Sal: Familiares de portadores de transtorno mental pedem ajuda às autoridades para “minimizar angústia e sofrimento”

Sal: Familiares de portadores de transtorno mental pedem ajuda às autoridades para “minimizar angústia e sofrimento”

Familiares de algumas pessoas portadoras de transtorno mental, na ilha do Sal, pediram hoje ajuda às autoridades locais, particularmente na higiene, para minimizar a “angústia e o sofrimento” de uns e outros.

 


À Inforpress, alguns deles contam que a presença de um familiar com transtorno mental causa um impacto nos outros membros da família, “uma sobrecarga a todos os níveis”, especialmente a nível emocional e físico.


Cada um com o seu distúrbio, exigindo cuidados redobrados, a família vê-se muitas vezes impotente perante situações de crise, solidão, além do misto de sentimento como vergonha, medo, raiva, tristeza, mas também afecto.


Confessam que o agregado familiar, todos da família em geral, vai-se desgastando com o ente querido portador da demência, dado à sobrecarga física e emocional, privando-se muitas vezes da própria vida, associado às “insinuações e indirectas” da sociedade.


Por outro lado, algumas famílias vão aprendendo a lidar com as dificuldades e reacções do seu doente, que nem banho querem tomar ou deixam dar, andando sujos pelas ruas do centro da cidade e arredores.


Adélcia Almeida, por exemplo, irmã de um rapaz portador de transtorno mental, já pediu ajuda, publicamente, durante uma das sessões da Assembleia Municipal do Sal, no sentido de as autoridades locais dispensarem maior atenção aos doentes mentais, face ao contexto de pandemia.


“Tenho um irmão nessa situação, há muitos doentes sujos na rua. Já pedi ajuda. Podíamos, juntos familiares, câmara municipal Protecção Civil, Delegacia de Saúde (…) unir forças para minimizar o problema, pelo menos a nível da higiene, porque sou consciente que a câmara sozinha não consegue, tão pouco a família”, exteriorizou.


“Proporcionar-lhes um banho pelo menos duas vezes ao mês. Digo isto porque passam até seis meses sem tomar banho. Encontro com o meu irmão na Preguiça, mas não consigo entrar com ele em nenhum lugar para lhe dar um sumo, dado ao seu estado. Seria bom se se conseguisse dar-lhes um banho sempre que possível, porque não é bom para a sua saúde nem para a saúde pública”, rogou.


A propósito, admitindo a “gravidade” da situação, o vereador da câmara para a área Social, Juscelino Cardoso, disse, entretanto, que há que estar ciente da “complexidade na resolução do problema”.


“Trata-se de um processo transversal, a câmara é a principal interessada na resolução do problema, mas também as famílias têm de empenhar-se, como também os serviços de saúde, neste caso, a Delegacia de Saúde”, observou, manifestando que no quadro da sua política, a câmara municipal “não deseja ter” pessoas na rua nessas condições.


“Mexe com a dignidade das pessoas, põe em causa a integridade física, dos nossos bens, de modo que, vamos tentando resolver o problema, particularmente os mais gritantes, com apoio, por exemplo, de moradias, medicamento e alimentação, entre outras situações”, assegurou o responsável, compreendendo que a resolução da problemática passa pela criação de um espaço físico para acolhimento dos doentes na ilha.


“Já vislumbramos uma solução para esta situação e muito em breve teremos um espaço para acolher os portadores de transtorno mental, mas acima de tudo para serem cuidados, com dignidade, afecto e carinho”, garantiu, defendendo, ao mesmo tempo, um “djunta mo” (união de forças) também da sociedade civil, nesse sentido.


O delegado de Saúde, José Rui Moreira, por seu lado, já havia admitido numa entrevista à Inforpress que a situação de doentes mentais na rua é complicada face à pandemia, apelando às famílias a tomarem conta deles, particularmente nesta conjuntura, já que vulneráveis.


Admitindo a existência desse problema, reiterou que as autoridades sanitárias pouco ou nada podem fazer, embora devam ter acesso aos cuidados da saúde pública, mas não há onde os albergar, daí que as famílias devem ajudar.

Inforpress

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