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O fenómeno de crianças a pedir dinheiro na rua tem aumentado nos últimos tempos, na cidade da Praia, mas o ICCA entende tratar-se de uma situação “controlada” pela instituição que oferece no centro “Nôs Kaza” alimentação e apoio escolar.

A situação que, segundo o Instituto Cabo-verdiano da Criança e do Adolescente (ICCA), está “controlada”, aos olhos da população da capital do país que caminha, no dia-a-dia, nas zonas de Kebra Kanela, Prainha e Platô, está a aumentar cada vez mais, particularmente, na época de verão e de férias escolares.
Face a estas denúncias, a Inforpress numa ronda aos pontos indicados pelas pessoas falou com algumas crianças e adolescentes que afirmaram estar na rua para “sobreviver” e que os trocados e alimentos conseguidos servem para ajudar os familiares.
Alguns destes adolescentes, segundo relatam as pessoas, vê-se que não andam na escola e que o dinheiro que pedem é, na maioria das vezes, para consumir drogas o que os leva ao mundo da criminalidade e não só.
Ibrain, Francisco e Sadam (nomes fictícios) contaram à nossa reportagem que pedem dinheiro para comer e levar para casa, porém quando confrontados com o facto de estarem a pedir dinheiro para consumir drogas alguns ficaram reservados e outros confessaram o vício.
Afirmam ainda que numa época como esta conseguem, por dia, mais de três mil escudos.
Questionado sobre o tema, o ICCA admite ter conhecimento da situação, adiantando inclusive que os monitores da instituição estão no terreno, especialmente, nesta época de calor em que constatam aumento de meninos na zona de Kebra Kanela e Prainha a pedir esmola.
“Os adolescentes que se encontram na zona da Prainha a pedir estão já identificados pelo ICCA e existe um mapeamento desses e onde estão. Nesta época de férias temos mais emigrantes e turistas, e são situações que proporcionam o pedido de dinheiro e comida”, disse Etsânia Andrade, coordenadora do Centro Nôs Kasa do ICCA, no Platô.
Em declarações à Inforpress para falar da situação, ressaltou que na cidade da Praia não existem crianças de rua, mas sim na rua, salientando serem jovens que saem de casa e não querem ir à escola preferindo deambular pelas ruas da cidade a pedir.
Etsânia Andrade revelou serem crianças e adolescentes com idade compreendida entre 11 a 16 anos, sendo que a maioria tem vínculo com a sua família.
“De Janeiro a Abril identificamos apenas dois casos novos e o número total de crianças e adolescentes que frequentam o centro é a volta de 31, sendo que 14 adolescentes recebem acompanhamento ambulatórios e 11 identificados como situação na rua a pedir”, informou, observando que dos 11 identificados como situação na rua, seis destes são jovens que estão a consumir drogas pesadas e cinco drogas leves.
A coordenadora do Nôs Kaza, revelou também, a existência de crianças com dez anos a fumarem padjinha.
Confirmou ter conhecimento de que os adolescentes na rua, nesta época do ano, arrecadam uma média de três mil escudos por dia e que na época de Dezembro conseguem muito mais.
“Uma criança quando faz três mil escudos por dia torna-se difícil convencê-la a ir ao centro onde tem refeições como pequeno almoço, lanche e almoço, e acompanhamento educativo para mudar de vida”, ressaltou, pedindo às pessoas a não oferecerem dinheiro aos miúdos na rua, visto que tal atitude tem contribuído para desviar os jovens dos seus lares para outros mundos.
Isso porque, destacou, com o dinheiro e produtos perecíveis como arroz, esparguete e outros que recebem das pessoas fazem trocas para consumir drogas.
Perante o caso, referiu sobre a existência de um atendimento no centro de Tira-Chapéu que é feito por um psiquiatra e técnicos de outras áreas, que acompanham os jovens viciados na droga, visto serem adolescentes numa situação de consumo elevado.
Etsânia Andrade realçou na sua declaração que as crianças e adolescentes seguidos pelo ICCA são acompanhados pelo centro que está aberto das 08:00 às 18:00. “As crianças acompanhadas procuramos saber das suas situações escolares para que possam frequentar a escola, e os adolescentes que não estão na escola estão a frequentar formação profissional”, frisa.
Até este momento, segundo disse, 44 adolescentes receberam formação nas áreas de pastelaria, estética, culinária, e um kit para poderem trabalhar por conta própria.
Neste processo, indicou que se encontram 12 membros familiares, com situação mais complicada, numa formação na área de negócio, visando a auto-suficiência familiar.
No entanto, para melhorar a situação defende a necessidade de um trabalho em rede entre os Ministérios da Saúde, Educação e Ministério Público, argumentando que o ICCA sozinha não conseguirá vencer o fenómeno.
Por sua vez, a substituta da presidente do ICCA, Assunção Oliveira, que defende maior responsabilização parental, explicou ainda que a aplicação de responsabilidade às famílias está a cargo do Ministério Público, que decreta as medidas aplicadas a estes por deixarem filhos menores a viver na rua.
Questionada se as crianças e adolescentes que estão na rua são filhos de vendedeiras ambulantes ou mulheres monoparentais, esta responsável do ICCA disse não ter esta informação, mas admitiu que quando deparam com situações de género têm agilizado acções junto do Ministério de Família, Inclusão e Desenvolvimento Social, introduzindo as famílias no rendimento social de inclusão, ou num trabalho, para que possam receber apoio social visando cuidar das suas crianças.
Apelou às pessoas a não darem dinheiro às crianças e adolescentes, explicando que o Centro no Platô garante, todos os dias, alimento às crianças e adolescentes com situação na rua.
Assunção Oliveira avançou ainda que para resolver este e outros problemas, o centro de Lém Cachorro vai ser uma resposta para as mães que têm de trabalhar na rua e não têm onde deixar ou quem acompanhar seus filhos.
Em 2021, a presidente do ICCA, segundo dados existentes, anunciou cerca de 400 crianças e adolescentes a viver na situação de e na rua em Cabo Verde, sendo que a maior parte se encontrava nas ilhas do Sal, Boa Vista e São Vicente.
Inforpress







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