Fidel Mendonça, o capitão que quer combater a delinquência juvenil através do basquetebol

É dos atletas mais destacados a nível nacional da sua modalidade. Coleciona vários títulos e só lhe falta mesmo competir no Mundial, um sonho que poderá estar perto de realizar. Em simultâneo, Fidel Mendonça quer massificar a prática do basquetebol como forma de combater a delinquência juvenil e para tal está prestes a oficializar uma Fundação com o seu nome.

A bola de basquetebol desde muito cedo faz parte do dia-a-dia do capitão da seleção nacional de Basquete, Fidel Mendonça. Natural do bairro Lém Ferreira, na Praia, uma zona que tem uma cultura desta modalidade, segundo o atleta, recorda que cresceu “a ver os mais velhos a jogar e os mais novos a querer imitar”. “Não me lembro com que idade comecei. Desde que tenho memória de mim, sempre estive no Polivalente a jogar (…) comecei espontaneamente”.

Sabe que iniciou os treinos de forma mais regular com o professor guineense Adalberto Bamba. “Ele pegou num conjunto de crianças e adolescente e começou a treinar. Depois entramos no campeonato no escalão de iniciados e depois nos juvenis. Foi aí que comecei a jogar como federado”. Entretanto o docente foi estudar fora, mas a geração de jogadores do Lenfer continuou a treinar sob novas orientações.

“Na nossa geração ganhámos sempre. Ganhámos o campeonato uma vez nos (escalão) Iniciados, duas nos Juvenis e duas nos Juniores. Ganhámos também o campeonato nacional de juvenis e de juniores (…) é motivador. Quando vejo o que sou hoje, não só por ter ganho, mas porque passei por todas estas etapas (…) é uma formação enquanto pessoa”, diz o atleta que se mostra grato e recorda da rivalidade saudável que existia entre as equipas locais bem como a nível nacional.

“Da nossa geração todos “acabámos por nos dar bem”. Claro que como em tudo na vida, nem todos continuaram como jogadores, mas um bom grupo continuou no basquete”. 

O desportista diz que idealizava “sair para jogar fora do país para um dia aparecer na televisão”. “Um dia estava a ver um jogo do Benfica na TV, com os meus pais, e pensei que queria jogar para aparecer na televisão para que os meus pais pudessem me ver”.

Quando terminou os estudos no Liceu Domingos Ramos, onde optou pela área de Económico Social, foi convocado para a Seleção Nacional de Basquetebol para participar nos primeiros Jogos da Lusofonia de 2006, que decorreram em outubro desse ano em Macau. Longe estava de saber que começava assim uma nova aventura.

Carreira em Portugal

Durante o estágio da seleção nacional em Portugal, surgiu uma equipa interessada, o Olivais Futebol Clube (de Coimbra), que lhe propôs para jogar nesse país europeu. Por isso no regresso de Macau, Fidel viu nesta oferta uma oportunidade para concretizar o sonho de jogar no estrangeiro e ficou em Portugal.

O Olivais era um clube de uma “espécie de terceira divisão” e Fidel ambicionava chegar o mais alto possível na Liga Portuguesa de Basquetebol. 

No ano seguinte, alinhou pelo Queluz, em Lisboa, que era um clube da segunda divisão, mas que estava a passar por algumas dificuldades financeiras e que acabou por descer de divisão.
Foi quando o cabo-verdiano rumou para o Algés, o clube onde esteve mais tempo, foi bem acolhido e onde fez muito amigos. Por lá ficou por três temporadas e ajudou a equipa a subir de divisão para a Liga principal em 2012. “Fomos campeões da Proliga. Algés nunca tinha sido campeão (da segunda divisão). Depois subimos para a Liga principal (…) era o meu grande objetivo”.

Em Coimbra também fez uma formação profissional na área administrativa e mais tarde, em Lisboa, na área de Ordenamento de Território e Urbanismo. até porque era uma exigência dos pais.

O regresso à terra e a conquista dos títulos

Paralelamente, o extremo continuava a vestir a camisola da Seleção Nacional de Basquetebol. Curiosamente, no ano em que foi campeão da Proliga em Portugal, não foi convocado para a seleção que procurava conseguir o apuramento para o Afrobasket 2013. Um período do qual não se inibe de dizer que guarda alguma mágoa.

“Cabo Verde jogou o apuramento com menos três jogadores (…) Enquanto eu estava disponível. O próprio treinador (o nigeriano Alex Nwora) tinha-me dito que estava a contar comigo, mas depois saiu a convocatória e vi a seleção a jogar com menos três enquanto eu estava disponível e, se calhar, na minha melhor fase, nessa altura (…) não fiquei contente”.

Cabo Verde acabou por conseguir a qualificação para o Afrobasket’2013 onde mais tarde acabaria em sexto lugar.

O regresso de Fidel a Cabo Verde dá-se em 2013. “Fiquei até hoje”. “Muitas pessoas pensavam que vim terminar a carreira, mas não (…)”.

