A jornada musical de Márcia: do sucesso no zouk à redescoberta da sua voz

Nos anos 2000 os temas “Vida” e “Je t’aime encore” na voz de Márcia marcaram uma geração e faziam sucesso nas rádios e nas pistas de dança. Apesar do sucesso, o percurso musical da artista teve altos e baixos, com uma pausa de quase uma década. Nos últimos tempos tem trilhado o seu caminho de volta como artista independente “não como quem procura um espaço, mas como quem sabe exatamente o que tem a oferecer”.

Filha de pais cabo-verdianos Márcia Lopes Silva Miranda, mais conhecida por Márcia, é uma artista que nasceu em Lisboa, cresceu na Alemanha e atualmente vive nos EUA. Em entrevista ao Balai, fala das idas e vindas da sua carreira musical e de como está a trabalhar no seu regresso aos palcos.

Márcia conta que cresceu isolada da comunidade cabo-verdiana, especialmente porque a comunidade na Alemanha, na cidade de Bremen, era muito pequena. Mas apesar de ter vivido sempre fora de Cabo Verde, Márcia diz que os pais sempre fizeram questão de manter a cultura cabo-verdiana presente, principalmente através da culinária e da música.

Não teve muitas referências africanas durante a sua infância, até porque em 1989, havia poucas pessoas negras na sua escola na Alemanha, recorda. “Sempre ocupei espaços que não eram meus por origem, mas aos quais tive que me adaptar. Ao mesmo tempo consegui manter viva a minha identidade de alguma forma”.

Aos poucos, Márcia começou a aproximar-se da música e com 11 anos começou a tocar teclado, embora na época não gostasse muito. Depois de algum tempo, começou a cantar e como não tinha muitos recursos aprendeu por conta própria – ouvia músicas e treinava voz.

Aos 17 anos começou a tocar em bandas, integrou um projeto musical local e começou a escrever letras em alemão. Começava uma nova fase na sua trajetória musical.

Após um contrato com uma gravadora, que durou cerca de um ano, a cantora percebeu que naquela época a produtora não tinha uma estrutura para sustentar mais um artista do seu segmento. Márcia, que era estudante na altura, decidiu focar-se nos estudos e começou um curso de Arquitectura. “Mesmo assim, a música nunca deixou de estar presente”, diz e recorda que já ouvia em casa muita música contemporânea como Cabo Pop, Cabo Stream o que a influenciou bastante.

“Lembro-me que nos anos 2000, o Zouk começou a ganhar mais destaque e foi nessa época que descobri o artista Nichols e do qual me tornei fã”, conta a artista que chegou a ir ao concerto do cantor.

Para sua surpresa, em 2005 recebeu um convite do Nichols para gravar um single. Um ano depois, gravou o primeiro álbum, Márcia, num mês. O trabalho contém os singles de sucesso “Vida” e “Je t’aime encore”, que integrou o “Kizomba All Stars”. “Foi algo surpreendente, considerando que naquela época as redes sociais estavam ainda no início”, confessa.

Márcia não imaginava que este projeto musical se tornaria o ponto de partida de uma carreira artística, visto que na época, ainda era estudante de Arquitetura e vivia na Alemanha. “Eu não tinha essa expectativa de que o trabalho fosse expandir. Foi uma honra poder trabalhar com uma pessoa da qual eu já era fã”.

Após a saída do álbum, como na Alemanha não consumiam o género musical que cantava, Márcia diz que não sentiu o impacto que a sua música estava a ter. Entretanto, tudo mudou com um telefonema do Nichols a contar que a sua música está a ser tocada em vários lugares e a convidou para ir para Portugal durante o verão para fazer uma pequena tournée.

“Foi em Portugal que me apercebi do impacto que o CD teve e foi aí que tudo começou e nasceu uma carreira como Márcia”.

Com este álbum teve oportunidade de atuar no Festival Strela, em 2007, na cidade da Praia, um dos momentos mais marcantes da sua carreira, confessa. “Foi o primeiro festival daquela magnitude que participei e também um dos meus primeiros shows em Cabo Verde, como cabo-verdiana. Foi muito emocionante ver as pessoas a cantar as minhas músicas com tanta vibração. Senti-me em casa”.

