Djô da Silva: “Quem gosta de música não vai sair insatisfeito do Kriol Jazz Festival”

Teve a primeira edição em 2009 e foi considerado um dos 25 melhores festivais do mundo. O Kriol Jazz Festival já vai na sua 12.ª edição e regressa depois de uma pausa de dois anos.
Foto cedida pela Harmonia

Em entrevista ao Balai, o diretor artístico e produtor da Harmonia, José (Djô) da Silva, diz que realizar o evento continua a ser um risco tendo em conta que é um festival que acarreta um “orçamento elevado” em grande parte devido à qualidade dos artistas que participam. A incerteza financeira obrigou, inclusive, o cancelamento da edição deslocalizada do certame – o Kriol Zona. Entretanto, a edição na ilha Sal está garantida para julho deste ano, avança o produtor. Quanto à presença de Djavan que estava agendada para 2020 e depois para 2022, mas não chegou a acontecer porque o KJF foi adiado ainda não é desta que o público vai poder ver a atuação deste mestre da música brasileira.

Depois de uma paragem de dois anos, o Kriol Jazz está de volta. É difícil voltar a pôr este festival na rua?

– Sim. Depois de pandemia, tivemos problemas que vêm da pandemia, mas depois há os problemas financeiros, já que este festival pede um orçamento elevado, para Cabo Verde, pelo menos, então é difícil fechar o orçamento. Neste momento, conseguimos um orçamento que dá para fazer este festival, mas com quase 10 mil contos a menos do que é costume. Por isso tivemos de tirar o Kriol Zona porque já não havia orçamento. E agora estamos a depararmo-nos com o problema de público, temos de voltar a habituar o público com o Kriol Jazz para que regresse ao evento.

Numa entrevista em 2018, tinha dito que o Kriol Jazz nunca deu lucro e que nem acreditava que um dia fosse dar. A situação mantém-se?

– Sim, continua igual e, francamente, faço o Kriol Jazz de forma quase que inconsciente. Toda a minha vida vivi com riscos e tudo o que fiz sempre teve algum risco. Por sorte, a maioria das coisas dá certo, às vezes quando não dá, eu aguento. Mas para fazer o Kriol Jazz tem de ser uma pessoa que arrisca. Este ano é um risco enorme, porque não se tem a noção do público que se vai ter, o público hoje em dia já não compra os ingressos com muita antecedência, eles compram no último momento e há despesas que temos de fazer antes. Como é um festival internacional, ninguém vem a Cabo Verde se não se pagar tudo antes, então é tudo mais difícil. Mas, espero que tudo corra bem. Sempre em cada festival, pomos a questão “Será que vamos conseguir continuar?”.

Este ano os bilhetes estão mais caros devido a esta situação?

– Claro, as despesas aumentaram quase 30 por cento. Só as passagens de avião, que estão com preços inacreditáveis, depois a nível de gastos técnicos com o festival tudo aumentou. Fomos também obrigados a aumentar, mas na mesma abaixo do que deveria ser para poder fazer um festival destes.

Mas o público poderá questionar sobre porque motivo o Kriol Jazz é tão dispendioso. É por causa dos artistas? O que encarece este evento?

– A qualidade artística, os artistas que vêm não são artistas baratos. Depois os custos das viagens com os artistas internacionais. Hoje em dia então. Só em viagens deste Kriol Jazz foram quase 8 mil contos. Por isso é um festival caro. Se fosse um festival baseado em artistas nacionais não haveria tantos gastos com viagens, por exemplo.

Em relação às edições do Kriol Jazz noutras ilhas como São Vicente vai acontecer? E no Sal afinal há festival este ano?

– No Sal o festival vai acontecer nos dias 7 e 8 de julho. Já estamos a trabalhar para isso. Em São Vicente não. Há muito tempo que abrimos mão de fazer o KJF em São Vicente porque a ilha já tem o seu festival de jazz em Agosto, não é necessário ter um segundo evento de jazz em São Vicente, neste momento. Depois seria preciso ter acordo com a câmara que é algo muito difícil que nem vamos tentar.

Então levar o KJF para São Vicente para já não está nos vossos planos?

– Não está.

Também já tinha referido que gostaria de internacionalizar o festival e de levar para outras cidades como Lisboa e, inclusive, países como a China. É algo que vai acontecer?

