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Em março, os atletas da Acroart trouxeram na bagagem medalhas de bronze depois de participar num torneio internacional em França, onde eram a única equipa africana.

Há quase nove anos surgia na capital a escola Acroart, um espaço aberto para atletas e interessados na prática do desporto, especialmente ginástica. A escola que é um dos poucos clubes desportivos da Praia já trouxe inúmeras vitórias e medalhas de ouro, prata e bronze para Cabo Verde e tem trabalhado na mudança de mentalidade em relação à Ginástica Rítmica, Acrobática e outras modalidades pouco praticadas no país.
A escola Acroart foi criada por iniciativa da jovem cabo-verdiana Jennifer Ramos, atleta e engenheira de formação, quando percebeu que a Federação de Ginástica estava em vias de extinção e o desporto que tanto gostava poderia deixar de ser praticado. Jennifer sempre conviveu com a ginástica e exercia a modalidade desde os quatro anos por incentivo da mãe, Noemi Ramos, que também sempre gostou de ginástica.
“Há 10 anos uma pessoa perguntou-me qual era o meu objetivo de vida, uma questão sobre a qual nunca tinha pensado”, conta a fundadora da escola. Esta pergunta fez Jennifer refletir sobre as suas metas de vida e chegou à conclusão que desejava deixar uma marca positiva nos que a conhecem. Por isso, dedicou-se ao projeto Acroart que segundo define é focado em “mudar a vida das pessoas e contribuir para o bem-estar da sociedade”.
Conta que a ginástica sempre esteve presente, entre momentos de idas e vindas, mas quando passou a participar de competições dentro e fora do país começou a esforçar-se para se superar. Tornou-se um desafio pessoal, e nos anos de 2000, 2002, 2004 e 2006 trouxe várias medalhas para Cabo Verde na modalidade de Ginástica Rítmica. Todas as vitórias e competições em que participou foram cruciais para desenvolver ainda mais o amor pelo desporto.
Em 2014, a jovem ginasta criou a escola Acroart que além de ensinar modalidades desportivas, incentiva a prática de valores como a educação, a responsabilidade, a qualidade, o respeito e o fair play. Hoje com quase nove anos, o clube faz aniversário a 21 de julho, a escola já representou Cabo Verde em competições internacionais, tendo conquistado o pódio por diversas vezes e também criou competições nacionais para estimular o espírito de disputa e evolução nos atletas.

