“Fomos pacientes, mas chegou o momento de os governantes retribuírem”, diz dirigente do MIM

A 6 de setembro o Movimento Independente Maense (MIM) promoveu uma passeata na ilha do Maio sob o lema "Maio Não Pode Mais Esperar".

Fizeram as manchetes nacionais esta semana depois de uma passeata promovida no passado dia 6 de setembro, mas há alguns anos que o Movimento Independente Maense (MIM) tem estado a desenvolver atividades que visam “despertar” a juventude e sociedade civil maiense no geral, bem como chamar a atenção da classe política para a situação da ilha do Porto Inglês.

Em entrevista ao Balai, Nelson Ramos, presidente do MIM, explica que as bases do movimento surgiram ainda em 2020, durante a época da pandemia da covid-19, quando um grupo de cerca de 20 jovens oriundos da ilha do Maio, uns no país, outros na diáspora, começaram a falar online sobre as mudanças que gostariam de ver na ilha. “Até que chegamos, em concertação, ao Movimento Independente Maense”.

A formalização do grupo enquanto associação começou a ser feita este ano, diz Nelson que é engenheiro e reside atualmente na Holanda.

Ao longo destes três anos, o movimento procurou chamar a atenção da sociedade civil para vários aspetos relacionados com a ilha. Quando em 2020 se começou a falar do Maio enquanto “hub dos transportes marítimos”, o grupo chegou a enviar uma carta ao Presidente da República, que na altura era Jorge Carlos Fonseca, a expor algumas das suas preocupaçōes nesta área.

Paralelamente, lançaram nas redes sociais do MIM o programa Maio em Debate, que consiste numa série de debates com personalidades oriundas ou ligadas ao ‘Djarmai’ a discutir temas relacionados com a ilha. O programa mais recente, que acabou por ser cancelado, deveria ser um debate entre os deputados nacionais eleitos pelo círculo eleitoral da ilha do Maio Antonita Vieira e Edson Alves, com a moderação do jornalista José Carlos Varela.

Passeata “Maio Não Pode Mais Esperar”

Segundo explica o representante do movimento, a passeata desta quarta-feira, dia 6, foi ponderada e preparada desde junho quando elaboraram um plano de ação, sendo que a adesão acabou por superar as expectativas da organização.

“Tínhamos um certo receio porque sabemos a sociedade que temos e que não faz parte, digamos assim, da cultura do Maio de sair à rua para reivindicar. Era um desafio. Já houve tentativas de outros grupos”, afirma o líder do MIM e explica que conversou com os restantes elementos do grupo sobre o tema para que todos estivessem conscientes.

A nível de objetivos, a organização quis primeiramente chamar a atenção do Governo, até porque como salienta Nelson Ramos, apesar de reconhecer que todas as ilhas merecem ter atenção e que Cabo Verde é um país pobre, salienta que “Maio já não pode mais esperar”. “Não podemos ter uma casa com nove filhos em que dás mais a um do que a outro“.

Cientes de que não faz parte da cultura do Maio exigir e reivindicar, os jovens do MIM quiseram mudar essa realidade e despertar a sociedade civil. “Crescemos a ouvir os nossos pais a dizer “Cuidado com isso e mais aquilo”, nós queríamos passar uma outra mensagem aos nossos jovens e crianças”, afirma e explica que fizeram uma sensibilização pelas várias localidades da ilha.

Outra questão salientada por Nelson Ramos é que algumas vozes críticas afirmaram que o grupo deveria apresentar soluções e alternativas para os problemas mencionados, mas o engenheiro salienta que esta é a função do governo que foi eleito para tal. “Quando escolhemos um governante é para governar (…) não se pode exigir que sejamos nós a dar as respostas (…) é complicado e revela um certo desconhecimento da política”.

“Relativamente à adesão, superou de longe as nossas expetativas”, afirma Nelson Ramos e diz que o grupo estava consciente de que poderiam ser só os 10 elementos do MIM (vindos do exterior) a sair nas ruas, mas que rapidamente constataram que a realidade seria diferente, inclusive as 30 t-shirts que mandaram fazer foram insuficientes para todos o que quiseram participar. Acrescenta que só na localidade de Morrinho três Hiaces não foram suficientes para a quantidade de pessoas que queriam participar na passeata.

