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Em entrevista, o boavistense fundador do grupo Mendes & Mendes conta a sua experiência de superação no mundo dos negócios, desde a venda do primeiro saco de carvão para pagar a carta de condução até se tornar um dos maiores empresários nacionais no ramo da hotelaria e turismo em Cabo Verde.

A história de Manuel António Mendes poderia servir de inspiração para um romance. Um de oito irmãos, Manuel António Mendes nasceu na década de 1960 na distante localidade de João Galego, na Boa Vista. Quando reprovou na primeira classe aprendeu que a vida não era tão fácil como idealizava no seu imaginário de criança. A experiência serviu para que passasse a ser bom aluno e ao longo da jornada diz que procurou sempre por soluções. “Sempre a tentar resolver. O impossível não existe, existem coisas difíceis”, começa por contar numa entrevista ao Balai.
Foi aos 12 anos que conheceu pela primeira vez a Vila de Sal Rei, onde vivia a madrinha que lhe prometera que se terminasse a quarta classe, iria ter com ela.
Saiu pela primeira vez da Boa Vista aos 17 anos para ir para a ilha de São Vicente onde fez a carta de condução e completou a maioridade. Não tinha dinheiro para pagar o avião que era um luxo na altura, por isso viajou num barquinho à vela, de boleia com o sr. Xavier. Na bagagem levava sacos de carvão para que na ilha de Monte Cara pudesse vender e pagar a carta. “Pensei que seria chegar a São Vicente e vender os sacos e já está.”
Em Mindelo ficou em casa de um tio paterno que nem conhecia e que estranhou que o sobrinho quisesse vender carvão. Acabou por conseguir vender o produto a um senhor de Santiago que tinha uma loja que vendia de tudo um pouco e onde conseguiu um emprego de carregador no armazém. O salário serviu para pagar a carta que fez em tempo recorde – um mês.
Regressou à Boa Vista onde encontrou uma tia, que vivia no Senegal e levou-o para trabalhar em Dakar. Depois de três meses sem trabalho, Manuel Mendes encontrou um biscate na pintura e depois nas descargas de peixe. O dinheiro era bom, mas o trabalho era duro. Na altura pesava 59 kg e tinha de aguentar o dia na base de uma bebida típica de café ao longo de 24 horas de trabalho.
O jovem juntou algum dinheiro para comprar roupas e chinelos para enviar para a Boa Vista para venda. “Em Cabo Verde não havia nada, tudo o que conseguia era para vender”. A sua primeira viagem correu bem e andando de burro de povoado em povoado na Boa Vista vendeu tudo. “Era um negócio que compensava”, recorda.
Mais tarde começou a fazer a viagem para a ilha do Sal passando por Bissau e depois Dakar. Além de roupas, passou a trazer pilhas e baterias, que devido à falta de energia elétrica eram muito procuradas. “Era um grande negócio”.
Houve uma vez que antes de partir para o Sal foi para o mar e viu os pescadores na Boa Vista a apanhar lagosta. Como regressava com a mala vazia para o Senegal, uma nova ideia de negócio começou a surgir. “As empresas de pesca no pós-independência tinham falido, as pessoas foram todas embora e a lagosta ficou sem exportação e ao desbarato na ilha. O meu primeiro kilo de lagosta comprei a 70 escudos, ainda tenho no meu arquivo, e vendi no Sal a 220 escudos“.
Mas este também não era um negócio fácil: tinha de sair de João Galego e ir a Gata, convencer os pescadores a vender a lagosta sem dinheiro, porque na altura não tinha dinheiro para comprar tudo, ir para Fundo de Figueira, onde havia uma casa com telefone, ligar para o responsável da TACV em Sal Rei, confirmar se podiam levar 100 ou 200 kg de lagosta, voltar a casa, preparar os burros, ir a Gata buscar a lagosta, voltar com a lagosta e tratá-la porque tinha de levar as lagostas vivas para o Sal, antes tinha de as embalar em Sal Rei em caixas de cerveja com linha já que não havia fita cola e fazer encomendas para colocar no avião. Apanhava o voo, vendia a lagosta no Sal de manhã e à tarde já estava de regresso à Boa Vista às 16h00, fazia novamente 25 km de volta a João Galego e ia a Gata levar o dinheiro aos pescadores no mesmo dia.
