Turismo Pós-COVID: Para quando?

Turismo Pós-COVID: Para quando?

Turismo Pós-COVID: Para quando?

O encerramento das fronteiras em 2020, o período de instalação do lockdown e subsequentes estados de emergência e calamidade que persistem, ainda em meados de 2021, representam uma experiência geracional sem precedentes em qualquer lugar do planeta e um desafio gigantesco para pequenos estados insulares e economias com elevado grau de dependência externa, dos transportes e do turismo.
Figura 1: Tempestade de areia vista do espaço. Fonte: NOAA

Enquanto o foco na saúde é fundamental para salvar vidas importa também tratar as questões de fundo que afectam o modelo de desenvolvimento instalado. Será um erro perder a oportunidade de reformar o turismo.cv antes da retoma ou nos próximos 2-3 anos.

 

Importa ter em mente que à exceção do valor acrescentado gerado pelos ramos de viagem e transporte e da contribuição da administração pública, todos os ramos da economia produzem muito abaixo do potencial, estão estagnadas ou declinantes. A agricultura que empregava mais de 20% da mão-de-obra em 2010, regista apenas 13% dos empregos em 2020 e a participação da indústria transformadora foi pouco mais de 6%.

 

Neste mesmo período, o ramo de alojamento e da restauração regista um saldo de 11.000 empregos gerados e representou mais e 25% do PIB em 2020.

 

Racional de leitura do cenário

 

Esta reflexão resulta de um processo voluntário de auscultação das preocupações dos operadores sobre o impacto do covid-19 na cadeia de valor do turismo quando, no ano passado, entrevistei diversos empresários e operadores nas ilhas do Sal e da Boa Vista mas, também, de Santiago, Fogo, São Vicente e São Nicolau.

 

Além de conversas um-a-um também tivemos oportunidade de reunir, por 2 vezes, cerca de 30 operadores para debatermos o impacto do Covid-19 e as perspectivas futuras. Além de auscultar partilhamos um estudo publicado pelo Banco Mundial em Março que propunha o “Financiamento da Hibernação de empresas durante a pandemia” como uma das alternativas para fazer face a um tipo de choque sistémico e exógeno como a Covid-19.

 

Entre os operadores ainda partilhamos o clima de ansiedade e de elevada incerteza quanto ao futuro próximo da retoma do turismo e em meados de 2020 alguns operadores e, pelos vistos, o próprio governo ainda acreditavam na retoma a curto prazo apesar das evidências que definiam a atual crise como de médio prazo (3-5 anos) e que dada as características da pandemia que as atividades da cadeia de turismo seriam arrasadas pelo efeito triplo da necessidade de caixa, acumulação de custos e endividamento.

 

O mencionado estudo do BM explorou a natureza da crise provocada pelo Covid-19 e considerou que muitas empresas iriam conseguir retomar as suas atividades mas os efeitos adversos do colapso dos fluxos de caixa e a interrupção de relações com trabalhadores, fornecedores, clientes, governos e credores, iriam gerar falências que por sua vez impactam a economia como um todo e retardam as hipóteses de retoma.

 

O racional da proposta do BM indica que:

Se todas as partes interessadas partilharem o ônus da inatividade da economia é mais provável que as empresas sobrevivam pelo que a hibernação das empresas até que a pandemia seja controlada deverá contribuir para preservar as relações vitais para uma recuperação mais rápida”

 

Impacto Sistémico da Covid-19 no Turismo

 

Os indicadores de actividade social e económica evidenciam o impacto da COVID-19 em todas as áreas seja da saúde, da educação, do emprego, da estabilidade macro-económica, da sustentabilidade da dívida pública mas é particularmente marcante o impacto da pandemia na cadeia de valor turismo, onde os operadores hoteleiros, perante a inatividade de mercado, foram obrigados a paralisar as operações ou em manter um mínimo de atividade para garantir a manutenção, a segurança e postos de trabalho.