“Foi extraordinário. A passeata foi de certa forma um sucesso. Agora só falta os governantes perceberem a mensagem”, diz o ativista.

Questionado se foram abordados por algum governante, o jovem diz que oficialmente ainda não. “O que posso dizer é que se esta mensagem não passou, não sei o que poderá passar. Não vamos baixar os braços e vamos continuar a fazer o que for possível para a chamar mais a atenção, se for o caso“.

Na sequência do objetivo de consciencializar os jovens e incentivar a participação cívica, o MIM tem um projeto que visa envolver a escola secundária e instituições como o INE e o CNE para promover formações sobre como funcionam as instituições e como fazer interpretação de dados sobre o país e a ilha.

Questionado sobre se o grupo tem motivações político-partidárias, Nelson Ramos diz que no seu caso, enquanto atual líder do MIM, quer deixar o movimento como “um espaço aberto a todos os jovens do Maio” e que, pessoalmente, apoiaria qualquer elemento do grupo que quisesse se candidatar a um cargo político contudo não enquanto MIM e que o movimento “tem tudo a ver com política mas é apartidário”.

Formado em Engenharia Industrial em Castelo Branco, Portugal, Nelson Ramos é um filho da terra que deixou a ilha do Maio para concluir os estudos secundários na Praia, tendo depois rumado para Portugal e atualmente reside na Holanda.

“Qualquer cabo-verdiano deveria estar aberto para dar o seu contributo para Cabo Verde da forma como considera pertinente, quer na política, quer a nível empresarial, por exemplo”, defende o jovem, salientando que admira os líderes cabo-verdianos, desde o Amílcar Cabral até à atualidade. “Em 48 anos de independência, o percurso do país é invejável”.

Foto cedida

Quanto às mudanças que o MIM espera na prática, Nelson Ramos diz que mensagem mais importante de que “o Maio não pode mais esperar porque a juventude maiense não vai mais esperar” já passou. “O ‘copo’ da ilha do Maio já transbordou. Já chegamos na nossa exaustão até que ‘vazou’ (…) Já fomos pacientes, mas já chegou o momento de os governantes retribuírem“, afirma e lamenta que em Cabo Verde haja uma partidarização do governo que no caso do MIM esperam uma mudança do governo do país.

Turismo sustentável, água dessalinizada, energias renováveis entre propostas do MIM

A nível das principais reivindicações do movimento estão a necessidade de se apostar num turismo mais sustentável na ilha que, à semelhança do Sal e da Boa Vista, tem enorme potencial nesta área e que não sejam cometidos os mesmos erros no Maio que nessas ilhas. “Já há muito estamos à espera e é preciso acelerar o processo”.

E neste aspeto a questão dos transportes, quer marítimos quer aéreos, é “fundamental”, defende o ativista. Apesar de admitir que já defendeu que não era necessário um aeroporto internacional na ilha, Nelson Ramos diz que devido à atual instabilidade de ligações, um aeroporto que permitisse ligações internacionais diretas à ilha, mesmo que seja com um serviço sazonal, é importante até para os investidores estrangeiros.

Outro setor fundamental é a agricultura onde defendem que a aposta deveria passar pela água dessalinizada. Paralelamente sugerem a aposta na energia renovável, pois acreditam que a ilha poderia servir de laboratório de energia renovável para o resto do país e, quiçá um dia, ser 100 por cento à base de energia limpa.

A água dessalinizada poderia servir igualmente para a pecuária.

Ainda na agricultura, o MIM defende que a proximidade com a ilha de Santiago deveria ser melhor aproveitada e os barcos poderiam fazer uma paragem para serem abastecidos com produtos agrícolas e não só para ilhas como a Boa Vista e Sal.

No setor da pesca, o movimento também defende uma maior aposta sendo que a ilha possui uma das maiores áreas pesqueiras do país deveriam apostar em embarcações de maior porte, bem como apostar uma remodelação do porto cais no norte da ilha.

A aposta em todos estes setores poderia contribuir para a fixação de jovens na ilha que é uma grande preocupação dos dirigentes deste movimento.

 

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest