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O acidente, que provocou um elevado número de vítimas, atingiu de forma particularmente grave a comunidade educativa do concelho de São Filipe, em particular da parte alta do norte de São Filipe, desde Velho Manuel até Monte Preto, passando por Domingos Ledo, Albarca e Ribeira Filipe.
Segundo José Pedro Gonçalves, dos 17 estudantes que perderam a vida, 14 pertenciam ao Agrupamento III, com sede na Escola de Curral Grande, e três ao Agrupamento IV, sediado em Ponta Verde.
O delegado do Ministério da Educação revelou os dados à Inforpress após uma reunião extraordinária destinada a preparar um plano de intervenção para os próximos dias, tendo em conta o impacto emocional que a tragédia deverá provocar no regresso às aulas.
“Foi uma iniciativa da comunidade para realizar este passeio e acabou por afectar a comunidade educativa”, afirmou José Pedro Gonçalves, que manifestou solidariedade às famílias das vítimas e à comunidade do concelho de São Filipe, da ilha do Fogo e de Cabo Verde.
Perante a dimensão da tragédia, a Delegação do Ministério da Educação está a preparar medidas para acolher e acompanhar os alunos nos primeiros dias de aulas, reconhecendo que o regresso às escolas poderá ser marcado por “muita tristeza”, sobretudo entre amigos e colegas das vítimas.
José Pedro Gonçalves explicou que as escolas deverão estar particularmente atentas aos sinais emocionais apresentados pelos estudantes, contando com o apoio de psicólogos para intervir sempre que forem identificadas situações que exijam acompanhamento especializado.
Além da activação de um psicólogo junto de cada direcção escolar, a delegação dispõe de uma psicóloga que já se encontra no terreno, integrada nas equipas do Gabinete de Crise criado na sequência do acidente, prestando apoio às famílias e à comunidade educativa.
O responsável revelou ainda que estava prevista uma marcha de solidariedade no dia 14 de Setembro, mas a iniciativa poderá ser adiada.
Segundo explicou, especialistas consideram que a realização da marcha tão próxima da tragédia poderá ser contraproducente, sobretudo numa altura em que as famílias continuam envolvidas nos trabalhos relacionados com o acidente.
A data deverá, por isso, ser reavaliada em concertação com o gabinete de crise, tendo em conta o estado emocional das famílias e da comunidade.
O delegado do Ministério da Educação, que integra igualmente o Gabinete de Crise, garantiu que a instituição continuará a acompanhar a situação e a adoptar medidas destinadas a minimizar o impacto psicológico da tragédia entre os estudantes.
Para além dos 17 estudantes que perderam a vida, o acidente deixou ainda 13 estudantes hospitalizados, de acordo com os dados disponibilizados à Delegação do Ministério da Educação por elementos que se encontram no terreno.

Liliana Correia, professora de Língua Portuguesa e Literatura do Agrupamento VI, que integra a Escola Secundária Pedro Verona Pires, revelou ter perdido seis alunos no acidente, destacando a relação de amizade e cumplicidade que mantinha com os estudantes, para além da sala de aula.
“Numa escola rural, a proximidade entre professores e alunos é muito forte. Transformamo-nos em mães, psicólogos, em tudo”, explicou a docente de 32 anos.
Além dos seis alunos que perdeu no acidente, a professora disse conhecer e acompanhar outros jovens envolvidos em actividades escolares, nomeadamente no teatro e no projecto de rádio da escola. “Considero que são todos os meus alunos, e perdi-os”, lamentou.
A docente descreveu os jovens como pessoas alegres, ligadas ao futebol e às actividades da comunidade, incluindo a igreja e grupos recreativos, e que tinham “um contributo a dar” à sociedade.
“A nossa comunidade ficou frágil, porque os alunos e adolescentes se foram”, afirmou.
Para Liliana Correia, os alunos demonstram uma grande capacidade de resistência, sobretudo perante as dificuldades que enfrentam diariamente para frequentar a escola.
“Estando no meio rural, a escola fica dispersa. O facto de levantar e decidir ir para a escola já é uma forma de resistência”, explicou.
Liliana Correia contou ainda que, enquanto estudante, participou em passeios promovidos pelo mesmo condutor e, posteriormente, já como professora, também acompanhou alguns desses passeios, embora com menor frequência nos últimos tempos.
Segundo a docente, o passeio realizado anualmente representava uma espécie de reconhecimento aos estudantes pelo esforço, dedicação e passagem de ano, sendo aguardado por todos com grande entusiasmo.
Após o acidente, teve contacto com alguns dos alunos sobreviventes, encontro que descreveu como marcado pelo silêncio, abraços e lágrimas.
“Sobreviveram, mas não estão bem”, afirmou, manifestando preocupação com o impacto da tragédia no regresso às aulas.
Com o início do novo ano lectivo previsto para 21 de Setembro, Liliana Correia considera que os professores terão de reunir forças para acolher os alunos e ajudá-los a enfrentar as consequências emocionais da tragédia.
C/ Inforpress

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