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As contas públicas podem parecer um assunto distante da vida quotidiana. Fala-se em receitas, despesas, saldo orçamental, dívida, execução e financiamento, mas por detrás destes conceitos estão decisões que têm efeitos concretos na capacidade do Estado para investir, prestar serviços e responder a novas necessidades.

Foi com esse propósito de tornar os números mais compreensíveis que analisámos o Relatório de Acompanhamento da Execução Orçamental do primeiro semestre de 2026, elaborado pelo Conselho das Finanças Públicas (CFP).
O CFP é uma entidade independente, à qual compete acompanhar a execução orçamental e avaliar a consistência, o cumprimento e a sustentabilidade da política orçamental. O relatório analisa o período entre janeiro e junho, comparando os resultados com o mesmo período de 2025, as previsões orçamentais e as necessidades para o segundo semestre.
A leitura do documento não cabe numa conclusão simples de “contas boas” ou “contas más”. O primeiro semestre terminou com um saldo global positivo, mas com uma margem bastante reduzida. Ao mesmo tempo, a receita fiscal apresentou um desempenho favorável, enquanto a despesa cresceu a um ritmo superior e o investimento público registou uma execução ainda baixa.
É precisamente nesta combinação que está a parte mais importante da análise.
Um semestre com saldo positivo, mas pouca margem
Entre janeiro e junho, as receitas totais do Estado atingiram cerca de 42 421 milhões de CVE, enquanto as despesas totais chegaram a aproximadamente 42 260 milhões de CVE. O resultado foi um saldo global positivo de cerca de 162 milhões de CVE.
O valor é positivo, mas representa uma redução significativa face aos 925 milhões de CVE registados no primeiro semestre de 2025. O excedente diminuiu, assim, cerca de 82,5%.
A explicação não está numa quebra da receita. Pelo contrário: a receita total cresceu 13,3% em termos homólogos. O problema está no ritmo de crescimento da despesa, que foi superior, aumentando 15,6% no mesmo período.
Existe ainda outro elemento relevante na leitura do CFP. Excluindo os donativos, o saldo global passa a ser negativo em cerca de 1 451 milhões de CVE. O próprio Conselho considera que a margem orçamental observada é reduzida e que o resultado do ano dependerá, em larga medida, da evolução da receita e da despesa no segundo semestre.
Isto significa que o resultado de junho deve ser lido como uma fotografia de metade do ano, e não como uma antecipação automática do resultado de dezembro.
A receita fiscal cresceu. Mas quanto desse crescimento pode ser mantido? Um dos dados mais favoráveis apresentados no relatório está na cobrança de impostos.
No primeiro semestre, a receita fiscal atingiu 36 081 milhões de CVE, mais 14,7% do que no período homólogo de 2025. O crescimento foi abrangente: os impostos sobre o rendimento aumentaram 16,5%, o IVA 13,4% e os impostos sobre o comércio internacional 18,2%.
Dentro dos impostos sobre o rendimento, o IRPS cresceu 14,1% e o IRPC 18,7%. Nos impostos sobre o comércio internacional, os direitos de importação aumentaram 18,5%.
Os números são expressivos, mas o CFP chama a atenção para uma questão importante: crescer num determinado período não significa necessariamente que o mesmo ritmo se repetirá nos meses seguintes.
Uma parte das cobranças pode estar relacionada com fatores extraordinários ou não recorrentes, incluindo a recuperação de dívidas fiscais anteriores. O relatório assinala que essa componente não está suficientemente quantificada, o que limita a possibilidade de avaliar quanto do crescimento observado poderá manter-se.
Também é relevante observar o comportamento irregular da receita ao longo dos meses. Em janeiro, a receita ficou 12,7% abaixo do período homólogo. Em março cresceu 24,7%, em abril 47,2%, em maio voltou a cair 4,3% e em junho cresceu 28,7%.
Para o conjunto do ano, o Orçamento do Estado Retificativo prevê 72 382 milhões de CVE de receita fiscal. Segundo o CFP, para atingir essa meta será necessário um crescimento de cerca de 4,6% no segundo semestre, abaixo dos 14,7% registados no primeiro. Em termos estritamente quantitativos, o Conselho considera esta trajetória compatível com a meta revista, embora permaneçam riscos relacionados com a qualidade e sustentabilidade da receita.
A despesa cresceu mais depressa
Do lado da despesa, o cenário é diferente.
A despesa total atingiu cerca de 42 260 milhões de CVE, um aumento de 15,6% face ao primeiro semestre de 2025. As maiores variações ocorreram nas transferências, que cresceram 55%, nos subsídios, com mais 36,3%, nas despesas com pessoal, que aumentaram 15,6%, e nos benefícios sociais, com um crescimento de 14,4%.
Nem todas estas despesas têm a mesma natureza ou produzem o mesmo efeito sobre as contas públicas.
Esta é uma distinção particularmente importante no relatório. Algumas despesas estão associadas a situações pontuais, enquanto outras podem criar compromissos que permanecem nos anos seguintes. O CFP chama a atenção para o impacto plurianual de
determinadas componentes da despesa, sobretudo quando envolvem compromissos permanentes.
Ao mesmo tempo, houve uma evolução favorável nos juros da dívida, cuja despesa diminuiu 12% face ao primeiro semestre de 2025. Esta redução ajudou a limitar o crescimento global da despesa.
Por isso, olhar apenas para o aumento total da despesa não é suficiente. É necessário perceber onde está a ser gasto o dinheiro, por que motivo, com que duração e que impacto terá nos exercícios seguintes.
E o investimento público?
Esta é outra das questões que merece atenção.
O investimento, medido pelos ativos não financeiros, atingiu 3 539 milhões de CVE no primeiro semestre, mais 17,6% do que no mesmo período de 2025.
Apesar do crescimento, o valor corresponde a apenas 27,5% da dotação prevista para o ano. O CFP considera que esta execução continua reduzida, sobretudo tendo em conta o volume de investimento que permanece por executar no segundo semestre.
Esta questão ganha importância porque o investimento público tem uma natureza diferente da despesa corrente. Uma obra, um equipamento ou outro investimento pode representar uma despesa significativa no momento da execução, mas também pode gerar efeitos económicos e sociais posteriores.
Por isso, a questão não passa apenas por saber quanto foi gasto. Importa perceber que projetos estão a ser executados, em que ritmo e com que resultados. O próprio CFP recomenda que seja dada prioridade aos projetos mais preparados e que exista acompanhamento da execução física dos investimentos.
O orçamento mudou durante o ano
Outro ponto relevante do relatório está nas alterações introduzidas ao orçamento durante o primeiro semestre.
Até 30 de junho, a dotação da despesa total passou de cerca de 95 675 milhões para 104 011 milhões de CVE, um aumento de 8,7%.
Ao mesmo tempo, a previsão agregada da receita apresentada na Conta Provisória permaneceu em 91 511 milhões de CVE.
Esta diferença alterou significativamente o défice implícito no orçamento reprogramado: passou de cerca de 2,9 mil milhões para 11,3 mil milhões de CVE. O CFP identifica ainda uma necessidade de financiamento estimada em cerca de 536 milhões de CVE que permanecia por cobrir no referencial analisado.
É importante, contudo, colocar este dado no contexto correto.
Alterar o orçamento durante o ano não significa, por si só, que exista uma irregularidade. O próprio relatório reconhece que a reprogramação orçamental faz parte da gestão das finanças públicas. A questão levantada pelo CFP está relacionada com a necessidade de assegurar uma reconciliação clara entre as alterações introduzidas na despesa, as previsões de receita e as respetivas fontes de financiamento.
