Mulheres na Tecnologia: Engenheira Informática defende que feminilidade não deve ser vista como uma fraqueza na área

A Engenharia nunca foi um sonho da cabo-verdiana Any Keila Pereira, de 27 anos. Quando foi para a Escola Técnica, em Assomada, longe estava de imaginar que um dia iria ser bem-sucedida na área de Engenharia Informática e inclusive lançar um livro com base na sua tese de mestrado que expôs falhas nos sistemas de cibersegurança em Portugal.

Natural de Assomada, Any Keila estudou no Liceu Amílcar Cabral e no 10.º ano quando chegou a altura de escolher uma área teve dificuldades em decidir porque gostava tanto das Ciências Exatas como das Ciências Humanas. Chegou a ultrapassar o prazo de escolha da área e terminou os estudos na Escola Técnica Grão-Duque Henri.

“Escolhi Informática mas sem muita noção”, confessa. Na nova escola teve um professor que acabou por a influenciar ao apresentar-lhe os conceitos de programação e com os alunos mais interessados criaram um Clube de Informática. Aos poucos, a jovem começou a ganhar mais gosto pela área.

Ao terminar o 12.º ano conquistou uma bolsa de Mérito e foi estudar Engenharia Informática em Coimbra, Portugal. A mudança foi grande. “Para ser sincera, nos primeiros meses arrependi-me da minha escolha”, recorda que depois de ser recebida em Lisboa por uma tia, rumou a Coimbra onde não conhecia ninguém e o alojamento que conseguiu era muito longe da faculdade.

“Chorava todos os dias. Tinha 17 anos, nunca tinha saído do país, nunca tinha ido sequer à cidade da Praia sozinha. Não tinha nenhum tipo de maturidade nem experiência de viver sozinha”.

A nível académico também não foi fácil. Na licenciatura a maioria dos alunos eram rapazes e na sua turma era a única aluna negra. “Não havia esse factor de identificação nem culturalmente, nem na cor, nem na língua”.

No primeiro semestre lá conseguiu fazer duas disciplinas, Matemática e Álgebra. “Imaginem o impacto numa pessoa que sempre teve boas notas e veio com uma bolsa de mérito! Nunca tinha passado por este processo de frustração”, admite. Por outro lado, todo este processo foi útil para o seu amadurecimento.

Mudou-se para a comunidade de estudantes cabo-verdianos e entendeu que não estava sozinha na sua frustração. Sentiu-se mais integrada e aos poucos, fez amigos e adquiriu técnicas de estudo como universitária e compreendeu as dinâmicas da universidade. Com o tempo, conseguiu ir fazendo as disciplinas que deixou para trás no primeiro trimestre e terminou no tempo expectável.

Interesse pela área de cibersegurança e publicação do primeiro livro

Depois de assimilar a metodologia de estudo, Any Keila, incentivada por um professor, chegou a publicar os seus primeiros artigos científicos, um dos quais foi escolhido como o melhor “Position Paper Call” durante uma conferência de software, na cidade do Porto. Este marco acabou por lhe trazer mais confiança para seguir em frente e abrir outras portas.

Fez um Mestrado focado na área de Data Science, com enfoque na cibersegurança, na mesma universidade. O trabalho final acabou por resultar no seu primeiro livro “Resiliency to cyber-attacks in Critical Infrastructures of Portugal” que já foi apresentado tanto em Portugal como em Cabo Verde, no início deste ano.

Em 2022, a sua tese de mestrado venceu o Cabo Verde Prize for Girls and Women in ICT (PGW) – destinado a trabalhos de mestrado ou doutoramento de meninas e mulheres nas TIC, foi justamente este prémio que lhe permitiu publicar a tese em livro.

Questionada sobre como surgiu o interesse pela área de cibersegurança, Any Keila diz que queria fazer algo diferente do que estava habituada e que era uma área que ainda não tinha abordado dentro da academia. “Era um extra que não tive na faculdade e onde me poderia especializar. Foi bastante desafiador”, confessa.

O principal desafio prende-se com o contexto ético, porque tinha de interagir com os sistemas de outras organizações que é “algo semelhante ao que os hackers fazem”. Por isso teve de fazer monitoramento das empresas e dos seus sistemas através de uma empresa parceira da universidade.

“O trabalho consistiu no levantamento de sistemas que eram críticos para o funcionamento de Portugal, como aeroportos, bancos, infraestruturas mais sensíveis que caso fossem abaixo punham em causa a vivência do país (…)”, recorda e explica que a ideia inicial era que a maioria destas instituições tinham algum nível de proteção mas os resultados da investigação foram diversos.

“Ficamos escandalizados com a quantidade e com a sensibilidade de informações que encontramos. Havia sistemas que estavam protegidos mas os sistemas de proteção eram desatualizados”, exemplifica e acrescenta que encontraram várias vulnerabilidades.

Depois Any Keila desenvolveu uma tabela de classificação destes sistemas consoante o nível de riscos e concluiu que vários dos sistemas eram inseguros e outros não tinham qualquer tipo de proteção associada e os que tinham a maioria estava desatualizada, o que é pior, dentro do conceito de cibersegurança, conforme explica. “Para um hacker isso chama ainda mais a atenção, porque houve uma preocupação inicial em proteger o sistema, quer dizer que é algo importante”.