Começou a primeira temporada no ABC, mas não se sentiu muito valorizado. Estava consciente de que a mudança deveria partir do seu lado de modo “a encontrar o seu espaço”. Foi aí que se deu a transferência para o Bairro (Associação Desportiva do Bairro Craveiro Lopes) onde considera que atingiu o auge da sua carreira, com várias conquistas nacionais e internacionais com destaque para o de melhor marcador, melhor triplista e ainda integrou o cinco ideal da 30ª Liga dos Campeões Africanos de Basquetebol (2015).

Na sequência desta prestação e não só, já que foi MVP nos campeonatos nacionais, no ano seguinte, em 2016, foi nomeado para Melhor Atleta Masculino do Ano tanto na Gala de Desporto como no Somos Cabo Verde.

Dois anos depois viria a ser galardoado na Gala do Desporto Cabo-verdiano em Santo Antão como o Melhor Atleta Masculino Residente do Ano. “Ser considerado Melhor Atleta do Ano, um prémio de carreira, digamos, deixou-me muito realizado e mais motivado para fazer mais pelo nosso basquete e pelo desporto”. No final do mesmo ano, foi apresentado como reforço da Associação Desportiva, Recreativa e Cultural Prédio onde ficou até 2020 e depois regressou em 2022, depois de uma saída para o Galomar de Madeira em 2021.

Diz que ser nomeado e depois vencer alguns destes prémios, fê-lo sentir-se mais valorizado, além de ser motivo de orgulho para os pais do atleta. “Sempre foi uma luta para ser nomeado e vencer este tipo de prémios. Sem dúvida, que quando ganhas prémios passas a ser distinguido na sociedade, mas sentes que tens uma responsabilidade diferente (…) mesmo as instituições olham para ti de outra forma. O que é bom porque motiva e passa a mensagem para outras pessoas (…)”.

Capitão da seleção desde 2017, com a saída de Mário Marito Correia, Fidel admite que (…) “numa estrutura como a nossa, não é fácil (ser capitão)”. Diz, em tom de brincadeira, que que “um dia vai escrever um livro sobre a sua liderança e a sua fase enquanto capitão”.

“Como temos uma federação que tem uma estrutura amadora e com poucas pessoas, como capitão fazes muito mais do que ser capitão em campo e quando tens um grupo com uma mistura de jogadores profissionais, amadores … há muitos desafios (…)”.

Cita como o maior desafio na seleção, é ser capitão, já a nível coletivo, acredita que até agora o maior desafio é conseguir o apuramento para o Mundial, com o nível de exigência elevado, com vários jogos. “O apuramento para o Mundial é como um Afrobasket mas dividido em fases”.

A última janela dos jogos de qualificação para conseguir o apuramento acontece agora de 24 a 25 de fevereiro, sendo que Cabo Verde está no terceiro lugar do grupo E.

Em relação à maior conquista da seleção até ao momento, no entender do capitão, foi a medalha de Bronze no Afrobasket de 2007 em Angola.

“O basquetebol tem sofrido muito no orçamento e nos apoios financeiros”

Questionado se o futebol é uma modalidade que é privilegiada em relação as restantes, no que diz respeito aos patrocínios e visibilidade, o capitão defende que a própria FIBA deveria estar mais próxima das federações. “Defendo que o futebol é o que é: o desporto mais praticado, o desporto mais visto, não podemos tirar o protagonismo do futebol. (…) As empresas nacionais devem ter maior equilíbrio no orçamento, tanto empresas públicas como privadas, mesmo no orçamento do IDJ para o basquetebol, deve haver melhorias (…) sem dúvida, que o basquetebol é a segunda melhor modalidade do país e a segunda mais praticada em Cabo Verde, mas o basquetebol tem sofrido muito no orçamento e nos apoios financeiros (…) Não querendo tirar o mérito das empresas e do IDJ, que tem apoiado a federação, mas por exemplo a FIFA investe no futebol e dá fundos às federações, mas a FIBA não. É a própria lei da FIBA”, e dá exemplo da época da pandemia em que a FIFA apoiou todas as federações e a FIBA, não. “A FIBA devia estar mais perto das federações e apoiar mais”.

“Somos a 4ª seleção de África, mas o que recebemos por isso? Temos grandes hipóteses de nos apurar para o Mundial, estou confiante nisso, o que vamos receber por isso? Podemos nem ir ao Mundial porque não temos dinheiro, mas isso nunca aconteceria no futebol. Se te apurares para um campeonato do Mundial, só o valor do apuramento é abismal …”

Mas será que isto acontece porque o futebol gera mais receitas do que o basquete? “Sem dúvida, mas o basquete gera alguma receita. Apuramo-nos para o Afrobasket e não recebemos nenhum valor por isso, pelo contrário, pagamos para ir. É uma crítica que deixo para a FIBA”.

