Mudar de vida por uma carreira na hotelaria

Estalino Monteiro e Marlene Duarte são dois cabo-verdianos que há cerca de 17 anos trocaram as respetivas ilhas por uma carreira no setor hoteleiro. Não imaginavam que depois de uma breve passagem pela ilha das Salinas, iriam viver para a Boa Vista, ilha que, juntamente com o Sal, lidera a nível nacional a procura turística de estrangeiros.

O percurso no setor hoteleiro destes dois cabo-verdianos começou com a chegada do grupo RIU ao país em 2005, com a inauguração do primeiro hotel RIU no Sal.
 Marlene Duarte, de 37 anos, começou a trabalhar nesse primeiro estabelecimento hoteleiro em 2005 como ajudante de receção.

Natural de São Vicente, Marlene tinha 21 anos na altura e havia terminado os estudos quando foi passar férias na ilha do Sal. Resolveu passar alguns meses para juntar dinheiro para seguir depois para a universidade, contudo o sonho de cursar Arquitetura ficou para trás porque acabou por abraçar a profissão de rececionista.

“Apercebi-me que sou perfeita para a receção, gosto muito de lidar com pessoas de todo o mundo. Não estou arrependida de não ter feito o meu curso”, diz a profissional.

Em 2008, foi para a Boa Vista para trabalhar no Riu Karamboa e por lá ficou até hoje. De segunda chefe, passou a responsável geral de receção, função que desempenha nos últimos nove anos. Segundo Marlene, a ambição é “ir mais além e aprender cada vez mais”.

“Quando comecei no RIU, já tinha terminado o 12º ano e já tinha a base de francês e inglês, mas no hotel vim aperfeiçoar a prática. Depois de 17 anos, já falo inglês, francês, italiano, alemão, espanhol e, claro, português”.

A profissional salienta que aprendeu a não ter receio de se expressar. “No início, quando não sabia falar bem outras línguas, fazia desenhos ou ia para o Google (risos)”.

Perguntamos-lhe como lidar com clientes mais difíceis. “Quando o cliente tem um problema, temos sempre de nos colocar no lugar do cliente e tentar fazer algo para resolver”, afirma com um sorriso.

Em 2018, foi para o recém-inaugurado RIU Palace, também na Boa Vista, mas com a reabertura do RIU Karamboa regressou para a receção. “Gosto muito dos meus clientes. Fazemos muitas amizades. Há clientes que vêm 3 a 4 vezes ao ano”.

Natural de Santo Antão, Estalino Monteiro começou aos 18 anos a trabalhar no RIU Funana (na altura Garopa), em 2006, através do contacto de um familiar. Começou como camareiro, foi promovido a chefe de setor e com o tempo evoluiu até chegar a segundo chefe e é atualmente Chef dos Bares.

Em 2008, um mês antes do Riu Karamboa abrir, Estalino mudou-se para a ilha da Boa Vista.

No início, recorda que foi difícil adaptar-se à ilha onde não conhecia quase ninguém. “Felizmente, tinha alguns amigos que já tinham estado cá e eles acolheram-me. Com o tempo fui-me familiarizando e hoje para mim a Boa Vista é uma segunda casa”, diz Estalino que não se esquece da ilha do Sal.

Para trás ficaram os tempos em que dividiu o apartamento com colegas, diz, pois há vários anos que mora em casa alugada. Estalino constituiu família na Boa Vista e diz que se sente como se fosse natural da ilha das Dunas. Mesmo assim faz questão de todos os anos durante o seu mês de férias ir para a ilha natal.

Apesar de ter estudado até o oitavo ano, Estalino explica que hoje fala espanhol (que aprendeu sozinho), mas também inglês, alemão e francês que aprendeu nas aulas no hotel. “(O hotel) RIU é uma escola”.

Questionado sobre o que faz um bom profissional, o barman diz que é preciso “fazer o seu trabalho com amor e carinho”. “Se for só pelo vencimento, nada dá certo. Tens de gostar do que fazes, se não, não dá certo”.

O principal desafio é ajudar a formar outras pessoas, segundo diz o funcionário que já perdeu a conta a quantas pessoas já “passaram pelas suas mãos”, mas com certeza mais de 50 profissionais.

A nível de planos futuros, Estalino quer continuar a formar pessoas e a trabalhar no espaço. “O RIU é uma empresa que não tem limites. Quando entrei, não havia chefs de setor cabo-verdianos. Hoje quase todos, se não todos, são cabo-verdianos. Não sabemos, o que o futuro dirá. O céu é o limite.”

Covid-19, primeiro caso diagnosticado no país era um hóspede do hotel

De recordar que o primeiro caso de covid-19 no país foi registado na ilha da Boa Vista. Foi um turista inglês que deu entrada no resort Riu Karamboa e após a suspeita de que o turista estaria infetado, o mesmo foi encaminhado para o hospital e o hotel foi colocado em quarentena. Pouco depois, toda a ilha ficava isolada até 4 de abril. Este paciente viria a ser também a primeira vítima mortal da covid-19 no país.

Estalino que ficou no hotel durante a pandemia recorda que foi difícil. “Graças a Deus, ninguém do hotel teve problemas graves. Eles (responsáveis do hotel) cuidaram de nós e não tivemos falta de nada, enquanto estivemos aqui fechados em quarentena”.

Esteve duas vezes de quarentena, uma das quais quando testou positivo para a covid-19, mas foi assintomático.

Já Marlene foi uma das funcionárias que não ficou no hotel porque estava grávida, em véspera de ter o bebé, mas pelos relatos dos colegas que lhe ligavam periodicamente recorda que foram dias desafiantes. “Víamos notícias de pessoas a morrer (…) havia colegas que ligavam a chorar. Tentava dar-lhes força, mas dentro de mim não tinha essa força. O covid-19 mexeu com a cabeça de todos. No hotel Riu Palace (onde estava na altura) não tivemos casos”.

Segundo Estalino a maioria dos funcionários regressou após a pandemia para os antigos postos de trabalho, mas alguns não retornaram por motivos pessoais. “Todos sabemos o que passamos, não só na Boa Vista e no RIU, mas no geral. A empresa nunca nos abandonou. É algo que é um orgulho para mim”.

“As pessoas que eram do quadro (tinham contrato) foram abrangidos pelo lay off, mas os outros tiveram de ir para casa. Felizmente a maioria voltou. Lá no Riu Palace, voltaram todos”, afirma a responsável da receção.

Maior empregador do ramo hoteleiro em Cabo Verde

Presentes em Cabo Verde há 17 anos, desde 2005, segundo a agência Lusa, a cadeia RIU é a maior empregadora do ramo hoteleiro em Cabo Verde. Dados do relatório de Cash Flow 2021 do grupo em Cabo Verde, apontam que o grupo conta atualmente com 2.839 colaboradores a nível nacional, divididos entre as ilhas de Sal e Boa Vista.

A esmagadora maioria 97% são cabo-verdianos e maioritariamente mulheres 56.2 %, sendo que 43.8% são homens.

O hotel RIU Karamboa corrobora esta estatística já que nível dos cerca de 420 funcionários, 95 por cento, são cabo-verdianos, mas há também senegaleses e guineenses, conforme explicou o diretor do hotel, Marco Rodrigues em entrevista ao Balai.

 

A jornalista do Balai Cabo Verde deslocou-se à Boa Vista a convite do grupo RIU.

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