Joana Almada quer “arrumar a casa” e devolver estabilidade à Associação Cabo-verdiana de Pessoas com Deficiência

A Associação Cabo-verdiana de Pessoas com Deficiência (ACD) entrou numa nova fase sob a liderança de Joana Almada, nomeada recentemente presidente da instituição após um período marcado por “instabilidades e conflitos internos”. Com duas décadas de experiência como membro diretivo da associação, Almada assume o cargo com o compromisso de reestruturar e recuperar a credibilidade da ACD junto dos parceiros e beneficiários.
“Não concorri ao cargo, fui indicada, talvez por ser a única pessoa que estava realmente preparada e que está há mais tempo na associação. Senti-me na obrigação de assumir esta responsabilidade diante da situação que ACD estava a passar, mesmo contra a minha vontade”, avança em entrevista ao Balai, apontando que já estava ciente dos desafios que iria enfrentar.
Reestruturação e auditoria
A nova presidente assumiu o cargo há três meses após a saída de Bernaldino Gonçalves, cujo mandato foi interrompido devido a divergências internas e denúncias de má gestão que levaram ao bloqueio de verbas governamentais.
Segundo Joana Almada, a associação vivia um clima de desunião. “Não havia conversação, união e nem entendimento”. “Era um mandato de 4 anos, mas foi interrompido porque estávamos sem condições psicológicas para continuar”, disse, salientando que foi convocada uma assembleia geral e a formação de uma nova direção.
Um dos primeiros passos da nova direção foi solicitar ao governo uma auditoria urgente e o desbloqueio de verbas de forma a garantir a sustentabilidade da instituição.
A dirigente reconhece que os desafios são imensos, principalmente a nível financeiro, mas garante que a prioridade é “organizar a casa, tanto a nível financeiro como dos recursos humanos”, bem como devolver credibilidade à associação.
Apesar dos obstáculos, a nova direção já conseguiu retomar o diálogo com parceiros nacionais e internacionais como o Ministério da Família e o Handicap International. “Retirando o contratempo com o antigo presidente e as questões financeiras, acredito que estamos num bom caminho em três meses de gestão.”
Aposta no digital
Entre as medidas imediatas está o processo de informatização da Associação Cabo-verdiana de pessoas com Deficiência (ACD), bem como do Centro Nacional Ortopédico e da Reabilitação Funcional (Cenorf) e da unidade de produção de vela – Lumiarte, duas estruturas sob a alçada da associação.
Com o apoio gratuito da empresa Skytech, a ACD vai ter um website próprio e email institucional, o que, segundo a atual presidente, vai evitar a dependência de terceiros.
“Não houve passagem de pastas. Não recebemos informações, nem acesso ao email institucional ou redes sociais”, revela, apontando que o foco é o futuro, não os constrangimentos do passado. “Estamos a começar do zero.”
Outra prioridade apontada pela dirigente é a valorização dos colaboradores. “Estamos a trabalhar num plano de carreiras. Por exemplo, há funcionários com 20 anos de serviço a receber salário mínimo.”
Emprego e autonomia para pessoas com deficiência
Joana Almada quer reforçar a inclusão laboral e promover a autonomia financeira para as pessoas portadoras de deficiência, estabelecendo parcerias com uma instituição bancária, bem como empresas.
“O meu maior objetivo é ver pessoas com deficiência com o próprio sustento, e não dependentes da ACD”, afirma.
A direção também planeia ativar delegações em diferentes concelhos, a começar pela Assomada, cuja inauguração está prevista para dezembro, em parceria com a edilidade local.
Acessibilidade: um desafio estrutural
A acessibilidade, segundo a dirigente, continua a ser um dos maiores desafios no país. Para Joana Almada, não se trata apenas de rampas, mas de acesso à saúde, ao emprego e à educação.
“A acessibilidade não se resume apenas a uma rampa. Muitas vezes, colocam rampas em instituições sem sequer testarem com cadeirantes para ver se funcionam”, afirma.
“Quando falamos de acessibilidade, estamos a falar também de acesso ao emprego, à saúde e à educação. A nossa dignidade, por exemplo, ainda está ferida a nível dos serviços de saúde: se formos a uma delegacia na Praia, somos obrigados a fazer colheita de exames na sala de espera, porque não há acesso para cadeirantes nas salas próprias”, denuncia.
A líder da ACD destaca ainda as dificuldades de mobilidade. “Temos gratuitidade no ensino, mas a deslocação é um desafio. Muitas pessoas com deficiência são obrigadas a usar táxi porque não existe transporte público adaptado. Alguns autocarros têm rampas, mas na prática não funcionam, falta manutenção e, muitas vezes, boa vontade dos condutores”, lamenta.
Joana Almada reconhece que houve progressos, mas defende que ainda há muito por fazer para garantir condições dignas e igualdade às pessoas portadoras de alguma deficiência.
Cenorf: 20 anos como único centro ortopédico de Cabo Verde
O Centro Nacional de Reabilitação Funcional (Cenorf), a única instituição especializada em ortoprotesia no país, celebra no dia 26 deste mês, duas décadas de dedicação à reabilitação, inclusão e promoção da autonomia das pessoas com deficiência em Cabo Verde. Para assinalar esta data, o Cenorf, realiza esta sexta-feira, 24, uma cerimónia comemorativa na sua sede, em Achada São Filipe, reunindo parceiros, colaboradores, pacientes e amigos.
É de recordar que o centro esteve com as suas atividades suspensas por mais de três meses, desde outubro de 2024, devido à falta de técnicos ortoprotesistas com carteira profissional reconhecida pela Agência Reguladora do Ensino Superior (ARES). Após esse período de inatividades, o Cenorf obteve, em fevereiro de 2025, a renovação do seu alvará pela Entidade Reguladora Independente da Saúde (ERIS), permitindo-lhe retomar as atividades.
Joana Almada reconhece que, apesar dos avanços, o CENORF ainda enfrenta desafios significativos: “Neste momento, temos uma fragilidade, que é a presença de apenas um técnico ortopedista no país, além de limitações a nível de materiais para o trabalho diário”.
Balai Notícias

Aline Oliveira
Sócia-fundadora, jornalista e editora de conteúdos do Balai Cabo Verde.


