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Medalhas de bronze enquanto única equipa africana no Aquae Open Cup 2023
Este ano, a escola teve a oportunidade de competir internacionalmente em França, ao lado de 300 ginastas, tendo sido a única equipa africana na competição. A Acroart esteve representada por oito ginastas, uma treinadora, um júri e um chefe de delegação.
Meses antes de partir Jennifer conta que iniciou uma campanha de angariação para conseguir fundos para a deslocação para o Aquae Open Cup. A treinadora é grata aos pais, instituições e parceiros que tornaram possível a realização deste sonho.
A escola Acroart trouxe para o país duas medalhas de bronze nas categorias par misto, com os atletas Stephanie da Cruz e David Spencer, sendo que este último também ocupou o terceiro lugar na categoria individual masculino.
Isabel Rodrigues, mãe de uma das atletas que esteve com a escola no torneio em França falou da sensação única de acompanhar a filha e os atletas na competição. “Foram dias arrebatadores, emotivos, intensos, uma experiência que nenhum de nós vai esquecer para a vida”, recorda.
Enquanto mãe de uma das atletas, Isabel Rodrigues considera que os pais devem ser facilitadores dos gostos pessoais dos filhos. Destaca que a ginástica sempre foi a escolha da filha e só descobriu esta paixão durante a pandemia, depois que começou a viver em Cabo Verde, e que como mãe incentivou este gosto.
Stephanie da Cruz e David Spencer, os atletas vencedores das medalhas de bronze no torneio do Aquae Open Cup 2023 contam que nutrem amor pela ginástica desde pequenos, altura em que começaram a praticar, e dizem que os pais sempre os apoiaram em suas decisões. Ambos já representaram Cabo Verde em competições no Egito, nas ilhas Canárias e, recentemente, em França.
Stephanie da Cruz descobriu a paixão pela ginástica ainda pequena quando no sofá fazia espargata depois de ver vídeos. Anteriormente, fazia ginástica rítmica no Gimno e com sete anos entrou para o Acroart.
Em entrevista ao Balai, a atleta de 16 anos revela que deseja “continuar a fazer ginástica mesmo depois de terminar os estudos”, adiantando que quer trazer novas visões sobre a modalidade para os cabo-verdianos. Destaca que não é difícil conciliar a vida pessoal com os treinos, que nestes casos ter uma rotina disciplinada ajuda a ser uma boa aluna, atleta e pessoa.
Com David Spencer, também de 16 anos, não é diferente, o atleta pratica ginástica desde pequeno em São Vicente. Ao chegar na capital, assistiu a uma palestra da escola Acroart e decidiu entrar para o clube.
Questionado se já sofreu preconceito pelo fato da ginástica ser praticada maioritariamente por mulheres, David responde: “Acredito que o preconceito acontece quando deixas acontecer”. Adianta que em Cabo Verde existem mais mulheres a praticar a modalidade, mas noutros países e locais pôde constatar o mesmo número, ou até superior, de homens ginastas.
O atleta considera o torneio uma boa oportunidade para mostrar a sua evolução enquanto ginasta desde o ano passado até hoje. “Mostrou que com muito trabalho posso ter bons resultados”, concluiu.
Desafios atuais da escola e ambições para 2023
Sendo Cabo Verde um país mais virado para as modalidades pelo futebol, andebol, voleibol e basquetebol, criar uma escola voltada para a ginástica acarreta crescentes desafios.
Após quase nove anos de funcionamento, Jennifer Ramos diz que a escola ainda enfrenta algumas dificuldades e até uma certa “estagnação” e explica que a modalidade exige condições especificas de treino para o lance de objetos e ginastas, uso de aparelhos, piso adequado e uma certa altura nos locais de ensaio. Por isso, a treinadora destaca a enorme dificuldade de encontrar um espaço que aceite ensaios pós-laborais e que tenha uma altitude boa para esta prática desportiva.
Atualmente a treinar em Achada Santo António, a responsável afirma que o espaço é apropriado para uma iniciação em ginástica, mas não serve para treinos futuros porque coloca em risco a saúde física dos atletas. “A partir do momento que atingimos um nível, não conseguimos ir além”, lamenta.
A estagnação que também é causada pela falta de competições nacionais para estimular a evolução dos atletas. “Sem competição não há evolução”, frisa, adiantando que como a escola Acroart é um dos poucos clubes que opera na capital os atletas acabam por não ter muito espírito de competição. Compara a ginástica nacional com a de outros países como o Egito onde já competiram, onde este desporto conta com atletas profissionais, estruturas apropriadas para a modalidade e especialistas.
Jennifer Ramos sublinha que esta diferença vem da forma como ambos os países encaram a ginástica. Para a treinadora existe ainda em Cabo Verde a perceção de que a modalidade é um passatempo ou uma atividade recreativa e por isso não é colocada no mesmo patamar do que outros desportos e não é profissionalizada. “Em Cabo Verde, modalidades como a ginástica são vistas como passatempos, o que não ajuda na profissionalização”, afirma.
Por iniciativa própria e ciente das necessidades atuais, a escola abriu competições nacionais e tem trabalhado há anos para mudar a visão desta modalidade no país. Acroart dirige a Gala Acroart, o Torneio Mascote Acroart e o Open Nacional de Ginástica no ano de 2023, sendo este último previsto para acontecer em finais de abril.
O Open Nacional de Ginástica está previsto ter a sua 2.ª edição nos dias 29 e 30 de abril, sendo que a 1.ª edição decorreu em 2019. Segundo a mentora, a escola está à espera de um praticável (rolo de tapete usado como piso para praticar) chegar a Cabo Verde, já que sem este instrumento a escola está impossibilitada de convidar outras escolas a participarem no concurso por falta de piso.
A escola tem 80 inscritos, três treinadores, um preparador físico e uma coreógrafa e professora de dança e expressão. A Acroart oferece aulas de Ballet, Ginástica Acrobática e Ginástica Jovem. Durante a pandemia, a escola incluiu aulas como Hip Hop e expressão corporal. Ao longo dos anos, os alunos da escola já se apresentaram em várias festividades e eventos como Noite Branca, Mostra de Dança, Gamboinha, comemorações do Dia da Criança e no Kriol Jazz Festival.
Celine Salvador / estagiária
Fotos cedidas pela escola

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