“Assim que se cultiva a confiança e se começa”, no entender de Manuel Mendes. “Fazer sempre o melhor que se pode, porque acho que o dinheiro não é o maior problema, é preciso ter a convicção de que se é capaz, a responsabilidade, a seriedade e a honestidade“, afirma.
Foi esse negócio que lhe trouxe notoriedade e abriu portas para outras oportunidades.
“Muita gente fala de negócio e quer fazer negócio. Qualquer um pode falar de fazer negócios, mas o negócio não é para qualquer. As pessoas querem qualidade de vida, mas um jovem empresário não tem qualidade de vida. Hoje, com tudo que já alcancei, acabei de fazer um hotel em São Vicente e agora já estou na Praia a pensar noutros projetos”.

Em pouco tempo, a lagosta passou a ser um negócio muito grande. “Fazíamos negócios em todo Cabo Verde. Passamos a comprar lagosta no Maio, no Fogo, em São Nicolau, tínhamos o monopólio de lagosta. Criamos um produto, as pessoas pediam a lagosta do Mendes e Mendes”, afirma e acrescenta que criaram uma credibilidade junto do mercado.
Apesar da lagosta ter passado a ser o seu maior negócio, tinha também uma boutique de venda de roupas e fornecia roupas para desfiles e concursos de misses. “A marca Karine vendia muito, em São Vicente, no Sal, etc”.
Foi o primeiro a abrir uma discoteca na Boa Vista, a Tambreira, depois a discoteca Millenium em Espargos, no Sal, o bom do negócio é isso. “Ser empresário é ser apaixonado pelo que se gosta de fazer”, por isso diz que sentir-se realizado com o negócio e com o que se faz também é um requisito indispensável. “Por isso eu não me canso”
Com uma rotina intensa, Manuel Mendes dorme pouco e não tem medo de pôr as mãos na massa. Quando está na Boa Vista não passa sem ir ver a horta, as bananeiras, os animais e os outros empreendimentos, entre os quais uma produção artesanal de aguardente.
Aos 62 anos perguntamos se a vida de sacrifícios compensa, responde afirmativamente. “Compensa porque é o que eu gosto”.
No entretanto, teve tempo para constituir família e os filhos atualmente que trabalham consigo. “O que eu consegui transformar na minha família são os meus irmãos que são todos empresários. Ensinei à minha família que é preciso trabalhar. Mendes e Mendes é para trabalhar…”.
Na década de 1990, fez uma viagem aos Estados Unidos que o fez mudar de mentalidade por completo ao entender que as pessoas trabalhavam por turnos em empresas que funcionavam durante 24 horas e recebiam à semana.
Quando regressou ao país, fez uns cartões onde dizia: Mendes & Mendes entrega lagosta 24 horas por dia em qualquer local da ilha do Sal. Lembra que as pessoas ligavam para o telefone fixo às vezes de madrugada a pedir lagosta só para ver se eles aceitavam as entregas.
Com as entregas disponíveis durante todo o dia, surgia uma nova oportunidade de negócio, a exportação de lagosta como encomenda d’terra. Os passageiros de voos provenientes de Cuba, da União Soviética, do continente africano, que passavam pelo Sal todos queriam lagosta, conta Manuel Mendes. “Vendíamos para tudo quanto é lado”.
“Claro que o negócio da lagosta fez-me sentir mais atrevido e ver que eu era capaz de qualquer coisa”, afirma mais à frente.
No percurso nem tudo foi linear. No auge do negócio da lagosta, aconteceu um surto de cólera em Cabo Verde. “A pesca acabou, ninguém comprava a lagosta, não se podia exportar nada do Sal”, recorda contudo acrescenta que esta experiência permitiu-lhe que mais tarde não fosse apanhado desprevenido durante a pandemia da covid-19.