A segunda parte do trabalho foi a apresentação dos dados recolhidos através da empresa parceira, para as instituições analisadas. Segundo Any Keila, houve diferentes reações: algumas empresas mostraram-se interessadas mas outras mostraram pouca preocupação sendo que uma das empresas que não ligou às sugestões de melhoria pouco tempo depois foi atacada, o que ironicamente acabou por credibilizar o estudo.

Ambição de implementar o estudo sobre cibersegurança em Cabo Verde

Quanto à possibilidade de implementar este estudo em Cabo Verde, a jovem diz que esta foi uma das suas principais preocupações ao lançar o livro no país. “É um trabalho feito nos sistemas em Portugal, mas que foi feito em inglês, porque a metodologia e a fórmula de risco que aplicamos pode ser aplicada a qualquer país. A ideia foi mesmo essa tentar procurar algum financiamento e algum interesse de instituições para desenvolver o mesmo trabalho nos sistemas de Cabo Verde”.

Explica que o trabalho maior já está feito, ou seja, a metodologia e a fórmula de cálculo de risco, falta fazer o levantamento e aplicar a metodologia na prática em Cabo Verde. “Com todo gosto, é algo que quero fazer em Cabo Verde não só para dar continuidade a este trabalho que já ganhou alguns prémios, mas também pela curiosidade de saber como os sistemas de Cabo Verde estão. Acho que seria um trabalho com o qual o país sairia a ganhar bastante”.

Reconhece que Cabo Verde quer ser um hub tecnológico na sua região africana e tem todas as condições para tal, inclusive a nível do fuso horário que é ideal para empresas e para nómadas digitais, por exemplo, e que a questão da cibersegurança poderia ser uma mais-valia para promover Cabo Verde como um hub digital, além do clima, velocidade de internet, por exemplo. E argumenta que um estudo desta natureza poderia credibilizar esses dados.

Any Keila adianta que o feedback das autoridades cabo-verdianas foi positivo tendo demonstrado interesse no estudo mas que não houve ainda avanços concretos para a realização do estudo no país, afirma e diz aguardar novidades.

Durante uma visita à Escola Técnica, em Assomada | Foto @Reprodução Redes Sociais

Sem se deixar intimidar pelo mundo masculino

Se quando Any Keila Pereira começou a estudar Engenharia Informática em Portugal, eram apenas três raparigas no seu curso, atualmente diz que, mesmo em Cabo Verde, em qualquer licenciatura de Informática é possível encontrar mulheres.

Não precisamos tentar ser homens, podemos ser boas engenheiras como mulheres, sem reduzir a nossa feminilidade para prosperar e, sim, podemos como mulheres prosperar na tecnologia.

Reconhece que no mercado de trabalho o número de mulheres ainda é inferior, bem como no recrutamento, mas diz que o interesse das raparigas por esta área tem sido crescente e o trabalho tem sido feito com excelência, não só na Engenharia Informática, mas nas Engenharias no geral. “É algo bom, tomara que se torne uma tendência e que o mercado de trabalho reflita isso, já que ainda é dominado por homens”.

A trabalhar remotamente no desenvolvimento de software para empresas privadas, Any Keila pretende continuar a viver entre Cabo Verde e Portugal, contudo a longo prazo vê-se a morar em Cabo Verde, apesar de reconhecer que trabalhar em Portugal permite-lhe adquirir mais bagagem e conhecimento.

A engenheira reconhece que fazer um livro técnico ou um estudo científico exigiu muita energia e agora precisa recuperar e tão cedo não se vê a fazer um novo trabalho do género, a não ser que seja por Cabo Verde. “Se não for para fazer para Cabo Verde, vou dar uma pausa. Futuramente gostaria de fazer um follow up, replicar o estudo ou fazer uma cronologia ou analisar uma evolução, mas para já vou dar uma pausa”.

A engenheira apela às meninas para que não desistam de lutar pelos seus sonhos. “A diferença entre quem vocês hoje veem como uma referência e quem ainda não chegou lá é porque a primeira pessoa não desistiu mesmo com as dificuldades e elas existem sempre”, diz e cita o seu próprio exemplo que não desistiu perante as adversidades onde contou também com o apoio dos pais. 

Any Keila com a família durante a apresentação do livro na cidade da Praia | Foto @Reprodução Redes Sociais

“O importante é acreditar. Às vezes estamos numa bolha de escuridão e não acreditamos que haja luz, mas a luz está lá. Se acreditarmos e levarmos um dia de cada vez sem a pressa de conseguir tudo de uma vez, conseguimos.” 

Por outro lado, Any Keila pede às raparigas que “não se deixem intimidar pelo mundo masculino e que a feminilidade pode ser uma vantagem dentro do mundo da tecnologia”, até porque as mulheres têm uma sensibilidade em perceber as coisas e “o utilizador final de qualquer coisa que se está a desenvolver é também uma mulher”. 

“Não precisamos tentar ser homens, podemos ser boas engenheiras como mulheres, sem reduzir a nossa feminilidade para prosperar e, sim, podemos como mulheres prosperar na tecnologia”, conclui.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest