Juventude à deriva

As noites que antes eram de música e convívio transformaram-se em becos escuros, onde se trocam sonhos por pó branco, Xamú, e gargalhadas por gritos. O álcool deixou de ser celebração e passou a ser fuga. A violência já não choca, tornou-se rotina. O roubo deixou de ser sobrevivência, é quase vício.
Doi-me ver rapazes de quinze anos com olhos cansados de quem já viveu demasiado, ou raparigas que trocam a inocência por promessas baratas. Vejo-os a correr, mas não correm para o futuro — correm para fugir da polícia, para escapar ao rival, para esconder o que carregam nos bolsos.
E nós, adultos, fingimos que não vemos. Fingimos que é apenas “fase”. Mas não é fase: é queda. É um mergulho sem rede, um salto sem regresso.
A ironia é cruel: numa ilha que se vende como paraíso turístico, os nossos jovens vivem um inferno silencioso. Enquanto os visitantes tiram fotos ao pôr-do-sol, há rapazes que se escondem na sombra de uma esquina e raparigas que choram sem ninguém ouvir.
Mas há uma verdade que não podemos calar: muitos jovens fazem isto porque não são responsabilizados. A justiça, em vez de proteger quem trabalha, parece proteger quem delinque. Os trabalhadores são pressionados, enquanto os delinquentes são desculpados. É um sistema que ensina que o crime compensa e que o esforço é castigado.
A juventude da Ilha do Sal está a ser consumida. Não por falta de força, mas por excesso de caminhos errados. Não por falta de vida, mas por escolhas que matam lentamente.
E se nada mudar, não restará juventude — apenas memórias de quem poderia ter sido e nunca foi.

Aluísio Oliveira
Nascido em São Vicente, criado em Santo Antão e atualmente residente na ilha do Sal, Aluísio Oliveira construiu o seu percurso entre o empreendedorismo, a educação e a intervenção social. Empresário nas áreas dos transportes e do comércio, concilia a atividade empresarial com a função de Subdiretor de Assuntos Sociais, Inclusão e Cidadania do Complexo Educativo Manuel António Martins (CEMAM).
Atento às transformações da sociedade cabo-verdiana, tem particular interesse pelas questões relacionadas com a juventude, educação, inclusão, cidadania e responsabilidade social. Através da sua intervenção e dos seus textos de opinião, procura trazer para o espaço público temas que considera fundamentais para o desenvolvimento da comunidade.
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