SOCORRO – já não se aguenta tanta (des)informação!

A começo de conversa, vou confessando, com alguma galhofa, que eu jamais cogitei que este assunto seria motivo de ufania, mas sim, vou ostentar sim – já cá contam uns dois mesinhos que me escapuli das redes sociais, nomeadamente daquela que começa com f, à qual eu jurei constitucionalmente não regressar. As demais, tenho-as restringidas a 20% de uso, com muitos unfollows e off notifications! E então? Sobrevivi, evidentemente!
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Hiper conectividade? Dificuldade em concertar-se? Aumento de ansiedade? Stress? Fadiga? Dispersão do foco? Irritabilidade? Distúrbios no sono? Perda de memória? Sensação de constante falta de decisão? Até aqui, algo familiar? Coisas banais, não é assim? Afinal de contas estes são alguns dos mals du siecle que parecem atingir 9 a cada 10 pessoas, e creio que deste ponto já deu para entender os motivos do meu switch off.

 

Isto não é de agora. Há coisa de duas décadas atrás, um senhorzinho espanhol Alfons Cornellá inventou a palavra perfeita para aquilo que melhor se aplica a um dos fenómenos peculiares da nossa era – intoxicação. Um neologismo xpto, que combina informação + intoxicação que descreve na mouche a nossa incapacidade humana de lidar com o processamento de tanto volume de informação. Nessa mesma época, no seu Information overload : Pratical Strategies for Surviving in Today’s Workplace, David Lewis falava sobre essa sobrecarga de informação e da Síndrome da Fadiga Informativa; se bem que hoje os termos da moda são o Burnout ou a F.O.M.O (fear of missing out – medo de estar perdendo a informação). Ah! Outro jargão tabloide que é corrente utilizar-se é o infobisity (info-obesidade).

 

Vejamos bem: desde que acordamos até quando vamos nanar, estamos a ser assoberbados com uma quantidade infatigável de estímulos informativos superioríssima à nossa capacidade humana de analisar e processar dados. Mensagens e publicações, notificações no email, Whatsapp, Instagram, Facebook, Youtube, Viber, Telegram, Pinterest, spotify, vídeo novo de dancinhas no tik tok, ….! Feeds infinitos e os algoritmos que dão conta de criar a experiência aditiva de consumo de conteúdo nas plataformas digitais, conduzem a uma série de problemáticas, que o cientista e analista de dados Ricardo Cappra tão bem elucida em algumas das sua palestras online.

 

Estudando como os dados são transformados em informações, como estas são consumidas e, por fim, como é que tomamos decisões a partir delas, Cappra traça uma linha que numa ponta coloca geradores e produtores de dados e na extremidade oposta os consumidores. Ele nos ajuda a concluir que antes tínhamos pouco acesso à informação, vivíamos tapadinhos e alienados, mas hoje em dia – é coisa que não acaba mais!

Acontece que excesso de informação não significa conhecimento, e como bem disse o nosso amiguinho Lewis “conhecimento é o poder, mas informação não”

Também, importa entender que antes as informações circulavam de forma hierarquizada, para o topo do poder, e só depois para a base; agora, qualquer acontecimento chega para todos nós aos mesmo tempo. (“qualquer”). Bem-bom, diga-se de passagem! Mas acontece que excesso de informação não significa conhecimento, e como bem disse o nosso amiguinho Lewis “conhecimento é o poder, mas informação não”. As pessoas acham que estão a par de tudo, mas na verdade não existe um discernimento crítico, porque tudo funciona de uma forma muito frenética e imediatista.

 

Aquilo que chega a vista, em primeiro lugar, já é tida como fonte segura, sem tempo para cruzar e referenciar dados, quando muito analisar os factos. Até porque, prontamente a seguir, uma outra notícia-assunto-conteúdo disputa a nossa atenção.

 

Vale notar que, quando consumíamos menos informação, a quantidade de matérias inúteis era menor, e conseguíamos escolher melhor o que era relevante. Agora estamos submersos em informações e é extremamente difícil saber qual é qual.

 

Se formos a ver, ainda tem essa de que hoje todo o mundo quer e pode ser produtor de informação. O que obviamente tem um bocadinho de mau, pois a irresponsabilidade com a produção de verdade é flagrante. Sem falar na ética e na moral, que são violentadas de forma improcedente, mas isto vamos deixar para uma próxima conversa.

 

E se vamos falar de opções de escolha, nada melhor do que recomendar a leitura d’ O Paradoxo da escolha (porque menos é mais) de Barry Schawartz. De uma forma muito didática, ele nos de demonstra que na maioria das sociedades modernas está enraizada o dogma de que para aumentar a felicidade é necessário aumentar a liberdade dos indivíduos. Assim, agiremos de acordo com o que queremos fazer de facto, ninguém decide por nós. Maravilha, não é?

 

Agora, pensem num supermercado americano comum, com 285 variedades de bolachas, 75 marcas de arroz, 40 tipos de pastas de dentes, 200 shampoos e por aí vai. Tantas opções poderão sugerir-se interessantes, por atender às diversidades humanas, contudo aqui é que entra a alerta de Schawartz: os efeitos que isso produz na mente humana costumam ser – ou a paralisação e não-produtividade (quem nunca ficou uma eternidade escolhendo qual filmes vai assistir?) ou, num segundo estágio, mesmo que vençamos o torpor – o comum é ficarmos sempre menos satisfeitos com a escolha que tivemos. Pois sempre subsiste a dúvida se aquele outro filme poderia ter sido melhor do que escolhemos…

Quanto maiores forem as escolhas, maior será o número de decisões que temos de tomar”

Quanto maior forem as escolhas, maior será o número de decisões que temos de tomar. Mais complexa a vida se torna. Mais insatisfeitos e arrependidos nos tornamos, e consequentemente mais infelizes e ansiosos nos tornamos, conclui.

 

Mas de quem é a responsabilidade? Do mundo? Da sociedade? Não senhor! De ti mesmo, ou esqueceste-te que és livre e responsável pelas tuas escolhas?

 

Por isso, escolham bem, meus ‘compas’!

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Djam Neguin

Djam Neguin

Art-(v)-ista cabo-verdiano e produtor cultural multidisciplinar. Dissidente. Criador de Futuros.

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