Esta distinção é importante para interpretar corretamente o relatório: o CFP está a chamar a atenção para a coerência e transparência do quadro orçamental, e não a afirmar que as alterações realizadas constituem, por si mesmas, uma ilegalidade.
A dívida está a baixar?
Também aqui os números exigem algum cuidado.
Em termos nominais, a dívida pública do Governo Central aumentou. No final de junho, o stock atingiu cerca de 303 729 milhões de CVE, mais 1,6% do que no período homólogo.
Mas o peso da dívida em relação ao PIB diminuiu, passando de 99,9% para 93,1%.
As duas afirmações podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. A dívida aumentou em escudos, mas a economia cresceu a um ritmo que fez diminuir o seu peso relativo no PIB. O CFP explica que a redução do rácio resulta sobretudo do crescimento do PIB nominal.
A composição do financiamento também mudou.
O financiamento interno líquido passou de cerca de 358 milhões de CVE no primeiro semestre de 2025 para 4 258 milhões em 2026. O aumento concentrou-se sobretudo no sistema não bancário. Em paralelo, os desembolsos externos diminuíram de cerca de 5 156 milhões para 2 507 milhões de CVE, enquanto as amortizações externas passaram de 5 336 milhões para 5 737 milhões.
O relatório destaca, por isso, a importância de acompanhar a evolução do financiamento interno e os respetivos riscos de refinanciamento.
O que pode acontecer até ao final do ano?
O segundo semestre será determinante para perceber se as tendências observadas até junho se mantêm.
De acordo com o CFP, permanece uma parcela significativa do orçamento por executar. A aceleração da despesa e do investimento, a capacidade de manter o desempenho das receitas e as necessidades de financiamento serão alguns dos elementos a acompanhar.
O contexto económico externo também importa. O relatório identifica entre os principais riscos a evolução dos preços internacionais da energia, a procura turística e a ocorrência de fenómenos climáticos, além das pressões sobre despesas de natureza permanente, dos riscos associados a empresas públicas e das necessidades de financiamento.
O próprio CFP sublinha que Cabo Verde continua exposto a fatores externos, nomeadamente pela sua dependência do turismo e das importações. No primeiro
trimestre de 2026, o PIB real cresceu 6,4% em termos homólogos e os serviços cresceram 7,1%, enquanto a inflação média anual se situou em 1,6% em junho.
São indicadores que ajudam a compreender o contexto favorável em que as contas públicas foram executadas, mas não eliminam as incertezas para o resto do ano.
Uma leitura que exige mais do que um número
O relatório do Conselho das Finanças Públicas não permite resumir o primeiro semestre numa única conclusão.
A receita fiscal cresceu de forma significativa e o saldo global permaneceu positivo. Ao mesmo tempo, a margem orçamental diminuiu, a despesa cresceu mais rapidamente do que a receita, o investimento teve uma execução relativamente baixa e o stock da dívida aumentou em termos nominais.
O rácio da dívida sobre o PIB, por sua vez, melhorou, refletindo sobretudo o crescimento da economia.
São realidades que coexistem e que precisam de ser analisadas em conjunto.
Mais importante ainda, o documento do CFP é uma avaliação da execução até junho, não um balanço definitivo de 2026. O próprio Conselho destaca que a evolução do segundo semestre será determinante para perceber em que medida os resultados observados refletem tendências sustentáveis ou efeitos temporários da receita e do calendário da despesa.
Para quem acompanha a economia cabo-verdiana, esta talvez seja a principal conclusão a retirar: as contas públicas não devem ser lidas apenas pelo valor da receita arrecadada, pelo saldo de um semestre ou pelo rácio da dívida. É necessário olhar simultaneamente para a qualidade da receita, a composição da despesa, o investimento, o financiamento e a capacidade de manter este equilíbrio ao longo do tempo.
É essa leitura conjunta que permitirá compreender melhor como o Estado chega ao final de 2026 e quais serão os desafios para os anos seguintes.
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