Trabalhadores dizem-se “abandonados pelo governo e pela empresa” e acusam TICV de não cumprir acordo assinado

Em causa estão dois meses de salários em atraso e ainda indemnizações que constam do acordo coletivo assinado em agosto.

Mais de 20 trabalhadores da Transportes Interilhas de Cabo Verde (TICV), que operava no país com o nome comercial Bestfly Cabo Verde, concentraram-se hoje, dia 26, em frente à sede da empresa na Praia para mostrar o seu descontentamento devido ao não cumprimento por parte da antiga entidade patronal do acordo coletivo assinado em agosto deste ano. Com dois meses de salários em atraso, os mesmos denunciam também a falta de feedback do governo e afirmam que vão continuar a lutar pelos seus direitos.

“(…) não houve nenhum pagamento, nem contacto da empresa, nem do acionista, que é também o governo de Cabo Verde, e estamos com um sentimento de abandono de todas as formas”, afirmou em declarações à imprensa o porta-voz dos mais de 40 trabalhadores que assinaram o acordo com a empresa, Rubem Barros, acrescentando que já tentaram encontros, contatos, inclusive via advogado, mas sem sucesso.

“Hoje é o fim dos nossos esforços. E estamos aqui a mostrar o nosso descontentamento, a humilhação que sentimos ao ser abandonados pelo nosso governo e pela empresa”, lamentou o representante que explica que o acordo, que foi assinado “com a empresa Bestfly, representada pelos seus advogados e pela comissão de trabalhadores que representa a maioria dos funcionários (mais de 40 pessoas), prevê além do pagamento de dois vencimentos em atraso, o pagamento das indemnizações dos trabalhadores.

Segundo Barros, a maioria destes trabalhadores, com idades entre os 20 e os 60 anos, continua desempregada, “sendo que outros estão com trabalhos precários, fora da sua área de formação, porque a aviação é uma área específica, e há outros que já têm trabalho, mas os seus direitos têm de ser salvaguardados”, além dos que optaram por emigrar.

Questionado sobre a declaração, em junho, do primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, de que os funcionários da TICV poderiam ser integrados na nova empresa de transportes aéreos interilhas, o representante dos manifestantes explicou que “até ao momento isso não chegou a acontecer”. “Foi-nos dito que seríamos as primeiras pessoas a ir para a nova empresa, mas o processo ainda não chegou até nós”, garantiu o ex-funcionário da TICV e acrescentou que a opção de ir para a nova empresa será sempre pessoal de cada funcionário.

Quanto ao último contacto com o governo, segundo os manifestantes, este chegou a acontecer há cerca de um mês quando foram atendidos apenas por uma funcionária administrativa.

Perante esta falta de feedback, os antigos funcionários da TICV que já dispõem de representante legal admitem todas as formas de luta, inclusive avançar para a justiça.

No que diz respeito ao montante em dívida pela TICV, os trabalhadores dizem que não podem avançar o mesmo, mas que é um “valor substancial”, contudo garantem que “ (…) não é o valor, é a parte moral, a nossa humilhação e o esforço que demos à empresa. (…) Estamos a pedir a restituição do que nós demos à empresa. Todos, de uma ponta a outra, da limpeza, à aviação, aos pilotos, tudo”.

É de recordar que no mês de abril a companhia aérea Bestfly (nome comercial) deixou de operar em Cabo Verde, deixando críticas à forma como foi tratada pelas autoridades, alegando um “ambiente de negócios tóxico e punitivo”.

A 20 de junho, o primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva garantiu que “a nova empresa que vai surgir de transportes interilhas vai ter necessidade de pilotos, pessoal navegante de cabine e de toda a parte operacional, não haverá problemas em relação ao emprego”.

Em julho, os trabalhadores TICV já tinham manifestado a sua “profunda insatisfação e preocupação” com a situação financeira que enfrentam, causada pela falta de resposta por parte da empresa e tinham exigido, tanto do governo quanto da TICV, “respostas concretas sobre a regularização salarial e esclarecimentos sobre o futuro da empresa”.

No mês seguinte, foi assinado um acordo coletivo pela comissão que representa os 43 trabalhadores e os representantes legais da TICV, acordo este que os funcionários explicam que não foi cumprido.

Balai Notícias

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