“O VIH não mata, o que mata é o medo de procurar ajuda para tratar o vírus no tempo certo”, diz ativista e portadora de VIH

Leila Rodrigues é uma ativista social e educadora de pares que encara o VIH como uma oportunidade para um recomeço de vida.

Natural da cidade da Praia, Leila Rodrigues descobriu que era portadora de VIH/Sida há quase uma década. Em entrevista ao Balai, a jovem de 33 anos, que gosta de ser apelidada de Leila Guerreira, conta como o VIH mudou a sua vida. “Transformei o vírus numa oportunidade”.

Leila tinha 24 anos quando recebeu a notícia que era portadora do VIH/SIDA. Estava numa consulta de pré-natal do seu segundo filho, já perto da data do parto. “Fui ao hospital para realizar alguns exames porque faltavam apenas duas semanas para ter o bebé e foi aí que recebi a notícia mais trágica da minha vida, naquele momento.”

A jovem recorda que perdeu o chão por algum tempo e ficou a questionar o porquê de estar infetada, até considerava que já tinha passado por bastante adversidades. “Eu não entendia e perguntava o porquê de terem aparecido mais nuvens negras na minha vida. Demorei 6 meses para me erguer.”

Leila recorda que apesar de já ter sido vítima de abuso sexual, esta experiência  traumática não a destruiu tanto como foi receber a noticia sobre o diagnóstico do VIH. “Em 2011 fui vítima de abuso sexual e isso voltou a repetir-se em 2013. A sensação que eu tinha é que todos que se aproximavam de mim queriam abusar de mim.”

Questionada sobre que informações tinha sobre o vírus na época, Leila diz que só acreditava que o VIH era letal e que isso era o maior motivo do seu desespero.

Segundo Leila, logo após receber a notícia do vírus ficou no hospital e começou a fazer o tratamento e a ser acompanhada pelos médicos de modo a que o bebé não contraísse o vírus durante o parto.

“Logo quando o vírus foi detectado fiquei internada e comecei a tomar os antirretrovirais”, recorda e explica que na altura “passavam mil coisas na sua mente, afinal tinha apenas 24 anos.”

A jovem diz que na época recebeu todo apoio por parte da sua família e amigos, mesmo estando destruída por dentro, afirma que foi acolhida por todos ao seu redor. “A única coisa que eu fazia era ficar em casa, ouvir louvor, chorar e questionar porquê.”

Relata que depois de tanto sofrimento chegou o dia em que decidiu que não ia sofrer mais por causa do vírus. “Disse a mim mesma: Chega! Vou levantar-me e seguir a minha vida. Há quem esteja a passar por coisas piores.”

A partir daquele momento, Leila converteu-se na Igreja do Nazareno e deu um outro rumo à sua vida, um recomeço que avalia como mágico. “Desde aquele dia, a minha vida mudou. Comecei a encarar o vírus de outra forma, não como uma doença, mas como uma oportunidade de dar um novo começo na minha vida.”

A jovem acabou por se tornar uma ativista e um dos rostos da causa depois de ter decidido começar a promover palestras, falar sobre o vírus e a participar em eventos sobre o VIH, tudo para tentar dar o seu contributo à causa que considera ser sua e de todos os que possuem o vírus.

“A minha cura foram as palestras, as conversas motivacionais, e, principalmente, conviver com as pessoas portadoras do vírus.”

“Falar sobre o VIH apenas em dezembro não ajuda a ninguém”

A ativista acredita que o VIH é um termo ainda pouco conhecido por muitos em Cabo Verde e pouco falado. “Falar sobre o VIH apenas no mês de dezembro não ajuda a ninguém, digo isso porque acho que há pouca informação.”

Para Leila, os hospitais e as escolas deveriam dar as mãos e caminhar juntos pela causa para fornecer informações aos adolescentes, principalmente, sobre as formas de prevenção, e não só, também auxiliar os que já têm o VIH.

“Não quero ver mais pessoas a contrair o vírus por causa da falta de informação. Todos devemos abraçar a causa que é um problema social desconhecido por vários.”

Conta que hoje em dia promove palestras nas escolas, associações e é educadora de pares, trabalha em uma rede de pessoas que têm o VIH/SIDA, onde dá auxílio e contribui para os que precisam. “O VIH não mata, o que mata é o medo de procurar ajuda para tratar o vírus no tempo certo”, afirma.

“Eu sou uma mulher linda, forte e determinada em ultrapassar todos os desafios da vida. O VIH nunca irá me derrubar” conclui.

Leinira Furtado/ Estagiária

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