Carnaval: Desfile oficial transforma Mindelo num palco vivo de memórias e afectos

O desfile oficial do Carnaval de São Vicente transformou Mindelo num palco vivo de memórias e afectos, protagonizando uma simbiose entre os grupos e o povo, que reclamou para si o título de verdadeiro dono da festa.

O Flores do Mindelo abriu o desfile às 20:00 de terça-feira, sob fogos de artifício, com uma energia e vivacidade que perduraram do princípio ao fim.

Com o enredo “Mindelo é uma Flor que não murcha por ser resistente: Nô valorizá e preservá nôs cultura local, nôs memória, nôs património”, criado pelo artista Bitu Alves, a agremiação levou às ‘sete ruas de morada’ mais do que fantasia e ritmo.

Encetou um diálogo vibrante, feito de música, cor e emoção, com o público que ovacionou cada ala que passava, lembrando que, apesar das tormentas e vicissitudes por que Mindelo tem passado, “verga, mas não cai”.

Com mais de mil foliões distribuídos por 11 alas, o desfile do Flores do Mindelo foi um apelo à valorização da cultura e da memória colectiva, essa herança invisível que dá sentido à trajectória da ilha.

Desde os primeiros compassos, o tema da identidade esteve sempre presente.

Cada carro alegórico, figurino e passo coreografado parecia contar fragmentos de uma história maior da cidade-porto, que é Mindelo, e do seu povo moldado pela resistência, que se orgulha das suas conquistas, mas que, muitas vezes, ri da própria desgraça para encontra forças e renascer.

À medida que as alas iam passando, o público era conduzido numa viagem ao passado, revivendo a infância, e tempos antigos em que se usavam lamparinas e fogão primo.

Mas também desvendavam os rostos e as vivências que moldaram a alma são-vicentina. Um deles foi o falecido músico e compositor cabo-verdiano Jotamont, que foi retratado no segundo carro alegórico do grupo, estabelecendo uma prosa com a alma colectiva do povo.

Entre sorrisos, aplausos, e olhares marejados, emergiram sentimentos de alegria, saudade, nostalgia, orgulho e pertença, como se a cidade inteira se reconhecesse naquele espelho colorido que o Flores do Mindelo pintou.

Mais do que celebrar o presente, o Flores do Mindelo convidou cada espectador a ser guardião do seu próprio passado, lembrando que um povo que preserva as suas raízes floresce sempre, mesmo diante das adversidades.

No final, a presidente Ana Ramos dizia-se uma mulher realizada por ter colocado o grupo a desfilar, apesar do cansaço.

“É uma grande emoção, é uma grande alegria porque diziam que este ano São Vicente não teria Carnaval. Mas o Carnaval é a nossa cultura e tradição e não vamos deixá-lo morrer”, regozijou-se.

O segundo e último grupo a desfilar foi o Cruzeiros do Norte, que tomou as ruas de São Vicente com “História dourada com pedras negras”, numa viagem que atravessou séculos e contou ao povo a alma da ilha.

O grupo, actual campeão do Carnaval de São Vicente, apresentou um projecto grandioso, idealizado pelo carnavalesco Fernando de Morias e feito de persistência e coragem.

Desde o comércio do carvão até ao pulsar moderno do Porto Grande, passando pelo cosmopolitismo mindelense, a agremiação da zona de Cruz João Évora retratou navegadores, navios e histórias passadas que moldaram a identidade são-vicentina, fazendo o público render-se aos seus encantos.

Com quatro carros alegóricos cuidadosamente esculpidos, um tripé, dois reis, duas rainhas, porta-bandeira e mestre-sala, e cerca de 1300 figurantes, deram vida a séculos de lutas, encontros e transformações, num verdadeiro mar de corpos e cores a dançar a história de São Vicente, bastas vezes poetizada por trovadores.

As danças dos foliões ao som da música “Dourada História” de Edson Oliveira, deram voz ao pulsar da ilha enquanto o brilho e o sentido dos adereços fizeram o público sentir-se parte da narrativa.

Ao longo do desfile, São Vicente reviveu o passado e a sua história tornou-se presente em cada nota, cada samba e cada adereço e alegoria.

Foi um espectáculo que se transformou num apelo poético à valorização da cultura, mas também num grito de orgulho e resistência, mostrando que São Vicente e o seu Carnaval se mantêm vivos nas ruas, nos foliões e no coração de todos.

Para o presidente do grupo Cruzeiros do Morte, Jaílson Juff, o seu sentimento é de alegria por mostrar um desfile de tal envergadura, principalmente por tudo o que o grupo passou.

“Sabia que era um show desses que iríamos oferecer a São Vicente, porque o povo merece depois de ter passado por momentos difíceis”, afirmou, garantindo que conseguiram materializar todo o enredo, mesmo chegando aos 10 mil contos num projecto concebido para 13 mil contos.

Após o desfile, o povo do Mindelo foi chamado a participar no baile de Carnaval, na Rua de Lisboa, com show de Calema e da Banda Folia formada por Yackass, Edson Oliveira, Gai Dias, Anísio Rodrigues e Constantino Cardoso.

No entanto, no início do show houve um apagão geral, ficando a ilha de São Vicente às escuras por um longo período.

Na tarde desta quarta-feira, serão entregues os prémios aos melhores classificados do desfile oficial, bem como os prémios Kakoy para os participantes no Carnaval espontâneo.

Inforpress

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