada Bio CV comunica também através das redes sociais pois tem uma página no Instagram, Facebook e Viber onde são divulgados os produtos e neste momento estão a trabalhar na construção de um site para a venda online dos produtos. “Queremos terceirizar a entrega a domicílio”.

 

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