Éllàh Barbosa: “Dino D’Santiago fez-me conhecer Portugal e a Madonna o mundo”

De regresso às origens, a artista natural de Santa Cruz prepara-se para lançar o seu primeiro single a solo intitulado “Sina” na cidade da Praia. Em entrevista ao Balai, Éllàh Barbosa recorda a participação na tournée mundial de Madonna como uma experiência “surreal” mas ressalta que a Rainha do Pop é “uma artista muito rigorosa”.

Jossiela Barbosa Ramos, de nome artístico Éllàh Barbosa, tem 29 anos e é natural do concelho de Santa Cruz, terra natal de Orlando Pantera, Katchás, Nha Nácia Gomes e Elida Almeida.

Nasceu no seio de uma família de músicos e a sua veia artística despertou ainda em criança. “Como todo cabo-verdiano, convivi com boa música em casa. Cresci no seio de uma família de compositores, escritores, (…) como, por exemplo, o meu tio Kaká Barbosa, o meu pai que tocava violão, a minha mãe que foi ‘cantora’ na sua adolescência. A partir daí despertou a minha veia artística. Entretanto, só comecei a levar a música a sério aos 22 anos, altura em que estava a fazer uma formação superior em Ciências Políticas em Portugal”, conta.

Desistiu do curso no último ano, mas pretende regressar. “Gostava do curso, mas descobri que a minha verdadeira vocação era música”.

…quando escolhi fazer música foi extremamente complicado porque os meus pais não aceitavam

Apesar dos pais terem essa veia artística e de terem influenciado a filha, Éllàh diz que inicialmente não teve apoio deles. “No início, quando escolhi fazer música foi extremamente complicado porque os meus pais não aceitavam, principalmente o meu pai. Basicamente, foi ele que me influenciou. Tocava em casa e ninava-me com a sua guitarra. Somos um povo de música, então todos os pais têm consciência que, normalmente, na música só com alguma sorte é que se consegue ir longe. Então, foi extremamente complicado e difícil. Eu e o meu pai tivemos muitos argumentos, inclusive tivemos algum tempo sem falar. Mas não desisti da decisão que tomei, fui em frente e acabei por provar que realmente era esse o meu caminho”, conta e diz que Éllàh é uma mistura dos sonhos deixados para trás pela sua mãe e a vontade de mudar o mundo do seu pai.

A artista revela que essa fase foi conturbadora e a levou a uma fase depressiva, tendo encontrado na música a cura. “A música foi a minha melhor companhia. Então representa cura, alegria e liberdade, no sentido que fui muito tímida. Para mim a música é um palco para me expressar”, diz a artista que tem como referências Paulino Vieira e Cesária Évora.” Acho o Paulino um embaixador da morna e foi quem fez musicalidade de Cesária Évora”.

A carreira profissional de Éllàh começou em Portugal, país onde atuou em vários espaços como o espaço B.Leza e a Casa da Morna.

…Tenho muito amor em fazer música

“Sempre achei que devemos fazer o que amamos e o que nos dá prazer. Foi assim que descobri a música em Portugal. Acabei por observar que era a coisa que mais fazia diariamente, então acabei por me identificar. Vi que a minha área era a arte. (…) Tenho muito amor em fazer música”.

Dino D’Santiago e o convite para trabalhar com Madonna

Em terras lusas, a cantora e compositora trabalhou com o cabo-verdiano Dino D’Santiago e com o português Branko. “O Dino D’Santiago abriu-me as portas lá fora. Foi o elo principal”, diz gratificante.

Em 2019, antes da pandemia de convid-19, Éllàh Barbosa fez parte da tournée Madame X da Madonna.

“O convite surgiu através do Dino D’Santiago. Foi ele que me convidou a fazer parte do grupo de Batucadeiras porque a Madonna acabou por escolher o género musical batuco para integrar o seu novo álbum. Dino já me conhecia, uma vez que, já havia trabalhado com ele e sabia que conheço os ritmos de Cabo Verde e fui uma das escolhidas por causa disso”, conta.

Nunca havia passado pela mente de Éllàh algum dia participar de um tour da Rainha do Pop e diz que foi uma “bênção”. “Acredito que todos esses encontros que tive fora do país eram destinados. Encontrei Dino D’ Santiago primeiro, depois Madonna e recentemente Branko”.

…A Madonna é uma artista muito rigorosa. Trabalhávamos quase 16 horas por dia

De acordo com a artista, a tournée com a Madonna foi uma experiência “surreal”. “Foi incrível. Aprendi muito e conheci o mundo. Absorvi muito, principalmente, de disciplina. A Madonna é uma artista muito rigorosa. Trabalhávamos quase 16 horas por dia. Vi que os artistas estrangeiros de renome são muito perfeccionistas, algo que adquiriram através do trabalho duro. Gastam muitas horas a praticar a mesma coisa, então acaba por ficar tão natural. Em Cabo Verde, os artistas ensaiam pouco antes dos shows”, diz e revela que pretende implementar esse aprendizado na sua carreira. “Ainda não tenho uma equipa montada, mas sonho em ter uma equipa com a máxima disciplina”. (risos)

Questionada sobre quais foram os momentos mais marcantes da sua vida, Éllàh nomeia dois: o primeiro show com Dino D’Santiago no festival ID-Nolimits, em Portugal. “Foi, sem dúvida, o meu primeiro palco dessa dimensão porque até então tinha pisado apenas palcos na cidade da Praia”. E depois a tournée com Madonna. “Dino D’Santiago fez-me conhecer Portugal e a Madonna o mundo”.

…Devemos ser tudo o que absorvemos artisticamente

No que tange ao impacto da pandemia de covid-19 na sua carreira, a artista diz que por um lado foi negativo, uma vez que, a tournée Madame X teve que terminar antes do tempo e por outro lado foi positivo porque teve mais tempo para se focar na música. “A solidão acabou por trazer produtividade. Consegui escrever muitas músicas e Sina foi escrita na pandemia”.

“A música é a minha ‘Sina’”

Éllàh Barbosa define-se como uma artista eclética e já colaborou com vários artistas. “Sou uma mistura de Cabo Verde e do mundo, digamos assim. Devemos ser tudo o que absorvemos artisticamente, tudo o que é experiência na nossa área deve ter impacto no nosso sere”.

Há quase quatro meses a residir em Cabo Verde, depois de um longo período fora do país, a artista está a preparar para lançar nesta quinta-feira, 14, o seu primeiro single a solo “Sina” no Palácio da Cultura Ildo Lobo, na cidade da Praia.

“No show o público vai conhecer a Éllàh artista e compositora, porque conheciam a que era intérprete e cantava covers”.

…Não estou a sonhar com nada além do meu álbum

A letra da música é da autoria da artista e retrata os primeiros passos na música. “O single é uma mistura de tradicional e moderno. Num bom badio, crioulo de Santiago, Sina quer dizer a cruz de alguém. Então, a música é a minha sina”.

No que se refere a planos para o futuro, a artista diz que para já está focada no presente e no lançamento dos seus singles e na preparação do seu primeiro álbum. “Não estou a sonhar com nada além do meu álbum. Há pouco tempo passei por uma fase não tão boa, mas muito esclarecedora de vida, digamos assim. Eu era uma pessoa agarrada ao futuro e estava com muita ansiedade. Depois que regressei a Cabo Verde decidi viver o presente e fazer música todos os dias”, conclui.

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