Recordar Lilica Boal: o percurso da professora e combatente da liberdade

Um mês após o seu falecimento, o Balai partilha a entrevista da jornalista portuguesa Mariana Carneiro com Lilica Boal, professora cabo-verdiana e combatente da liberdade que lutou pela independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde, realizada no âmbito do projeto “Mulheres de Abril”.

No testemunho recolhido por Mariana Carneiro em 2019, Lilica Boal partilha momentos marcantes da sua vida e luta. Desde a infância no Tarrafal até à sua formação académica em Portugal e posterior fuga para Dakar para integrar o PAIGC. Como dirigente da Escola-Piloto, destacou-se na formação de quadros. No relato, Lilica reflete sobre as dificuldades, o papel das mulheres na luta pela independência e os desafios enfrentados no pós-independência.O testemunho disponível online pode ser lido na íntegra através deste link.

Maria da Luz “Lilica” Freire de Andrade Boal, mais conhecida por Lilica Boal, nasceu em Tarrafal de Santiago. Lilica Boal foi professora da escola-piloto do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) durante a luta pela Independência, onde teve também a responsabilidade de acolher os filhos e dos órfãos dos combatentes da luta armada.

Fiquei no Tarrafal até à idade de 11 anos. Na altura, tínhamos muitos problemas com a Educação. Não existia liceu na ilha de Santiago. Quando fiz a quarta classe, tive de ir para São Vicente, para o Liceu Gil Eanes. Na altura – e digo isto porque penso que é importante – éramos muito poucas. Para se ir para outra ilha, exigia-se certo meio de deslocação, de estadia… Éramos apenas cinco raparigas. Também não havia muitos rapazes. Estive em São Vicente durante seis anos.

Dedicou a sua vida à causa da emancipação dos povos africanos e ao combate às desigualdades, marcando presença em momentos decisivos da história de Cabo Verde. No pós-Independência foi a primeira mulher deputada cabo-verdiana, sendo também a única figura feminina da primeira legislatura da Assembleia Nacional de Cabo Verde.

Foi um trabalho extraordinário. Digo mesmo que aquela Escola, que funcionava em regime de internato, foi a melhor escola da minha vida. Éramos todos uma grande família. Aqueles miúdos, mais de cem, formavam um grupo muito heterogéneo, de várias idades, com problemas diferentes. Muitos nem conheceram o colonialismo, porque viviam no mato. Foi na Escola-Piloto que ganharam consciência da realidade do seu país e da necessidade da luta.

Foi uma das fundadoras da Organização das Mulheres Cabo-verdianas (OMCV), em 1981. Em 2022 emprestou o seu nome ao Centro de Formação e Capacitação Profissional da OMCV em Tarrafal de Santiago.

A combatente da liberdade faleceu aos 90 anos, na cidade da Praia, e foi enterrada na cidade que a viu nascer. Lilica Boal tinha sido sujeita a uma intervenção cirúrgica, após uma queda, e estava internada desde 23 de Outubro, acabando por falecer devido a complicações a 6 de novembro, segundo a agência Lusa.

O testemunho de Lilica Boal, acompanhado de fotografias do arquivo pessoal da família, está disponível online e pode ser lido na íntegra através deste link.

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