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A iniciativa visa identificar os problemas reais da população e propôr soluções práticas baseadas no uso da IA.

A BluKode é uma startup tecnológica de Cabo Verde focada no desenvolvimento de soluções de Inteligência Artificial (IA) de dados que visam ter um impacto social. Criada por um grupo de quatro jovens cabo-verdianos, na sua maioria engenheiros, a empresa nasceu em finais de 2024 e ambiciona ser uma “powerhouse de IA” no contexto cabo-verdiano e contribuir para que o arquipélago seja uma referência na área de inovação.
A BluKode surgiu com o objetivo de mostrar que “é possível desenvolver tecnologia de ponta” a partir de Cabo Verde e ajudar a tornar o arquipélago uma referência, quer a nível africano, quer a nível global, no desenvolvimento de software, conforme explica Bruno Figueiredo, um dos fundadores.
O grupo fundador da BluKode é composto por quatro primos, a maioria engenheiros formados em Portugal, sendo que atualmente três dos membros já residem em Cabo Verde. Bruno Figueiredo e Élio Santos são formados em Engenharia Eletrotécnica, Marcos Santos em Engenharia Informática e Gabriela dos Santos, a única mulher do grupo, em Matemática Aplicada.
Gabriela, aliás, foi distinguida com a sua tese de mestrado intitulada Comparative Efficiency Analysis of Bank Branches: Cape Verdean Bank (Análise Comparativa de Eficiência de Agências Bancárias: Caso Banco de Cabo Verde) como uma dos vencedores dos Prémios Científicos 2024, o que reforça a vertente analítica da empresa.
Bruno Figueiredo defende que a Blukode é a primeira startup de base de Inteligência Artificial (IA) de Dados em Cabo Verde, “algo inovador e disruptivo”. Apesar de ainda não ter lançado um MVP (produto mínimo viável), a startup está atualmente a trabalhar em parceria com a finetech cabo-verdiana Koru (anteriormente EasyPay), liderada pela engenheira Leida Correia e Silva. O objetivo é criar um sistema digital de transferências e pagamentos por telemóvel, compras online, aquisição de bilhetes, etc. “Uma iniciativa disruptiva que vai mudar o sistema financeiro e bancário em Cabo Verde e vai facilitar o envio de remessas”, defende Bruno e complementa que a startup tem procurado novas oportunidades.
Conforme explica Élio dos Santos, que à semelhança do que estão a fazer com a Koru by Easypay, a ideia é trazer soluções tecnológicas que já existem e aplicá-las no mercado local.
Segundo Bruno, atualmente estão a analisar as necessidades que a população em geral tem, em Cabo Verde, e que podem ser resolvidas com a IA. Exemplifica que na área de serviços públicos e privados existem várias formas de automatizar os serviços prestados nomeadamente na área de atendimento, reclamações e gestão de serviços que atualmente depende em certa forma da classificação do ser humano.
“Nós temos experiência em soluções que usam a IA para automatizar os processos. Por exemplo, as reclamações podem entrar de várias formas numa instituição: via email, em papel ou digitadas por alguém. Nestes casos existe o OCR (Optical character recognition (Reconhecimento Óptico de Caractéres) que permite pegar num documento e detectar o que está lá escrito e perceber, por exemplo”, este processo depois permite a classificação automática, o seu encaminhamento e a detecção os processos prioritários, reduzindo a dependência de interação humana e aumentando a eficiência.
Nesta linha, Élio mostra-se confiante no potencial do país e destaca que Cabo Verde é um país pequeno que tem muita abertura para a inovação tecnológica, quer a nível governamental, quer a nível da população. Não há razões para não estarmos a fazer as coisas de forma mais fácil e com o mínimo de processos burocráticos”.
Questionados sobre os custos deste tipo de soluções, segundo Bruno, o desenvolvimento da inteligência artificial, nomeadamente com a open IA da Google, Microsoft, Facebook, etc. trouxe a democratização no acesso a este tipo de ferramentas e criou um ambiente que permite rapidamente integrar as soluções de uma empresa como a BluKode com a IA. Isso faz com que os custos sejam realistas, baseados na utilização, tendo em conta o contexto cabo-verdiano. ” (com a nossa pesquisa) Percebemos também que os custos usando estas ferramentas são baseados na utilização com pagamentos anuais, que as médias e grandes empresas, bem como o Estado conseguem suportar”.
Já Élio salienta que os investimentos feitos em infraestruturas como o Data Center e o Parque Tecnológico, por si só já abrem portas para soluções e permitem tornar “o custo suportável”. “Outra vantagem é o ganho que seria ter um sistema muito mais rápido no atendimento e na entrega. Ou seja, há um custo de ter o sistema, mas o sistema a longo prazo vai trazer mais benefícios “.
Inovação africana com selo crioulo
Apesar de recente (foi formalizada em 2024), os promotores afirmam que não sentiram na prática obstáculos na criação da sua empresa nem que houvesse barreiras para jovens que estivessem na mesma etapa. Entretanto, entre os desafios apontam conseguir criar soluções tecnológicas que se encaixem nos problemas e necessidades reais da população.
Élio dos Santos complementa que neste momento o maior desafio é ganhar a confiança dos clientes porque atualmente a tendência em Cabo Verde é recorrer a este tipo de serviços prestados por empresas no estrangeiro ou empresas já estabelecidas. “Acreditamos que podemos complementar estas ofertas. Até porque financeiramente pode ser mais apelativo recorrer a uma empresa local, que pode dar um suporte mais presencial e ativo do que uma empresa situada fora”.
“A nossa ideia sempre foi também ser um ponto de conexão entre desenvolvedores cabo-verdianos, que têm qualidade, mas que não encontram projetos ou não conseguem entrar em contacto com empresas grandes”, afirma e diz que a BluKode tem essas duas vertentes – serem eles próprios desenvolvedores de IA e de soluções de software, mas também fazer ‘outsourcing’ para outros desenvolvedores mais jovens.
Bruno Figueiredo acrescenta que a empresa acredita no potencial de internacionalização do talento cabo-verdiano e que o desafio de crescimento é justamente conseguir internacionalizar algo que só será possível alcançar “demonstrando que podem desenvolver com qualidade e eficiência” serviços tecnológicos e produtos próprios.
No que diz respeito ao nome BluKode é inspirado em Cabo Verde, com o “blu” a remeter para o azul do mar, “Kode” de código e de “kodê”, em crioulo.
Dedicados a outras ocupações profissionais, os mentores da iniciativa ambicionam dedicar-se à BluKode em exclusivo num futuro próximo.
Para além disso, projetam-se como uma “powerhouse de IA” no contexto cabo-verdiano e uma referência emergente em inovação africana. “Queremos que quando se pense em soluções de IA em Cabo Verde pensem primeiro na BluKode”.
Cristina Morais

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