Quando uma ideia chega a Bruxelas

Na última vez que estive em Bruxelas, percebi que uma parte importante do trabalho acontece antes de qualquer reunião: descobrir quem trata de cada assunto, bater à porta certa e conseguir explicar, em poucos minutos, por que razão um problema sentido numa ilha também deve preocupar a Europa. É preciso saber ao que se vai e levar propostas que façam sentido para quem vive na Madeira.

A representação política e institucional da Madeira é fundamental. Mas a Região também é feita de universidades, empresas, associações, investigadores e cidadãos que conhecem o território e encontram soluções antes de elas chegarem aos programas oficiais.

Um exemplo é o EU UV SAFE, um dos projetos que a APMM – Associação de Promoção da Macaronésia da Madeira pretende apresentar em Bruxelas. Nasceu de uma pergunta simples: quando estamos debaixo de um guarda-sol, estamos realmente protegidos da radiação ultravioleta ou sentimos apenas o alívio da sombra, distraídos numa falsa sensação de proteção? Nem toda a sombra garante proteção eficaz. Pior cenário é quando sombra nem é uma possibilidade… nem de boa nem de má qualidade… A proposta é certificar praias, esplanadas, hotéis, piscinas, parques infantis, que cumpram critérios técnicos de proteção contra os raios UV. A exemplo simples do conceito “bandeira azul”, contudo aplicado à proteção dos raios UV.

A proposta da APMM é que a Madeira seja a região-piloto; apresenta níveis de radiação frequentemente elevados, uma vida muito ligada ao exterior, forte atividade turística e uma preocupação crescente com os efeitos da exposição solar na saúde. Posto isto, a proposta é de que o modelo seja alargado à Macaronésia e, posteriormente, a outros territórios europeus.

É para isto que também serve estar em Bruxelas: transformar uma ideia nascida na sociedade civil num projeto com validação científica, parceiros e possibilidade de ganhar escala. Uma boa ideia não deve ficar na gaveta apenas porque nasceu longe dos centros de decisão.

Nas próximas semanas, a Atlantic-WestMED Stakeholder Conference, o I3 Instrument Forum e a European Week of Regions and Cities, entre outros importantes encontros, reunirão decisores e organizações em torno da cooperação, da inovação e do futuro das regiões. A APMM está a trabalhar para se fazer representar e levar propostas concretas para a região e para a Macaronésia.

Esclareça-se que uma sociedade civil interventiva não pretende substituir nem disputar o papel das instituições. Pretende acrescentar conhecimento e iniciativa. 

Porque não a criação de uma articulação mais próxima, que facilite o acesso das organizações à informação, aos contactos e aos encontros estratégicos, reforçando ainda mais a presença da Madeira na Europa? 

A Europa não criou espaços para ouvir a sociedade civil por mero formalismo. Criou-os porque reconhece que importantes decisões começam por escutar quem conhece e vive os problemas. A porta está aberta; cabe-nos não ficar do lado de fora.

 

Susana Gramilho

Presidente da APMM – Associação de Promoção da Macaronésia da Madeira



Este texto foi originalmente publicado no Diário de Notícias da Madeira.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Susana Gramilho

Susana Gramilho

Cônsul Honorária de Cabo Verde na Região Autónoma da Madeira, Presidente da Associação de Promoção da Macaronésia da Madeira e Diretora Pedagógica da Associação Amigos da Diáspora e Emigrantes Madeirenses, mestre em Educação, pós-graduação em MBA/Gestão,cronista do Jornal da Madeira, escritora, encantada por música, livros e pela prática desportiva. Apaixonada por Cabo Verde, pelo seu povo, pela sua rica cultura, pelas mornas, empenhada em aprender crioulo e em estreitar relações entre a Madeira e Cabo Verde e na promoção da Macaronésia.

Outros artigos