A “Janela” da Cultura e das Indústrias Criativas em Cabo Verde

Quando estive na Direção-Geral das Artes, reuni com quase todos os vereadores da área — a exceção foi São Vicente, e a proposta que ficou em cima da mesa foi a seguinte:
Um diagnóstico cultural participativo do concelho;
Formações para a capacitação dos agentes culturais locais em produção e gestão cultural, empreendedorismo criativo e captação de recursos;
A transformação dos festivais — autênticos espaços de presença da juventude — em plataformas para reforçar a identidade cultural, divulgar novos talentos e promover conversas abertas entre grandes artistas, fãs, artistas emergentes e outros profissionais sobre as oportunidades e os desafios das suas carreiras.
Defendi também que estes festivais não fossem vistos apenas como atividades para ganhar popularidade junto dos eleitores, mas que se começasse a desenhar um modelo diferente e sustentável para a cultura e para toda a cadeia das indústrias criativas ligada a estes espaços.
Sentei-me com os fazedores do Carnaval da Praia e propus ajudá-los a criar uma festa à imagem da ilha de Santiago, que trouxesse a tradição para a modernidade e tirasse proveito da excelente avenida de que dispõe, sem fazer um copy-paste do Carnaval mindelense. A ideia era aproveitar apenas a parte boa de Mindelo para criar uma festa com identidade própria de Santiago. Isto não aconteceu não por falta de vontade minha, mas por uma inércia que até hoje não compreendo.
Hoje, depois de muita luta, temos as primeiras formações profissionalizantes em Produção Cultural e Gestão de Projetos e Instituições Artísticas e Culturais no currículo da UNI-CV. É verdade que isto pode ser o início de alguma coisa, mas não basta.
Hoje, já não estando associado ao Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas, pude abrir a minha empresa e apresentar serviços e pacotes aos agentes culturais, ao Governo e às câmaras municipais, para ajudar na profissionalização e no cimentar desta área. A cultura e as indústrias criativas ainda têm muito para dar a este país. Só precisamos de profissionais comprometidos e cientes dos desafios que terão pela frente para estruturarmos de vez um setor tão abrangente — um setor de que ainda nem começámos a tirar verdadeiro partido.
No fundo, a minha reflexão é esta: sem pessoas com opinião formada, sem políticas culturais estruturantes, sem formação contínua e sem uma visão sustentável para os festivais e para as indústrias criativas, Cabo Verde continuará a desperdiçar um dos seus recursos mais vitais. A cultura, como muitos pensam, e sem nada contra ao entretenimento, não é apenas festa; é identidade, economia, emprego, inovação real na vida da pessoas e sobretudo é futuro.

Adilson Gomes
Adilson Gomes é um gestor / produtor cultural com intervenção direta na definição de políticas públicas para a cultura e as indústrias criativas em Cabo Verde. Foi Diretor Geral das Artes e das Indústrias Criativas (2017–2023), período em que contribuiu para a gestão e dinamização de alguns dos principais equipamentos culturais do país como eixo estratégico de desenvolvimento. Coordenou o Núcleo Nacional do Cinema, onde esteve ligado à estruturação do setor audiovisual e à criação de mecanismos de apoio à produção. Ao longo do seu percurso, tem defendido a profissionalização dos trabalhadores da cultura e o fortalecimento da economia criativa. Integrou o Conselho de Administração da Pró-Empresa e atualmente faz parte do Ministério da Promoção de Investimentos e Fomento Empresarial.
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