Miminda, a embaixadora do “rozer” de São João Baptista no Porto Novo

A idosa santantonense é uma referência das festividades de São João Baptista no concelho do Porto Novo. É confeiteira e há várias décadas coloca a mão na massa para confecionar o Rosário “rozer”, um colar típico de festas de romarias, tradição essa que mantém viva até hoje apesar da idade avançada. “Apenas eu faço o rozer no Porto Novo, mas há pessoas de outras localidades que vêm vender aqui”, revela em entrevista ao Balai.
Reprodução Facebook do Posto de Turismo do Porto Novo

Arminda Maria Lima, mais conhecida por Miminda, é uma idosa de 80 anos natural da localidade de Boca de Ribeira Duque, no concelho de Ribeira Grande de Santo Antão, que desde os 12 anos idade confeciona Rosário (“rozer” na variante de Santo Antão), um colar feito com massa, mancarra (amendoins) ou café, que outrora era usado como alimento dos foliões que percorriam longos caminhos para chegarem ao concelho do Porto Novo para “colá Son Jon”.

“Comecei a confecionar ‘rozer’ aos 12 anos. Ia à casa de pessoas de Ponta do Sol e de Povoação que faziam rosários para vender nas festas de Santo António e São João Baptista. Depois tive uma experiência na casa de uma vizinha que tinha um forno de lenha que era utilizado para assar o pão. E lá inventei de confecionar o ‘rozer’, fizeram-me a massa e moldei os bolinhos. (…) Na altura era criança, mas comecei a ver essa experiência como um negócio. (risos) Quando fui viver no Porto Novo, uma vizinha da minha irmã tinha um forno de lenha e comecei a fazer o ‘rozer’ para vender”, conta e diz que durante vários anos assou os rosários no forno de lenha e há cerca de cinco anos comprou um forno a gás, que segundo diz é melhor.

Confeiteira de mão cheia, há vários anos Miminda usa a farinha para fazer iguarias tradicionais que têm conquistado o paladar dos portonovenses e não só. “Faço ‘rozer’, rosca (biscoito em forma de bonecos), bolo grande, bolo de mel, cuscuz, fongue. Faço tudo o que dá para fazer com a farinha”.

Durante 32 anos foi funcionária da ENAPOR, mas nos tempos livres dedicava-se ao negócio dos produtos que fabricava em casa e diz que foi assim que criou os cinco filhos.

“Trabalhava de dia para quando houvesse uma festa pudesse vender os meus produtos. Vendia ponche, pipoca e pastel. Depois da reforma continuei a fazer o ‘rozer’ em casa. Antigamente, conseguia amassar 10 kg de farinha sozinha, mas agora só consigo 5kg de cada vez porque falta-me força. Oitenta anos não são uma brincadeira”, diz com uma gargalhada.

Apesar da idade avançada, Miminda continua a colocar a mão na massa de forma a manter viva a tradição. “Apenas eu faço o ‘rozer’ no Porto Novo, mas há pessoas de outras localidades que vêm vender aqui.”, diz e revela que confecionar esta iguaria é um processo complicado, principalmente, para quem não tem experiência.

Por ser um processo que exige força braçal, a idosa atualmente conta com a ajuda da filha Lutcha Lima e de uma neta para o preparo da receita. “Ensino sempre a minha família. Digo-lhes que aprendi em casa de outras pessoas e quando chegava em casa era castigada. Não frequentei a escola porque antigamente as mulheres não estudavam, apenas os homens, mas vivo bem graças a Deus.”

Reprodução Facebook do Posto de Turismo do Porto Novo

“Rozer”, uma obrigação para Lutcha Lima

Lutcha Lima, de 52 anos, não partilha da mesma paixão da mãe e confessa que confeciona o “rozer” por “obrigação”.

“Para dizer a verdade, eu não gosto de confecionar o ‘rozer’. Tenho uma vida cheia. Sou funcionária da ENAPOR e artesã do ramo de reciclagem. (…) Desde que me entendo por gente que vejo a minha mãe a confecionar o ‘rozer’ e as roscas, principalmente. (…) Mas era algo que me passava despercebido e não tinha interesse em aprender. Num determinado momento, vi que a minha mãe estava a ficar um pouco fraca, com a idade avançada e vi que realmente não se tratava de uma questão de dinheiro, mas ela estava a ganhar um destaque em Cabo Verde e na Diáspora. Neste momento, eu assumi o controle da produção. (..) Não é algo que tenho vontade ou paixão, mas agora sinto-me na obrigação de representá-la e de não deixar morrer a tradição da minha mãe. Agora faço por obrigação”, confessa entre risos.

Por ser uma paixão de Miminda, Lutcha faz questão de a mãe participar na confeção da receita, visto que, “é algo que ela quer e ama fazer”. “No ano passado disse-lhe que tinha que compreender que não íamos fazer o ‘rozer’ porque ela estava fraca, mas depois mudei de ideia. A minha mãe ficou triste e cabisbaixa e pediu-me para ir para a casa da irmã na Ribeira Grande. (…) De imediato, entendi que lhe estava a retirar algo valioso, um direito. Depois disse à mãe para fazermos apenas 5 kg de farinha e ela ficou animada (risos)” ,conta e salienta que é uma forma de mantê-la ativa.

A família de Miminda faz “rozer” de massa, café em grão e mancarra. “Este ano não encontrei mancarra. (…) Nunca fiz de pipoca porque mancha a roupa”, diz a idosa.

De acordo com Miminda, o “rozer” de massa é feito com os mesmos ingredientes utilizados na confeção do pão: farinha, fermento, sal, óleo, açúcar e manteiga.

Depois de pronto, os bolos em formato pequeno são colocados numa linha e decorados com papel colorido. “Temos medidas para a linha para poder servir em todas as pessoas”, diz Lutcha.

Antes da pandemia e da guerra na Ucrânia o “rozer” de massa custava 100 escudos e de mancarra e café custavam 200 escudos. Este ano, o preço dos rosários varia dos 200 aos 350 escudos.

“Faço por encomenda e sinto bem em vender um pouco à porta da Câmara Municipal do Porto Novo. Recebo muitos beijos das crianças e abraços apertados dos adultos. Não há coisa mais deliciosa do que isso”, diz Miminda.

Na juventude, Miminda participou também nos concursos de coladeira no concelho do Porto Novo e chegou a representar o colá Son Jon na ilha do Fogo por três vezes. “Sei colar Son Jon verdadeiramente. É algo que gosto de fazer até agora”, diz com uma gargalhada animada.

Lutcha descreve a festa de São João Baptista com um “pique quemada” (algo quente, como dizem os santantoneses “Son Jon revoltiod”. “Não tem explicação. (…) É uma festa com duração de um mês. Começa influente no dia 1 de junho até pelo menos o dia 25 de julho. (…) Para mim é uma das melhores festas. Não é apenas uma festa, é um mês lucrativo. Por exemplo, nós (os artesãos) trabalhamos desesperadamente para a festa de São João Baptista.”

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