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Apenas seis dias depois da visita de Donald Trump, o Presidente chinês, Xi Jinping, recebe o líder russo, Vladimir Putin, em Pequim. Os encontros realçam o papel crescente da China num panorama geopolítico fragmentado.

Aparentemente, a visita do Presidente russo, Vladimir Putin, à China para se reunir com o seu homólogo, Xi Jinping, tem como objetivo assinalar o 25.º aniversário do Tratado Sino-Russo de Boa Vizinhança e Cooperação Amigável de 2001.
Mas o momento da viagem – apenas seis dias após a visita de Estado do Presidente dos EUA, Donald Trump, a Pequim – é digno de nota e destaca a posição influente da China num panorama geopolítico cada vez mais fragmentado e marcado por rivalidades entre grandes potências.
O que está na agenda da cimeira Putin-Xi?
Espera-se que os temas em discussão incluam questões económicas e comerciais bilaterais, bem como debates sobre assuntos internacionais e regionais.
Com o isolamento de Moscovo em relação ao Ocidente devido à invasão da Ucrânia, a China tornou-se, de longe, o maior parceiro comercial da Rússia: fornece mais de um terço das importações e compra mais de um quarto das exportações russas.
Mas a parceria tem também, alegadamente, dimensões militares. Uma investigação da Reuters feita em julho de 2025 revelou que empresas chinesas terão usado empresas de fachada para enviar motores de drones a fabricantes de armas russos como equipamento de refrigeração industrial – alegações que Pequim nega.
Antes da cimeira entre Putin e Xi, Claus Soong, do Instituto Mercator de Estudos sobre a China (MERICS), na Alemanha, afirmou à DW que o atual panorama geopolítico colocou Pequim numa posição vantajosa.
Tanto os Estados Unidos como a Rússia precisam da China neste momento, embora de formas opostas: Washington procura um rival estratégico, enquanto Moscovo quer um parceiro com interesses geopolíticos e energéticos que se sobreponham aos seus.
Pequim, por sua vez, não precisa de se inclinar para equilibrar os EUA ou distanciar-se das tensões entre a Rússia e o Ocidente, acrescentou Soong.
O que é que Putin quer agora de Xi?
Trump foi calorosamente recebido por Xi e partiu de Pequim com um tom otimista. A visita de Putin poderá, em parte, ter como objetivo obter garantias de que qualquer progresso nas relações entre a China e os EUA não se faça à custa de Moscovo.
Para Putin, a prioridade imediata é reafirmar os seus laços estreitos com Xi e avaliar o pensamento atual de Pequim. Uma questão mais voltada para o futuro, sugeriu Soong, é quem poderia atuar como mediador credível caso a Rússia procurasse pôr fim à guerra na Ucrânia.
Sinais recentes, incluindo um desfile do Dia da Vitória mais moderado e ataques ucranianos contínuos à infraestrutura petrolífera russa, sugerem que Moscovo pode estar a sentir fadiga de guerra. Putin chegou mesmo a sugerir que o conflito poderia estar a aproximar-se do fim.
Desde a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, Putin tem-se reunido frequentemente com Xi. Para Pequim, esta relação continua a ser uma prioridade estratégica, observou Soong, embora o equilíbrio de poder seja assimétrico, com a Rússia a depender agora mais da China do que o contrário.
Enfrentando uma pressão crescente na Ucrânia, Putin continua a depender da China de várias formas, afirma Ding Shufan, professor de Estudos do Leste Asiático na Universidade Nacional Chengchi de Taiwan. Estas incluem as importações contínuas de energia russa pela China, bem como o acesso a bens de dupla utilização e cadeias de abastecimento.
Se Pequim poderá ajustar o seu nível de apoio – “como controlar a torneira”, como descreveu Soong – continua a ser algo incerto.
O que Pequim quer – e pode obter – de Moscovo
“A China não quer guerra; isso não é do interesse a longo prazo da China”, disse Soong à DW. Por isso, é improvável que a China exerça muita influência nas atuais zonas de guerra.
“Pode não ser do interesse da China ver a guerra na Ucrânia continuar”, acrescentou, “mas representaria um risco maior para a China ver um colapso do regime.” Pequim consideraria o colapso dos regimes tanto no Irão como na Rússia um resultado negativo.
Soong argumenta que uma Rússia enfraquecida ou instável representaria riscos estratégicos imediatos para Pequim. Os dois países partilham uma longa fronteira, e Moscovo continua a ser um importante parceiro estratégico para a China. Isso significa que é improvável que Pequim queira que a Rússia saia muito prejudicada, mesmo evitando assumir um papel mais direto na guerra.
A China também tem sido afetada pelas tensões em torno do Estreito de Ormuz e pela consequente perturbação no abastecimento de petróleo. Tendo em conta os desafios internos, como o excesso de capacidade industrial, a China não consegue exportar facilmente os seus produtos se regiões-chave forem afetadas por conflitos.
Analistas afirmam que a agitação no Médio Oriente poderá tornar a energia russa mais atraente para Pequim. A Rússia representou quase 18% das importações de petróleo da China em 2025, em comparação com cerca de 13% do Irão e aproximadamente 42% de outros países do Golfo.
As sanções ocidentais levaram Moscovo a redirecionar as exportações para o Oriente, enquanto a guerra dos EUA e de Israel contra o Irão continua a suscitar preocupações quanto ao tráfego marítimo através do Estreito de Ormuz. A Rússia precisa do mercado chinês, enquanto a China pode garantir a energia russa a um preço reduzido.
O que observar na cimeira
“A China e a Rússia são como um casal na mesma cama com sonhos diferentes”, disse Soong, descrevendo os seus interesses como alinhados, mas não idênticos.
Para a China, um dos principais objetivos é garantir um abastecimento energético mais fiável e sustentável, sem se tornar excessivamente dependente do petróleo russo, o que daria vantagem a Moscovo.
Embora a agenda da reunião ainda não esteja clara, Soong afirma que poderá haver sinais de um possível arrefecimento na relação.
Poderão ser assinados acordos, mas o especialista alertou que, para países como a China e a Rússia, tais acordos são frequentemente o início e não o fim de um processo.
Citou o exemplo do banco de desenvolvimento proposto pela Organização de Cooperação de Xangai: inicialmente apresentado pela China em 2010, o projeto permaneceu estagnado durante mais de uma década e, apesar de um novo impulso na cimeira de Tianjin de 2025, ainda não se tornou uma instituição plenamente operacional.
“Não existe tal coisa como uma parceria ilimitada”, afirmou Soong, referindo-se à retórica anterior sobre as relações entre a China e a Rússia.
Quando Putin e Xi se encontraram em Pequim no início de 2022, pouco antes de a Rússia invadir a Ucrânia, proclamaram que a “amizade entre os dois Estados não tem limites”. No entanto, desde então, os responsáveis chineses têm minimizado essa declaração, com Fu Cong, então embaixador da China junto da UE, a descrever a frase como “nada mais do que retórica”.
Ainda assim, isto não significa que Pequim e Moscovo não estejam alinhados. “Se a China estiver a ponderar as suas opções entre a Europa e a Rússia, a Rússia ainda tem mais para oferecer”, afirmou Soong.







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