Pausa na música

Contudo, Márcia viveu uma trajetória profissional pouco linear. Ainda lançou temas de sucesso como “Única” “Say Ull be mine” mas acabou por fazer uma pausa na carreira musical para se dedicar ao Design, tendo regressado à música aos poucos a partir de 2020.

“Depois de trabalhar com duas labels passei por experiências que não foram positivas, senti-me desmotivada com o ambiente da indústria musical, porque é um lugar que está muito dominado por homens, então naquele espaço as pessoas que têm uma personalidade forte acabam sempre por bater de frente com certas estruturas”, desabafa.

A cantora explica que um dos desafios enfrentados nesse meio é a diferenciação no pagamento entre homens e mulheres. “Foi uma das razões pelas quais me recusava a fazer shows. Às vezes senti que a nossa valorização não era justa”.

Não tendo uma equipa experiente nem a sabedoria de navegar no mundo da música, Márcia optou por se afastar e começou a mergulhar no Design.

Assim, em 2011, mudou-se para os Estados Unidos da América, onde trabalhou com várias marcas. A jovem recorda que estava mesmo de luto e que “perdeu o amor pela música”.

Aposta numa linha de skincare nos EUA

A mudança para os Estados Unidos há mais de uma década trouxe desafios inesperados. Márcia começou a ter muitos problemas de pele e cabelo e de forma intuitiva a jovem começou a testar misturas de cremes e produtos à base de plantas.

“Nos últimos 12 anos, fui refinando as receitas, mas nunca pensei em vender, era algo que fazia para mim”.

Durante um período difícil que estava a passar com o filho, a jovem partilhou uma das suas misturas com amigos e familiares, algo que teve um impacto imediato.”Gostaram tanto que queriam comprar, e aquilo que era só meu virou algo maior”.

Aos poucos, o projeto foi ganhando forma e com seus conhecimentos de Design, ela criou a embalagem, inventou um branding. “Coloquei toda a minha sabedoria nisso, foi quase como uma terapia”.

O resultado é um produto artesanal, feito com ingredientes 100% naturais, que ajuda a cuidar da pele, segundo explica.

Conforme explica Márcia, o projeto que começou como uma necessidade pessoal, cresceu e ganhou forma e hoje carrega a história de uma mãe e mulher empreendedora que “encontrou no autocuidado um caminho”.

Reencontro com a música

Foi só com a pandemia da Covid-19, em 2020, e mais tarde, com a chegada do segundo filho, sendo que na altura teve algumas complicações de saúde, que algo dentro da jovem mudou. “Foi quando despertou essa vontade de regressar”.

Durante esse período compôs um tema chamado “Vida” e que só agora veio a fazer pleno sentido para a cantora. “Senti que foi uma música que escrevi para um futuro “eu” sem saber. Foi um momento de um círculo completo, que começou a despertar em mim o regresso da música”.

Esse reencontro com a música marcou o início de uma nova fase na carreira da Márcia, mais madura, consciente e mais autêntica. Atualmente, a artista está a preparar o seu regresso aos palcos, “não como quem procura um espaço, mas como quem sabe exatamente o que tem a oferecer”.

Após anos de ausência do cenário musical, a artista não esperava que o seu regresso tivesse “uma recepção tão boa”. “Pensei que as pessoas tivessem esquecido de mim, mas estou a ver que havia muitas saudades da minha música e isso está a ser marcante para mim e a dar-me ainda mais forças para continuar “.

“Só agora, ao regressar aos palcos, percebi o quanto a minha música tocou as pessoas”, confessa.

Novo single

Em finais do ano passado, depois de cerca de quatro anos sem lançar, lançou juntamente com o Kaysha o single “Let it go”. A artista conta que a sua conexão com o cantor, um dos grandes nomes do zouk, vem de longa data. “Conheço o Kaysha desde o início da sua carreira, sempre tivemos uma boa amizade, mesmo não sendo próximos, sempre que nos encontrávamos tínhamos boas conversas além da música”.

Depois de anos os dois artistas alimentaram a vontade de trabalhar juntos, mas os caminhos tomaram rumos diferentes.

“Ele sempre dizia que temos que fazer uma música juntos, mas depois afastei-me da música e quando regressei ao mercado, voltamos a conversar e retomamos a ideia e foi assim que nasceu Let it go”.