– Tivemos uma abordagem, mas que nunca chegou a concretizar-se. Em Portugal era com a Câmara de Oeiras, tivemos muitas reuniões e promessas, mas nunca passou disso.

Também na ilha da Reunião, não é?

– Sim, igual. Lá foram problemas políticos. O presidente de Câmara que estava quando fizemos o acordo perdeu as eleições, os que entraram já não se interessaram e o projeto não avançou. Temos tido algumas manifestações de interesse, mas os custos do festival são altos o que faz com que às vezes seja difícil…

Mas é um plano adiado ou ainda estão dispostos em avançar?

– Se houver novos interesses, faremos, claro. É um prazer levar o KJF para outros lugares, é um conceito que criamos que funciona e é uma marca que gostaríamos de levar para outros sítios.

Se tivesse que escolher uma edição do Kriol Jazz Festival que foi especialmente marcante, qual seria?

– Todas as edições, cada uma à sua maneira, foram marcantes porque são artistas diferentes, cada edição teve uma adesão diferente. É claro que todas as vezes que trouxemos uma estrela brasileira temos logo mais duas mil pessoas (na plateia). Cabo Verde é muito fã da música brasileira. Mas o nosso público de base são pelo menos duas mil pessoas por dia, que temos tido sempre nos últimos anos. Sempre há um pico se houver uma estrela brasileira, mas hoje em dia já não temos economia para trazer estrelas brasileiras.

É um prazer levar o KJF para outros lugares, é um conceito que criámos que funciona e é uma marca que gostaríamos de levar para outros sítios

O KJF continua a ser um evento de destaque na nossa sub-região africana?

– Sim, cada vez mais. Este ano constatamos muito interesse da costa de África. Temos vários órgãos de comunicação social, jornalistas que vêm dessa região e temos reservas de bilhetes de pessoas também dessa região. Já temos contactos de agências de viagens com pessoas que querem vir para o Kriol Jazz. Há também um jornalista que vem do Gana para promover (o evento) para ver se no próximo ano a clientela do Gana vem para cá.

Neste caso do Gana, esta continua a ser uma viagem longa que não é direta…

– Sim, eles vêm via o Senegal. Mas sabe, há uma clientela grande da costa de África que procura o turismo e geralmente todos vão para a Europa ou para a América Latina. Muitos não conhecem Cabo Verde e os que descobrem entendem que lhes sai muito mais barato vir a Cabo Verde do que ir aos destinos habituais. O nosso objetivo é atrair essa classe média que está nestes países próximos do nosso.

E por falar nisso, têm dados sobre qual foi o contributo do Kriol Jazz para trazer turistas e a nível de impacto económico para a cidade?

– Não temos um estudo, mas sabemos que neste último KJF (2019), cerca de 20 por cento do público veio de fora. Precisamente por causa disso que temos os bilhetes também à venda numa plataforma online em Portugal. Sem contar com várias pessoas que reservam os bilhetes para familiares que vêm de fora. É algo que todos os anos tem vindo a aumentar.

A nível só do festival, quantos profissionais acabam por trazer para o evento?

– Em geral, temos uns 10 convidados que vêm todos os anos. Mas temos também os profissionais do AME, onde mais de metade acabam por ficar para o Kriol Jazz. Então, são cerca de 30 a 40 profissionais. Aliás, já vimos a programação do Kriol Jazz a ser replicada noutros festivais na Europa por produtores que estiveram cá e viram os artistas no KJF, gostaram e depois os contrataram.

É um motivo de satisfação para vocês?

– Claro, motivo de orgulho. Ainda mais porque o Kriol Jazz faz parte da rede de festivais da Europa, então são nossos amigos, se eles replicam a nossa programação é um prazer.

Qual é o feedback que tem tido dos artistas que vêm para o evento?

– Muito bom. O Kriol Jazz é muito bem referenciado pelos artistas que têm vindo. Aliás temos muitas propostas de artistas que surgem na sequência disso. Muitos artistas dizem que estiveram com o tal artista que esteve cá e gostou (…) recebemos muitas propostas de agentes, produtores, todos os anos. Hoje em dia não temos problema em abordar os artistas internacionais porque eles já conhecem o Kriol Jazz (…)

Já conhecem o KJF e consequentemente “conhecem” Cabo Verde…

– Sim já ouviram falar de Cabo Verde e por isso eles vêm. Como este ano, a maioria dos que vêm ainda não conhece Cabo Verde.

