Mercenários africanos na Rússia: “Metem-se em problemas sérios”

Pelo menos dois cidadãos angolanos foram recrutados pela Rússia para combater contra a Ucrânia, numa lista que contempla 1.417 africanos. Moçambique aparece na lista de países onde a Rússia não deve recrutar.

A organização não-governamental de jornalismo investigativo INPACT, com sede na Suíça, divulgou, no relatório “O negócio do desespero: O recrutamento de combatentes africanos pelo exército russo”, onde se afirma que a Rússia tem vindo a recrutar cidadãos de países terceiros, nomeadamente africanos, para participarem na guerra contra a Ucrânia, cujo quarto aniversário se assinala hoje.

À DW, o jornalista, escritor e comentador, José Milhazes, confirma que muitos mercenários saíram de países africanos para combater pela Rússia, relata que são obrigados a assinar um contrato em russo, que não compreendem, e diz que Moçambique aparece na lista de países onde a Rússia não deve recrutar.

Milhazes garante ainda que, em troca, recebem a nacionalidade russa e valores avultados.

DW África: A Rússia tem conseguido colmatar a escassez de pessoal nas suas forças armadas, recorrendo a soldados africanos?

José Milhazes (JM): Colmatar, eu não diria. Mas arranjar um número significativo de soldados africanos, latino-americanos e asiáticos estava a conseguir recrutar. Por exemplo, do Quénia, fala-se de que 1.000 mercenários já passaram pelas fileiras do exército russo.

DW África: Mas agora surgiram informações de que alguns países já não podem ou não querem enviar mercenários para a Rússia.

JM: Dispensa-se que a pedido dos países de onde saem esses mercenários, a Rússia publicou uma lista de 62 países cujos cidadãos estão proibidos de ir combater para a Rússia.

DW África: Estará algum país lusófono nessa lista?

JM: Pelo menos está Moçambique. Moçambique está lá. Aparece também na lista daqueles países onde a Rússia não deve recrutar homens para as suas fileiras militares.

DW África: Fala-se de que países já mencionou AO Quénia, África do Sul, Argélia também duas pessoas de Angola, do Benin, do Burundi, Egito e outras nacionalidades estão a combater do lado russo. O que é que se sabe sobre a remuneração, digamos? Compensa para esses africanos irem lá arriscar a vida, digamos?

JM: Claro que sim. Agora que se metem em problemas, metem-se e problemas sérios. Um dos problemas que acontece com os mercenários, é que eles, na Rússia, são obrigados a assinar um contrato que está escrito em russo.

Recentemente tive um caso de um mercenário português que foi combater para a Rússia. Esteve lá a cumprir o período que ele julgava ser o período normal previsto no contrato e, quando chegou o fim do contrato, disseram-lhe os russos que não, que tinha que ficar mais de um ano.

E para sair da Rússia foi muito, muito difícil, porque o homem, além de estar doente, compreendeu que aquela guerra não é uma guerra para ele.

DW África: Fazendo pesquisas na Internet, constam somas para todos os gostos. Fala-se num pagamento inicial entre os 2.000 e os 30.000 dólares. Fala-se de um salário mensal entre 1.860 e 2.100 euros, com seguro de saúde incluído. Naturalização russa para cada candidato, após 3 a 6 meses de serviço. Que informações são verdadeiras, no leque destas que eu mencionei?

JM: É o seguinte, quanto à nacionalidade é verdade. Os russos dão a nacionalidade às pessoas que combateram pelo menos nesse período de tempo ao lado das tropas russas na Ucrânia. Agora, quanto aos honorários, há aqui efetivamente vários números – porque isso também depende muito, por exemplo, da especialidade das pessoas que vão combater ao lado da Rússia.

Quanto ao mensal, os números que me disse coincidem. Agora, quanto ao sinal da entrada, há muita confusão porque eles não gostam de falar que estiveram no conflito para ganhar dinheiro.

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