Depois do surto de cólera, ainda retomou o negócio, mas há cerca de oito anos deixou definitivamente de lado. “Passamos a ter outras dinâmicas com a rent-a-car (no Sal), com o negócio dos pneus, baterias, hotéis”, diz.”Gosto de fazer as coisas para desfrutar, não gosto de fazer as coisas que já são muito fáceis. Quero sempre o que as pessoas dizem ser impossível“.
Hospitaleiro, Manuel Mendes recorda que sempre teve a tradição familiar de receber muita gente em casa. Depois de fazer a discoteca, fez uma suíte, de seguida mais dois quartos, depois foi desafiado por um grande amigo que tinha conhecidos a querer passar a lua-de-mel na Boa Vista mas não havia quartos. Mendes arranjou os dois quartos, depois alugou a suíte e começou assim um novo negócio com uma pousada quando viu que era algo rentável.
O espaço ainda existe e vai ser transformado num hotel com 75 quartos e piscinas, espaços comerciais.
Depois seguiu-se o investimento no ramo da hotelaria na ilha do Sal com o Hotel Pontão, que começou com 36 quartos, e agora conta com mais de 80 quartos.
De seguida, surgiu o hotel Águeda, no Estoril, na Boavista, e mais tarde o hotel Júlia na rua Pedonal em Santa Maria. “Agora terminamos o Ouril (com o empresário Américo Soares) e vamos começar na Praia”, afirma, mas revela que gostaria também de fazer um empreendimento numa ilha onde ninguém acredita que fosse possível. “Para mim o mais importante é fazer as coisas acontecer”.
Conta que passou alguns anos sem fazer investimentos depois do negócio da lagosta. “As coisas más nos ensinam a melhorar. Há duas coisas muito importantes no negócio, a concorrência e a advertência, ou seja, as coisas que não correm bem. Quando se consegue sobreviver a essas coisas é um sinal de que se aprendeu algo. Hoje as pessoas têm medo de falar da pandemia”, afirma e diz que no seu caso tem uma visão diferente.
“É preciso trabalhar, eu com os meus 62 anos, estou a sentir-me como se tivesse 18 porque se não pensar assim não consigo”, afirma vigorosamente.
Classifica a época da pandemia como a pior de sempre, mas a crise da cólera onde não tinha nem metade do património que tem hoje também teve consequências graves.
“Chegava ao final do mês e tinha de dizer às pessoas que não fossem para o mar porque não havia como vender aquele produto. A minha esposa trabalhava num banco e recebia aquele dinheirinho que era para os gastos (da casa), eu ia com os sapatos vender atacado a São Vicente, à Praia, ia para o Brasil comprar tudo e mais alguma coisa, à noite trabalhava no táxi para ajustar o final do mês para pagar ao pessoal. Enchíamos as arcas com lagosta e eu ficava com medo de perder tudo, tinha pesadelos só de pensar: ‘e se as câmaras frigoríficas fossem desligadas à noite?’”.

“Convém começarmos a falar muito a sério em Cabo Verde da formação dos jovens e da criação de postos de trabalho. Há que criar espaço para que os jovens possam de facto governar o país, porque este país pertence à juventude. Nós já fazemos parte do meio caminho andando (…)”, declarou o empresário cabo-verdiano, durante a segunda parte da entrevista .
“Devemos focar na formação sem esquecer o passado, mas também temos que aproveitar as ferramentas modernas disponíveis hoje em dia”, explicou e ressalta a importância da educação financeira, aconselhando os jovens a economizarem sempre que possível. “Para ser mais direto, gastar menos do que se ganha, guardar tudo o que for possível guardar, porque o dinheiro nunca faz mal. Quer dizer, quando há, não faz mal, mas quando não há …”
Admite que várias mudanças aconteceram no mundo dos negócios, observando que hoje em dia tudo é feito sob demanda, com sistemas financeiros modernos e eficientes. “Antes havia stock em armazém. Hoje não, é tudo à justa”, afirma e ressalta que o sistema financeiro e a modernização do comércio mundial mudaram o cenário completamente.
Outro ponto abordado pelo homem de negócios é a falta de união entre os empresários cabo-verdianos e deixa críticas à falta de apoio efetivo das câmaras de comércio e turismo. Salienta que é necessário que as instituições realmente acompanhem e apoiem os projetos e os empresários, especialmente em setores como a hotelaria e o turismo, “onde o investimento é muito custoso”.