Hoje em dia não temos problema em abordar os artistas internacionais porque eles já conhecem o Kriol Jazz (…)

Por falar na edição deste ano, o Tcheka é um dos artistas convidados. Ele fez a primeira edição do KJF em 2009. Convidaram-no propositadamente este ano ou foi uma coincidência?

– A nossa política é que os artistas cabo-verdianos que convidamos em geral tentamos que seja num bom momento das suas carreiras. Escolhemos o Tcheka porque ele está num momento em que está a relançar a sua carreira onde tem um novo show, com novos músicos, que está a ter uma boa repercussão na Europa. Achámos que era um momento de lhe darmos um empurrão aqui em Cabo Verde.

A nível de outros artistas o que o público pode esperar?

– São artistas excecionais. Todos eles têm especificidades diferentes e interessantes. Os artistas da costa de África que vão cá estar todos são excecionais. A Orquestra Baobab do Senegal é ‘um monumento’ nesse país. É a banda do Senegal que já fez mais tournées internacionais com uma história grande com várias gerações (…) Temos a Pamela Badjogo, do Gabão, que é uma música diferente, mais da África Central, mais bantu, uma menina com uma energia incrível em palco. Podemos falar da ASA da Nigéria, que é uma artista reconhecida mundialmente no afrobeat, com um toque de jazz na sua música, uma grande voz. Luedji Luna que vem do Brasil, da nova geração da música brasileira, uma jovem muito revolucionária, defensora da condição feminina, atualmente a artista brasileira mais ligada à África por isso também a trazemos porque a sua música tem muito da música africana.

E estes artistas já fizeram algum pedido inusitado? Já sei que por vezes acontece …

– Não, por acaso, por enquanto, não temos pedidos extraordinários. Sempre os americanos que têm muitos pedidos, mas a equipa da Deedee Bridgewater parece tranquila e ainda os pedidos extraordinários não chegaram.

E quanto ao Djavan (que deveria atuar em 2020), o público do Kriol Jazz pode esquecer?

– O contrato que tínhamos com o Djavan caiu porque era um contrato para 2020. não fizemos nesse ano, ele aceitou repor o contrato em 2022, não conseguimos fazer … Já o contrato terminou. E este ano ele não podia, porque ele só vai fazer uma tournée a partir de junho e abril não era possível. Acabámos por desistir e agora para que ele venha seria num outro ano, com um novo contrato, se ele tiver a fazer uma tournée porque em geral ele faz tournées de dois em dois anos.

É um artista que o público cabo-verdiano aprecia …

– Sim é um artista que o público cabo-verdiano gosta, só que temos de entender que estes artistas têm um custo e hoje em dia não estamos numa economia que permita trazer estes artistas. Mesmo com bilhetes a 3 mil escudos por dia, não temos economia. Trazer o Djavan são mais de 10 mil contos de despesa (…) quase metade do orçamento do festival para trazer o Djavan e o público não vai aceitar pagar o valor que é preciso para ter o Djavan. (Um show do) Djavan hoje em Cabo Verde penso que os bilhetes não deveriam estar abaixo dos 5 mil escudos.

E o público cabo-verdiano tem noção de que assiste a concertos de artistas de topo a pagar um preço que lá fora é bastante superior?

– As pessoas não têm essa noção. Bom eu entendo, cada um com a sua economia, as pessoas aqui não têm os salários que há lá fora, mas só a Deedee Bridgewater para a veres lá fora no mínimo são 8 contos. Aqui em Cabo Verde vais pagar 3 mil e não vai ser só ela, mas vários artistas. Numa noite que vais ver por um preço inferior à metade do que se paga lá fora.

Trazer o Djavan são mais de 10 mil contos de despesa (…) quase metade do orçamento do festival para trazer o Djavan e o público não vai aceitar pagar o valor que é preciso para ter o Djavan.

Para concluir, porquê vale a pena ir ao Kriol Jazz?

– Ir ao Kriol Jazz é ter confiança na programação porque sempre serás surpreendido com boa música. Se é alguém que gosta de música não vai sair do Kriol Jazz Festival insatisfeito.,

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