Ser forte, uma desvantagem

Ser forte, uma desvantagem

Todos conhecemos alguém a quem o adjetivo que melhor lhe carateriza é o de ser forte. De conseguir suportar o peso que a vida vai colocando nos seus ombros e de conseguir se reerguer voltando mais forte, o que gera em nós admiração e alguma cobiça, pois não reconhecemos em nós a mesma qualidade.

Pare um segundo e pense na pessoa que considera forte. Após identificar a pessoa, faça-se a seguinte pergunta: quando foi a última vez que pensei nela e fui capaz de procurar saber se ela estava bem ou a precisar de um ombro amigo?

É provável que se sinta desconfortável com a resposta visto que a imagem que tem dessa pessoa como forte tenha impedido que cogitasse poder ser capaz de lhe oferecer ajuda, caso ela precisasse. Possivelmente nunca lhe tenha passado pela cabeça que a pessoa forte não o seja em todas as situações. É comum nos esquecermos de que a pessoa forte também precisa de apoio para ir navegando por entre em revezes da vida, da mesma forma como as demais, ainda que não o manifeste por palavras ou ações.

Vamo-nos habituando às dinâmicas das nossas relações e se não nos atendermos podemos facilmente entrar no modo em que a relação seja caraterizada por movimentos unilaterais: o forte sempre a ajudar e o menos forte sempre a pedir ajuda. Inadvertidamente cria-se algo pernicioso: uns sugam e outros oferecem, uma e outra vez, vezes sem conta. O ser humano habitua-se a tudo e ao fazer isso acaba por negligenciar a possibilidade de poder fazer diferente.

Longe de mim advogar que a força que uma pessoa revela é uma maldição, longe disso. No entanto, é inegável que o pode ser, se não for corretamente gerido por ambas as partes.

Pretendo com a pergunta dar um agito nas águas e assim permitir que seja capaz de olhar para além da dinâmica estabelecida, da forma como olha a pessoa forte e possa se lembrar que ela é igualmente assaltada por dúvidas, inseguranças, medo e ansiedade. 

Que perante essas situações a pessoa pode precisar de uma mão amiga que lhe ajude a suportar o que for necessário, a ser capaz de sentir um quê de esperança e sentir-se amparada o suficiente para ganhar confiança de que também é digna de ajuda e que vale a pena lutar por dias melhores.

Regra geral, a pessoa forte aprendeu desde nova que o auxílio dos outros não era algo com o qual pudesse contar e como tal criou uma carapaça de força para que pudesse continuar a avançar. Teve de descobrir a força em si mesma para que não perecesse. Não teve outra solução. Tornou-se boa nisso.

Aprendeu que não podia confiar no outro, que na vida somente podia confiar em si mesma. Ao interiorizar isso não foi capaz, em muitos casos, de aprender a pedir ajuda, a reconhecer que dividir o fardo com o outro não é sinónimo de fraqueza, mas sim o traço mais humano que existe. A força que antes a permitiu sobreviver e avançar poderá ser aquilo que a condenará a uma prisão solitária, de se ver sozinha por ter criado nos outros a convicção de que nada a abala, de sempre ultrapassar aquilo que lhe acontece.

O ser humano procura validação e aceitação dos seus pares, é algo natural e a qual não pode fugir. E por causa disso, para que possa ser aceite aprende a camuflar ou sufocar tudo aquilo que tem em si e que considera que não será aceite pelos outros. Faz tudo para que possa corresponder à imagem que os outros fazem de si, e em consequência pode se ver impossibilitado de sair dessa imagem/personagem que o outro tem de si e acaba por ficar restringido na sua liberdade de viver a sua verdade nos momentos de fragilidade.

Nenhum ser humano é autossuficiente, a condição humana exige a nossa organização em grupos de forma a permitir a sobrevivência da nossa espécie. Pelo que por mais competente que uma pessoa possa ser em assumir as rédeas da sua vida, irá sempre precisar do outro. O afastamento dessa interdependência acarreta um peso adicional nos ombros da pessoa e o acumular desse peso pode atingir um ponto insuportável.

Vezes demais damos por nós a ser confrontados com desfechos trágicos de pessoas consideradas fortes, que por falta de apoio ou capacidade de pedir ajuda, acabaram por desistir de lutar pela vida. E nesses momentos reconhecemos o nosso falhanço como sociedade, como amigos, pois não fomos capazes de antecipar o nível de sofrimento e a desesperança que lhes ia no âmago.

Podemos fazer diferente, é imperativo que o façamos, pois tal como alguém nos oferece a mão nos momentos difíceis, devemos ser capazes de cultivar em nós essa mesma disponibilidade para com o outro.

Por mais fracos que podemos nos considerar há sempre algo que podemos acrescentar no outro e na sociedade em que estamos inseridos. E o nosso pouco pode ser o suficiente para fazer a diferença.

Para tal precisamos deixar de estar continuamente focados só em nós, precisamos levantar o rosto, abrir o coração e ter a sensibilidade necessária para olharmos à nossa volta e lembrarmo-nos daquela pessoa que nos ajudou e que poderá precisar de nós. 

Quando nos dispomos a estar disponíveis nos colocamos na posição e frequência ideal para captarmos sinais que de outro modo nos passariam despercebidos. Ficamos efetivamente sensíveis à energia que o outro emana e conseguimos intuir quando alguém à nossa volta não está bem e podemos oferecer  o nosso tempo, o nosso ombro.

Faça-se a pergunta que fiz no início da crónica, dê a resposta e não se fique por aí, dê o primeiro passo de encontro ao seu amigo forte, alimente essa força manifestando o amor e apreço que nutre por ele. Como sabemos, amar é um verbo, indica ação, e nos interpela a darmos algo de nós para outro. 

Há algo mais valioso do que nos darmos ao outro?

 

Vossa Adénis.

Praia, 10 de setembro de 2026.

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Adénis Carvalho Silva

Adénis Carvalho Silva

"Filha, mãe, esposa, advogada. Amiga dos seus amigos. Leal, honesta e direta. Uma apaixonada por música, livros e pela escrita. Amante de uma boa conversa e de aprender coisas novas. Em permanente busca de novos desafios."

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