Figura 2: Evolução anual e trimestral do Turismo. INE 2021

O COVID-19 provou-se particularmente demolidor das atividades económicas que envolvem o transporte de pessoas, o turismo em massa e a proximidade pelo que podemos perceber:

 

  1. Em abril de 2020, que a oferta com base na prática de bem receber seriam fortemente afetadas;
  2. Em meados de 2020, que irá levar tempo para que as condições sanitárias possam ser reestabelecidas e o fluxo turismo volte a registar volumes do nível de 2019;
  3. E até dezembro de 2020, que a retoma é uma oportunidade única para o reposicionar o turismo.cv, diversificar a oferta e rever o modelo em curso.

 

Dos debates com os operadores resultou uma proposta de agenda de medidas de mitigação dos impactos do COVID-19 que foi submetida ao Governo através do Ministério do Turismo e Transportes. No nosso entender, o turismo, que tem sido a alavanca de desenvolvimento, carece de uma abordagem diferenciada e perspicaz para fazer face ao momento e uma estratégia para o pós-covid.

 

A nossa proposta mereceu a atenção do Sr. MTT que se disponibilizou a ouvir-nos e algumas ideias debatidas foram absorvidas pelo Governo no pacote de medidas de mitigação do COVID-19 como a diminuição do IVA para operadores no ramo de alojamento e restauração que em conjunto com moratórias e o layoff tem contribuído para a manutenção das empresas e dos empregos.

 

Presente e futuro do turismo

 

No início da crise, a vacinação era uma hipótese remota e o cenário de incerteza prolongada. Estava-se perante um vírus letal e altamente contagioso e a impossibilidade de imunizar a população e alternativas nulas e escassas, consequentemente, mas, enquanto a situação não for controlada a nível global, a incerteza continua elevada.

 

A situação já não é a mesma e apesar das medidas de contenção do impacto do Covid-19, o INE registou a perda de 19.000 empregos em 2020, sendo o ramo de alojamento e restauração o mais afectado com valores record de desemprego nas ilhas do Sal e da Boa Vista que atingiu os 21% e 19%, respectivamente, assim como o êxodo e a migração dos trabalhadores para as ilhas de origem em Santiago, Santo Antão e São Nicolau.

 

Sem as medidas tomadas pelo Governo, o impacto seria muito pior mas estas seguiram o senso comum e, na prática, a aposta na retoma a curto prazo contribui também para adiar a resolução da crise de liquidez das empresas de turismo, do nível de endividamento que vem se acumulando desde então pelos operadores da cadeia de valor do turismo que não têm alternativa para compensar a perda de receitas.

 

Defendo assim o tratamento diferenciado do turismo também como medida de mitigação do impacto do Covid-19 junto à atividade económica e a diferenciação das ilhas do Sal e da Boavista como essencial para garantir a confiança no destino mas percebe-se que mesmo que Cabo Verde mantenha a situação sob controle ainda há muitas incertezas nos mercados emissores, e a própria pandemia, que vão prolongando a crise.

 

Com início da vacinação no mundo desenvolvido, o mercado internacional e a aceleração da vacinação da população em Cabo Verde, o mercado começa a dar sinais de retoma e as operações de turismo internacional, para além da zona euro, estão a ser retomadas gradualmente durante o verão e apesar do otimismo em relação ao próximo inverno o mercado deverá continuar a operar abaixo dos níveis de 2019 pelo menos até 2023.

 

O controle da situação sanitária é um determinante central, sine qua non, mas os desafios da competitividade do turismo.cv foram agravados pela pandemia, pelo que urge também reposicionar a proposta de valor do destino sendo fundamental evitar que o período da retoma seja ainda mais longo do que necessário e o turismo possa voltar a crescer melhor, mais diversificado e gerando mais e melhores empregos.

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Amílcar Monteiro

Amílcar Monteiro

"Consultor Independente em políticas públicas de desenvolvimento económico e social e planeamento estratégico"

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