A mensagem da música é sobre reconhecer quando é hora de deixar ir algo ou alguém que se ama ,mas que nos está a fazer mal. Segundo a artista, a ideia é mostrar que, mesmo quando o coração quer ficar, é preciso ter a força de partir, que é um ato de amor próprio. “Muitas das vezes, nas culturas mais conservadoras, espera-se que a mulher permaneça numa relação tóxica, especialmente quando há filhos envolvidos”.

“O meu maior desafio é o tempo”

Apesar do carinho do público, Márcia, sendo artista, designer, empreendedora e mãe, tem de dividir o tempo entre os seus projetos criativos e os desafios que daí advêm.

“O meu maior desafio é o tempo, sinto que não tenho horas suficientes para me dedicar a tudo com a intensidade que gostaria. Tudo o que eu faço está ligado à criatividade, seja na música, no design ou na criação de conteúdos para skincare. E ainda tenho que ser mãe, esposa, dar conta da vida pessoal “.

Nos primeiros anos da sua carreira, a artista enfrentou desafios com a editora e hoje como artista independente, Márcia, olha para trás com a consciência de que cada obstáculo foi essencial para chegar ao lugar onde se encontra.

A experiência deixou marcas, mas também lições e ao fazer seu caminho de forma independente, Márcia ganhou algo valioso que é a liberdade. ” Hoje sou eu que estou no comando, eu que tomo as decisões, que invisto, que construo tudo e é um processo trabalhoso, mas muito prazeroso. Acho que foi necessário passar por essa dificuldade para chegar até aqui. Foi aquele sofrimento que me deu o impulso para continuar “.

Manter vivas as raízes

A artista descreve-se com orgulho como uma filha da diáspora africana, criada entre diferentes lugares, que nada tem haver com a sua cultura e onde encontrou, no cruzamento desses mundos, a essência da sua criatividade.

Apesar de ter crescido longe de Cabo Verde e de ter procurado incluir um pouco de todas as experiências multiculturais que viveu até hoje, Márcia diz que nunca se afastou das suas raízes cabo-verdianas.

Destaca que apesar do seu passado colonial e de ter sido escravizado, o povo cabo-verdiano “tem uma essência que sobreviveu a todo esse processo de desconexão com as suas raízes” e estas que se mantêm vivas nos cabo-verdianos.

Márcia acredita que dar voz a essas raízes é também uma forma de resistência e de preservação da identidade, através da música, e que a artista pretende não só partilhar a sua história, mas também valorizar aquilo que muitos tentam apagar ou esconder que é o poder das origens.

Inspirar outras mulheres no Leading Women Summit 2025

O reconhecimento Internacional da artista ganhou um novo capítulo com a sua participação no Leading Women Summit 2025, num evento realizado em março na África do Sul, onde foi convidada a partilhar a sua história como mulher, artista e empreendedora. A iniciativa é promovida por uma plataforma de liderança feminina e reúne figuras de diferentes áreas e nacionalidades.

 

“O convite surgiu através da minha agência, que no início foi algo que encaramos como uma brincadeira, sem grandes expectativas, mas quando o convite oficial chegou, fiquei muito feliz”, conta Márcia.

No evento, a cantora integrou um grupo de oito mulheres, entre artistas e empreendedoras, cada uma com a missão de contar a sua história de superação.

“Foi emocionante perceber que uma plataforma tão prestigiada viu valor na minha história e me reconheceu como mulher líder “. Paralelamente, a artista destaca o privilégio de poder conectar-se com outras mulheres influentes e experientes, vindas de diferentes contextos e com trajetórias inspiradoras .

“Ser uma mulher líder na indústria musical hoje em dia traz uma grande responsabilidade, mas fico feliz em ver mais artistas femininas a ganhar visibilidade, mas noto que às vezes existe uma certa concorrência entre nós “.

Para Márcia, ” o verdadeiro caminho está na união, em não nos vermos como rivais”. “Devíamos apostar mais na colaboração, cada uma de nós temos um estilo único, uma voz própria e uma história distinta, há lugares para todas “, reforça.

A artista afirma que “não pretende parar por aqui”, e que tem muitos projetos em mente para realizar. “A vida não é linear e quando segue por linhas tortas, vamos colecionar aprendizagens, e quando chegamos no topo mesmos por caminhos inesperados chega-se com mais sabedoria, mais consciência, e vencemos de forma ainda mais verdadeira”, conclui.

Daimara Furtado/ Estagiária

Artigo editado

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