E para desenvolver um turismo sustentável e de qualidade é necessário investir em setores complementares, como a agricultura, a pesca, a saúde, o saneamento, entre outros, defende o entrevistado. “O nosso país tem uma qualidade muito especial: tudo o que produzimos tem um sabor diferente. As nossas mangas e papaias são diferentes. Está provado, não somos só nós a dizer. Qualquer estrangeiro que come uma cachupa com milho d’terra ou com milho importado vê a diferença, por exemplo. Temos um aguardente que pode ser feito em menor quantidade mas mais controlado e de qualidade”, sugeriu e dá o exemplo das Seychelles.

Daí que também aponta a necessidade de se criar melhores condições para os turistas mas também para os trabalhadores do setor, taxistas e guias turísticos, tendo em conta a importância de se oferecer um serviço de qualidade. “O turista quer pagar, mas quer qualidade”, afirmou.
Questionado se nos seus próprios empreendimentos utiliza produtos nacionais, Mendes mencionou que há mais de 10 anos apostam em alguns produtos produzidos pelo grupo, como queijo, batata-doce e bananas. “É uma questão de educar as pessoas para garantir a continuidade”, diz.
Sem esquecer do papel das autoridades centrais, o empresário salienta que o “poder local tem um papel importante na promoção e na criação de melhores condições, ou pelo menos, na melhoria da qualidade do turismo (…) é preciso investir para um turismo sério e cada um tem de fazer a sua parte”.
Acredita que é essencial que Cabo Verde desenvolva hotéis de qualidade para atender às expectativas dos turistas e competir em um mercado cada vez mais global.
“E criar riqueza, porque no turismo não podemos pensar só em hotéis, temos que criar riqueza neste país. As pessoas têm que mudar de vida, têm que ter um nível de vida diferente (…)”.
Quanto ao acesso ao financiamento, Manuel Mendes defende que além de dar oportunidades é preciso mudar a mentalidade dos jovens empresários, que muitas vezes querem resultados rápidos e luxos imediatos. Por isso aconselha os mais novos a começar devagar e ter alguma base antes de recorrer a empréstimos bancários e fazer grandes investimentos.
“Hoje há muito mais possibilidades. Eu saía de Dakar de manhã cedo, vinha para a Praia apanhava a ligação para o Sal, depois o barco para a Boa Vista e chegava às cinco horas e ia a pé para o Norte. Hoje isso já não acontece. (…) Por exemplo, quando eu comecei a ser rabidante, ou como queiramos chamar, eu passei anos para conseguir dizer que sou empresário. Mas hoje um jovem que está a pensar em abrir um negócio (…) e já diz que agora é empresário. Eu ainda tenho dúvidas sobre isso, nem me lembro de dizer (…) Passam anos e anos a pensar na qualidade de vida. A juventude quer a qualidade de vida no dia seguinte, eu vou abrir uma empresa hoje, amanhã eu quero um carro, depois eu quero isto e aquilo”, afirma e diz que é preciso “pôr as mãos na massa”. “Por exemplo, como ele é empresário, ele já não quer escamar o peixe (risos)”.
“A vida de empresário é mesmo assim, não tens horas para trabalhar. Deus me livre ficar mais do que uma semana parado. Outra coisa é não trabalhar no domingo. Eu? Quando tinha a loja de roupas era à meia noite no final de ano, ou no Natal …”, diz ao recordar a sua própria experiência no mundo dos negócios, desde a venda dos primeiros sacos de carvão até à construção de um hotel.
Enfatiza a importância do trabalho duro e da persistência: “O bom é trabalhar sempre e toda a sorte que tenho tido, digo: a sorte dá muito trabalho…se trabalharmos muito, teremos sorte”.
Sobre o futuro, o empresário é claro: “Queremos investir porque queremos que as nossas empresas tenham sucesso.” E fazer as empresas prosperarem, de modo a que inspirem outros a seguirem o mesmo caminho.
“No mundo dos negócios há sempre surpresas. Tens de estar sempre um passo à frente“, concluiu Manuel Mendes.

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