Não sabe se existe pressão das federações para o efeito, mas defende que deveria existir já que a modalidade carece de financiamento.

Fundação Fidel Mendonça

Ainda antes de partir para Portugal, Fidel recorda que treinava os escalões iniciados. “Sempre tive essa aptidão para treinar e passar os meus conhecimentos para os mais novos”. Já em Portugal, Fidel fez o curso de treinador nível 1 e no Algés também chegou a treinar os escalões de iniciados.

De regresso a Cabo Verde, em 2013, o jovem deparou-se com a realidade de que o Lenfer já não tinha a dinâmica de outrora e decidiu começar a treinar os mais novos para entrar no campeonato principalmente de forma a dar aos mais jovens uma nova motivação.

Aos poucos a ideia de criar algo mais sólido foi ganhando vida. E é no bairro que o viu nascer, Lém-Ferreira, que Fidel pretende sediar a Fundação Fidel Mendonça, num espaço já identificado, e cujo processo de oficialização deve ficar pronto ainda este ano. O objetivo é ajudar a contribuir para a dinamização do Basquetebol e usar a modalidade para educar os jovens e dar-lhes uma nova perspetiva de vida.

Um dos projetos que antecede a criação da fundação é o “Basquetebol como estilo de vida”, uma ideia que surgiu nos EUA, país onde fez uma formação no âmbito de uma bolsa olímpica em 2018, e que contemplava implementar um projeto desportivo no país de origem.

Em maio de 2022, Fidel lançou um novo projeto – Basket na Porta de Casa – que pretende ocupar os jovens nos seus tempos livres através da instalação de tabelas de basquetebol nos diferentes bairros da cidade da Praia. Este ano, pretende instalar cerca 20 placas nos diferentes bairros da capital, através de uma parceria com a EMEP, Empresa De Mobilidade E Estacionamento Da Praia. O basquetebolista quer que o projeto tenha impacto a nível nacional, através de parcerias.

“Estou aberto a levar estes projetos para todos os cantos do país (…)”, avança e acrescenta que apesar de estar consciente dos constrangimentos a nível de transportes, etc., já mostrou a sua disponibilidade aos municípios.

Conciliar a vida desportiva com a vida pessoal e profissional, Fidel trabalha na Câmara da Praia, é desafiante, mas viver numa cidade relativamente pequena como a Praia ajuda bastante. Pai de dois filhos, diz que não impõe o basquetebol aos filhos, desde que estejam integrados num grupo, algo que aconselha a outras crianças: “levar uma vida saudável, estar envolvido num grupo de uma modalidade desportiva”. “Como qualquer pai gostaria de ver os meus filhos bem, gostaria de os ver felizes e saudáveis. Se seguirem o basquete perfeito, eu ficaria contente, mas se não, desde que sejam felizes …”

“Vou jogar até onde as pernas me deixarem”


Hoje aos 38 anos e como jogador livre, depois de ter alinhado pelo Prédio na última temporada em que o clube se sagrou bicampeão nacional e onde foi MVP e melhor marcador, o sonho de Fidel é jogar num Campeonato de Mundo, algo inédito no basquetebol nacional.


“Um sonho que vejo como bastante possível porque acredito no nosso apuramento. Temos três jogos pela frente, em fevereiro, e se ganharmos os três estamos no Mundial. É o meu maior sonho para o meu percurso desportivo”, revela o capitão que salienta que até porque já jogou todas as competições oficiais em que Cabo Verde participou.
“Falta-me o Campeonato do Mundo para terminar em grande … não para terminar agora, mas a nível da seleção seria fantástico jogar um campeonato do mundo”. 

Promete jogar até onde as pernas lhe permitirem. Diz que se sente muito bem, “treina todos os dias e tem tido boas performances quer a nível nacional, como a nível da seleção”. “Estou motivado, fresco e jovem para continuar a dar o meu contributo dentro de campo para o basquetebol a nível nacional”, diz e garante que vai estar sempre disponível para apoiar a modalidade e que já está a faze-lo, por exemplo, através da criação da Fundação.

Futuramente, gostaria de se dedicar à fundação a tempo inteiro, pois acredita que o basquetebol pode contribuir para combater o flagelo da delinquência juvenil. “Sabemos que os jovens veem o Basquetebol como um sonho (…) Acho que o basquetebol tem um grande contributo a dar para o combate a esse flagelo. Se conseguirmos estruturar o nosso sistema desportivo ligado ao basquetebol, conseguimos recuperar muito jovens que estão perdidos nisso. É isso que vejo no meu bairro, nos bairros da periferia onde estou, vejo que hoje é o momento de dar o meu contributo para começar a trabalhar a nova geração. Claramente, a minha fundação é para isso, para ajudar a educar os jovens já pensado na nova geração. Esse é o contributo que quero dar antes de terminar de jogar e, claro, quando deixar de jogar, vou estar disponível para qualquer instituição e federação de qualquer modalidade”.

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