Dai Varela: “O crioulo deve entrar no ensino como uma disciplina para que possa ser estudado na sua vertente formal”

O jornalista, professor universitário, formador e escritor cabo-verdiano de literatura infato-juvenil Odair (Dai) Varela acredita que até se passar ao ensino bilingue, é necessário dar alguns passos, nomeadamente, apostar na biliteracia, "de quem vai ministrar a aula" e só depois avançar para o bilinguismo.

Em entrevista via email ao Balai a propósito da anunciada introdução da disciplina de língua cabo-verdiana no ensino secundário, o escritor mostra-se favorável à iniciativa e acredita que esta pode ser uma forma da “língua materna ganhar maior espaço no ambiente escolar, mas com um olhar mais metodológico e com plano curricular”.

Enquanto professor universitário, o que pensa sobre a possível introdução do ensino da língua cabo-verdiana a partir do próximo ano letivo (a nível facultativo e a partir do 10º ano)?

Considero ser a melhor opção: a entrada da língua cabo-verdiana como disciplina no ensino e não a escolha do bilinguismo na sala de aula. É a forma da nossa língua materna ganhar maior espaço no ambiente escolar, mas com um olhar mais metodológico e com plano curricular. Nós como falantes da língua materna temos essa obrigação de a conhecer e dominar, e isso nas suas várias vertentes, não só na oralidade.

É a favor do ensino bilingue?

Não. Ainda há um caminho a percorrer até se passar ao ensino bilingue. É preciso uma biliteracia (primeiro, de quem vai ministrar a aula) para depois dar forma ao bilinguismo partilhado. A questão agora é quem se responsabiliza por esses bilingues de transição e as consequências pelos seus resultados se esta experiência não for bem-sucedida? Sim, claramente há uma luta dolorosa para se aprender os conteúdos em várias áreas do ensino, e na maioria dos casos está relacionada com a deficiente alfabetização em Língua Portuguesa. Contudo, talvez a solução não seja substituir pela Língua Cabo-verdiana ou avançar rapidamente para o bilinguismo, mas tão-somente tentar outras formas de ensino da língua Portuguesa – por exemplo – alfabetizando como língua segunda. Veja, a criança passa seis, sete anos da sua vida maioritariamente com a língua primeira. Um belo dia chega na sala de aula e a professora começa a aula em português para ensinar como se aquela criança tivesse o português como língua primeira. Provavelmente, em vez de se tentar apostar nesses estudantes bilingues emergentes, apostasse mais na formação do docente bilingue. Para além das deficiências na língua portuguesa transmitidas pela professora, a criança ainda acumula as suas próprias dúvidas, que vão-se revelar também na própria interpretação dos textos para resolver uma equação matemática, ou nas competências em áreas como história e geografia. Vale lembrar que as deficiências em língua portuguesa não são colmatadas pelo nosso crioulo. É por isso que o crioulo deve entrar no ensino formal como uma disciplina para que possa ser estudado na sua vertente formal, definindo/conhecendo a gramática, metodologias, material de suporte e grelhas de avaliação.

o crioulo deve entrar no ensino formal como uma disciplina para que possa ser estudado na sua vertente formal

Da sua experiência em sala de aula, os alunos aprendem ou expressam-se melhor em crioulo ou em português?

É preciso ver-se este “melhor” por mais do que um prisma. Muitas vezes, um aluno que não consegue elaborar em língua portuguesa uma reinterpretação acerca de um conceito em debate na sala de aula, ao fazer recurso da língua cabo-verdiana, também não o consegue fazer. Aqui a questão não era a ferramenta em si (a língua), mas outros motivos. Eu já tive muitas situações na sala de aula nas quais o aluno inicia a frase em português, hesita no pensamento, recorre ao crioulo, provoca a riso, gesticula e começa com uma comunicação não-verbal de abundantes interjeições. Parece num primeiro momento que entrou na sua zona de conforto porque irá se expressar em crioulo, mas por ter de ater-se ao assunto da aula e por lhe faltar vocábulo, dá aquele riso que procura contagiar a turma e desiste. O recurso ao crioulo afigura-se como uma bengala linguística para a incompetência no uso da língua portuguesa. Claro que acredito que o melhor cenário seria se pudéssemos expressar os conceitos tanto em português ou no nosso crioulo quase com a mesma competência.

Já na pele de escritor, alguma vez escreveu na língua cabo-verdiana?

Sim, já escrevi. Mas usando o “meu crioulo”, ou seja, sem o uso de regras ou padronização fonológica, mas sim com recurso a uma base etimológica do crioulo. Logo assim me lembro de um pequeno poema que escrevi com o título “Cumpanher d’catchor”:

Caminh d’Laginha

Sbida d’Somada

Sol escaldante

Pe na tchôn, estrada quent

Corp estafôd, sô selitra

Nôs tud bá e bem d’junt

Cumpanher d’catchor sô Monte Cara

Cara rise, rise

Cara mudôd ne pe d’porta

Caminh d’casa


Sol escaldante

Pe na tchôn, corp quente

Corp estafôd sô pancada

Tronk nú, barriga k’fôme

Cara d’tchor, tchor

Mi ê nhe cumpanher d’nha dor…..

 

Como pode ver eu não sei escrever usando o ALUPEC. Contudo, tenho dois livros publicados que têm a tradução para a língua cabo-verdiana, usando o ALUPEC. As traduções dos meus dois livros da série “Tufas, Princesa Crioula” foram feitas pelos tradutores e especialistas da língua cabo-verdiana, Carlos A. Almeida e a Nezy Brito, e procurou-se a convivência das variantes entre as personagens. É bem provável que eu não venha a fazer uso do ALUPEC ao escrever, mas sim nas traduções.

Acredita que deveria haver uma maior aposta nesse sentido ou ainda não há condições para tal?

Se fala em aposta na publicação de livros em língua cabo-verdiana, é preciso ter em conta o essencial: o público leitor. Um autor independente até pode dar-se ao luxo de publicar para não ser lido, mas uma editora estará fadada à falência sem público leitor. E a competência de leitura em língua cabo-verdiana não é inata por se falar crioulo. Por seu lado, o Estado está mais preocupado com a reedição dos “clássicos” e estes estão na língua portuguesa e se apostar na publicação em língua cabo-verdiana estará a disponibilizar um produto sem ter criado as condições para o seu consumo. Cabe ao Estado criar as condições para a emergência deste púbico leitor, mas talvez seja mais do que apenas apostar na publicação de livros em língua cabo-verdiana…

Um autor independente até pode dar-se ao luxo de publicar para não ser lido, mas uma editora estará fadada à falência sem público leitor

Para alguns estudiosos da língua cabo-verdiana, a questão das variantes é uma falsa questão. Partilha dessa opinião?

Não é, necessariamente, uma falsa questão. Da mesma forma que não se pode ignorar a importância do macro (a própria língua cabo-verdiana) também não se pode ignorar os vários fatores micros (entre os quais, a questão das variantes). Claro, historicamente a imaginação e construção do Estado de Cabo Verde fez-se – também – no nosso crioulo, juntamente com a língua portuguesa. Mesmo que em variantes diferentes, nunca houve a imaginação e construção de um outro Estado com base numa divisão linguística, como já aconteceu várias outras paragens. Cabe Verd ê um sô! Mas não podemos ignorar que a língua é uma questão também ela, política, de poder e de privilégios que pode dar lugar a tensões caso este dossier da oficialização da língua cabo-verdiana for mal gerido, incluindo a questão das variantes.

não podemos ignorar que a língua é uma questão também ela, política, de poder e de privilégios que pode dar lugar a tensões.

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