“Di Alma”, o novo EP de Indira que foi “um teste à sua capacidade artística e lírica”

O segundo trabalho da artista foi disponibilizado ao público este mês e a cantora confessa que apesar de desafiante este foi um EP "genuíno, que saiu do coração".

Depois de Mil Paus lançado em 2021, a 1 de fevereiro deste ano, a cantora cabo-verdiana Indira lançou o seu segundo trabalho – ‘Di Alma’. Este é um EP mais introspetivo, “puro e genuíno, que saiu do coração” e que resultou de uma busca interna, como a artista revela em entrevista ao Balai.

“O nome Di Alma é justamente porque todo o processo do EP e cada faixa tem a alma da Indira. Não poderia escolher outro nome que não esse”, assegura e acrescenta que trabalhar neste projeto foi desafiador. “Estava a passar por alguns momentos angustiantes a nível profissional, a tentar descobrir-me como compositora porque vim de uma outra realidade, o outro EP foi todo com composições de outras pessoas, desta vez queria trazer um pouco de mim. Todas estas dúvidas sobre se eu seria capaz e se tenho este potencial a nível de composição, todo este processo de tentar encontrar-me, levou-me a escrever“.

O resultado está à vista são sete temas originais entre os quais: Angústia, Mama, que já era conhecido do público desde 2023, Bu Bai, Ka Tem Como, Nka Tinha Nada, Kantu Bez e Finka Pé.

Nas composições há algumas colaborações como é o caso de Élida Almeida e do rapper Mayou onde a intenção foi dar um novo toque aos temas.

“Mama” como o nome sugere é uma sentida homenagem à mãe da artista. Indira destaca que cada uma das faixas traz diferentes sentimentos que acabou por vivenciar em 2023, uns apelam mais ao coração e outras trazem vivências de outras pessoas através do olhar da cantora.

“Às vezes nós enquanto artistas passamos tanto tempo na produção que quando o trabalho sai que até já estamos um pouco cansados (…) mas por mim posso ouvir este EP todos os dias”, diz Indira que teve todo o ano de 2023 no processo criativo do disco.

Finka Pé, o tema escolhido para o lançamento juntamente com o EP a 1 de fevereiro, diz muito sobre a cantora enquanto artista que se preocupa em trazer ao de cima a cabo-verdianidade e mensagens que resgatam um pouco da cultura e tradição cabo-verdianas, que no seu entender tem estado a perder-se. “O meu trabalho enquanto artista é exatamente esse: tentar trazer mensagens e resgatar tudo o que tenha a ver com a nossa cultura e cabo-verdianidade”.

Conforme Indira, os temas variam e podem agradar ao público conforme as diferentes fases e sentimentos de cada pessoa. “E se calhar a finalidade da arte é mesma essa: fazer as pessoas sentir e conectar-se com os seus sentimentos e as suas vulnerabilidades (…) as pessoas fortes também sentem e choram”.

Por isso acredita que o ano passado foi fundamental para que Indira pudesse trazer ao de cima todos os sentimentos que depois resultaram neste EP. Entre dúvidas e incertezas todo o processo foi essencial para que saísse da sua zona de conforto e o “resultado foi bom”, nas palavras da própria. “Foi um teste à minha capacidade artística e lírica. Ainda estou nesse processo e tenho muito a aprender, mas o mais importante é tentar fazer. Se ficares com medo do que as pessoas podem achar nunca mais vais saber”.

Este ano Indira decidiu que vai fazer o que lhe vai na alma e está expectante para o que o ano lhe reserva.

“(…) o meu maior sonho de momento é que a minha arte alcance as pessoas e as minhas mensagens cheguem a mais pessoas. Isso já seria de grande valor para mim”. Cautelosa, diz que gosta de dar um passo de cada vez sem forçar nada e que os featurings e palcos virão em consequência do trabalho.”É trabalhar e tudo o que vier daí para mim é lucro”.

“Antes de ser professora sou um ser humano”

Há cinco anos que Indira é professora de inglês e este ano letivo pela segunda vez do Ensino Recorrente. “A Indira professora é totalmente diferente da Indira artista”, confessa e diz que evita misturar as duas realidades, mas no final do ano ou do semestre sempre aceita cantar para os alunos. “Eles dizem que na sala de aula sou diferente do palco e dos videoclipes. Eu digo que é necessário, se não vocês não me vão respeitar”, argumenta e acrescenta que a postura é fundamental em qualquer área ou tipo de trabalho.

“Sou uma jovem como qualquer outra e tenho projetos que vão além da sala de aula. Não podemos nos limitar à profissão que exercemos no momento. Antes de ser professora sou um ser humano, uma jovem que tem um sonho desde há muito, o facto de ter escolhido ser professora não pode ser motivo para que eu desista dos outros sonhos e projetos”, diz categoricamente.

Reconhece que a carreira artística é instável e que a carreira na educação é algo que sempre gostou desde criança. “Quero ser reconhecida pelo trabalho que faço e quero fazer coisas que amo e realizar os meus sonhos através delas. Às vezes é desmotivante também para os professores e por isso temos estado a lutar para sermos mais valorizados. É complicado, se não fosse por amor, não seria possível. Não sei o que me reserva o futuro, mas enquanto puder farei de tudo para conciliar as duas coisas. No final do dia todos estamos a lutar para realizar os nossos sonhos.”

Questionada sobre a atual situação dos professores no país, Indira defende que é complicada e que tem colegas que desabafam com ela as suas angústias. “ É difícil e acabas por ficar limitado em muitas questões e depois não compensa”, lamenta e diz que as condições no geral precisam de ser melhoradas, quer nas salas de aula, quer noutros aspetos. “Precisamos investir mais na educação (…) há coisas que vão além do salário”.

Maior representatividade feminina nos festivais

Questionada sobre uma crítica deixada há uns tempos pela colega de profissão Fattú Djakité sobre a falta de representatividade feminina nos palcos dos festivais, Indira diz que concorda. “Temos cartazes onde não vês nem duas ou três mulheres sequer. É triste porque não queremos que seja apelidado de vitimização mas está escancarado para quem queira ver e no final do dia tu (mulher) tiveste o mesmo trabalho a produzir (que o homem). As pessoas não têm noção do quão difícil é pôr um trabalho na rua e depois vês isto e dizes porquê? Porquê não tens a mesma quantidade de mulheres como de homens artistas nos festivais, o que justifica isso?”.

Mesmo no rap, um género musical que Indira também gosta, não se vê muitas mulheres. “É ainda mais difícil. Tenho de trabalhar o dobro, triplo, nem sei quanto para que alguém diga OK e dê a sua aprovação”. Contudo, reconhece que nota uma diferença na aceitação e receção de mulheres no rap desde o início da sua carreira.

Outra veia da artista que é conhecida pelos fãs é o lado comediante da cantora. Indira confessa que quando se sente à vontade dá largas à imaginação. “Se não fosse por estar em Cabo Verde acho que seria atriz. Gosto. Desde pequenina gozavam comigo diziam que “eu era a mãe do padre””, afirma entre risos e diz que é “algo que faz de forma espontânea” também nas redes sociais e acredita que é por isso que muitas pessoas se identificam.

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