O Futuro, um Novo Mapa, e as Nossas Amarras: Uma Reflexão sobre o Potencial Africano 

O Futuro, um Novo Mapa, e as Nossas Amarras: Uma Reflexão sobre o Potencial Africano 

Ao confrontar duas notícias distintas — a correção do mapa-múndi para refletir a verdadeira dimensão de África e a chegada do Cybercab da Tesla às ruas de Austin (EUA) —, vi-me mergulhado numa reflexão profunda sobre a nossa trajetória. A justaposição destes dois factos, um que resgata a nossa grandeza física e outro que materializa o futuro tecnológico, expõe uma ferida antiga: a castração do nosso potencial desde o berço. Questiono-me se nós, cabo-verdianos e africanos em geral, conseguiremos algum dia alcançar o nível de desenvolvimento que hoje vemos nos EUA e na Europa.

O nosso problema começa na base, na educação. Porque passámos anos a decorar a história, os rios e as cidades da Europa, enquanto fomos privados do essencial: a descoberta de nós mesmos e do nosso real potencial? O sistema que herdámos criou uma hierarquia cruel na sala de aula. O docente, muitas vezes, dedicava-se aos alunos “brilhantes” em matemática, enquanto os medianos, os suficientes e os medíocres eram encostados a um canto, rotulados de imprestáveis. De nada valia a excelência noutras disciplinas; a proficiência em aritmética era o passaporte único para o reconhecimento e para a promessa de um “bom futuro”.

Eu mesmo vivi sob esse julgamento. Nunca fui um mestre em matemática, mas talvez apenas precisasse do básico para gerir as minhas contas quando me tornasse adulto e para saber equacionar as oportunidades e decisões da vida. Não é menos verdade que a matemática nos acompanha até ao fim dos nossos dias. Esta é uma mania colonial que, até hoje, persiste em Cabo Verde: castrar meninos e meninas logo ao nascedouro, condenando-os ao corredor da desgraça e do falhanço por não serem génios da matemática. Quantas mentes criativas e brilhantes, que deveriam estar a lecionar ou a liderar, não foram por nós silenciadas?

Olho para os EUA. Um país que, paradoxalmente, muitos dos seus habitantes veem como o centro único do mundo. Mesmo perante essa visão tacanha, admiro a sua capacidade de valorizar o indivíduo, independentemente da sua origem, e de procurar e nutrir talentos desde a tenra idade. Essa é a chave do seu desenvolvimento. Chego à dura conclusão de que, enquanto não aprendermos a aproveitar os nossos talentos e as pessoas preparadas, independentemente das suas preferências religiosas, amorosas ou das suas cores partidárias, nenhum de nós, vivos hoje, verá uma rede de táxis sem volante ou pedais a circular em segurança nas ruas de Cabo Verde. E atenção: não estou a ser pessimista, mas sim realista.

Foi deste desenvolvimento que fomos castrados, primeiro pela colonização e, depois da independência e da abertura política, por nós mesmos. Continuamos a reproduzir as mesmas amarras. Basta olhar para os nossos parceiros lusófonos. A Guiné-Bissau tem recursos e potencial, mas definha. O mesmo cenário repete-se em São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, e até mesmo o Brasil, com toda a sua imensa capacidade criativa, luta contra estas estruturas enraizadas na sua sociedade. Por mais que se queira passar uma nova imagem, as favelas serão sempre favelas e nunca bairros onde o futuro possa ser risonho para qualquer um.

Cabo Verde teve a sua oportunidade de se destacar, mas a demagogia, a burocracia, o excesso de zelo e a politiquice sufocam o progresso. Talvez ainda nem tudo esteja perdido, pois acredito que a nova geração de cabo-verdianos(as) terá forçosamente de pensar de forma diferente da nossa. Se assim não for, o desenvolvimento e as oportunidades nunca serão para todos, enquanto o mérito for secundarizado pela orientação sexual, pela religião, pela filiação partidária ou por qualquer outro fator discriminatório. Se uma pessoa competente for preterida por gostar de “meninas” ou de “meninos”, por escolher Alá em vez de Jesus, ou por apoiar A em vez de B, as amarras coloniais que ainda dominam as nossas mentes terão vencido mais uma vez. O resultado final, como é óbvio, será a fuga de cérebros, com a nossa criatividade e as nossas melhores ideias a emigrarem para as terras do Tio Sam ou da Europa, para não dizer outros destinos mais longínquos.

Se não pararmos com alguns desses comportamentos tacanhos, é certamente assim que o nosso fim se desenha, meus caros amigos e amigas. Enquanto a ONU reconhece finalmente o verdadeiro tamanho do nosso continente — um facto que, bem lá no fundo do nosso ser, já conhecíamos desde sempre —, nos EUA, na Europa e noutras partes do mundo que não África, as pessoas são criogenicamente preservadas para acordar daqui a 100 anos, os carros autónomos circulam livremente, a internet é abundante, as bibliotecas públicas são acessíveis e as escolas e universidades são vistas como parceiras da criatividade, do talento e de um futuro assegurado, e não como suas castradoras. A distância entre nós não é apenas geográfica ou tecnológica; é, acima de tudo, uma escolha sobre que tipo de futuro queremos construir e que tipo de países queremos deixar para a próxima geração de africanos(as).

A imagem em anexo é meramente ilustrativa.

Adilson Gomes

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Adilson Gomes

Adilson Gomes

Adilson Gomes é um gestor / produtor cultural com intervenção direta na definição de políticas públicas para a cultura e as indústrias criativas em Cabo Verde. Foi Diretor Geral das Artes e das Indústrias Criativas (2017–2023), período em que contribuiu para a gestão e dinamização de alguns dos principais equipamentos culturais do país como eixo estratégico de desenvolvimento. Coordenou o Núcleo Nacional do Cinema, onde esteve ligado à estruturação do setor audiovisual e à criação de mecanismos de apoio à produção. Ao longo do seu percurso, tem defendido a profissionalização dos trabalhadores da cultura e o fortalecimento da economia criativa. Integrou o Conselho de Administração da Pró-Empresa e atualmente faz parte do Ministério da Promoção de Investimentos e Fomento Empresarial.

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