Afrosondagem: 65 % dos cabo-verdianos consideram que Cabo Verde está na direção errada

Afrosondagem: 65 % dos cabo-verdianos consideram que Cabo Verde está na direção errada

Os dados são de um estudo da Afrosondagem sobre a qualidade da democracia e a governação em Cabo Verde que acrescenta ainda que 75% da população considera que a situação económica é má ou muito má.

Apesar dos cabo-verdianos acreditarem que a democracia é o sistema político que melhor serve o país, mais de metade considera que Cabo Verde está na direção errada e 75 % mostram-se insatisfeitos com a governação. Os dados são de um inquérito realizado pela Afrosondagem sobre a democracia e governação em Cabo Verde apresentado na manhã desta terça-feira, 28, na cidade da Praia.

O estudo, que foi realizado nas ilhas de Santo Antão, São Vicente, Fogo e Santiago, o que representa 96% da população adulta cabo-verdiana, revela ainda que um terço da população continua em situação de pobreza e 54% dizem que a situação económica é má ou muito má.

 De acordo o economista e professor universitário, António Baptista, os dados apresentados pela Afrosondagem “trazem uma certa preocupação, tendo em conta que a democracia não é o fim, a democracia é um meio para melhorar a qualidade de vida dos cabo-verdianos, para gerar a tal prosperidade que o governo prometeu.”

“A minha preocupação vai nesse sentido de que a partir do momento que a população não está satisfeita com a sua condição económica, vai viver no curto prazo, vai adiar consumos, vai querer emigrar, as empresas vão postergar investimentos, sem investimentos não teremos emprego, sem emprego teremos todos os problemas sociais que o país já enfrenta”, diz, acrescentando que “é um grande desafio para a governação alterar esse estado de espírito dos cabo-verdianos”.

Por seu turno, o diretor-geral da Afrosondagem, José Semedo, frisou que 84% da população considera que os políticos pouco ou nada fazem para ouvir o que os cabo-verdianos têm para dizer. “Para mim, essa é uma questão de fundo, tem que ser analisada, porque quando nós falamos de crise da democracia, não é apenas cabo-verdiana, é uma tendência mundial, nós temos que olhar quais são os instrumentos que nós temos a nossa disposição para debelar os possíveis pontos fracos dentro da nossa democracia”.

José Semedo acredita que a abstenção nas eleições é um sinal de insatisfação da população e que a classe política deve analisar.

A mesma fonte avança ainda que os políticos não estão a levar muito em consideração os dados divulgados pela Afrosondagem e por isso os resultados estão cada vez mais à vista.

 “Ainda que acreditem no sistema político, os cabo-verdianos não acreditam nos políticos que temos. E não há alternativa. Portanto, seja num partido ou no outro, os cabo-verdianos ainda continuam a falar mal do funcionamento da democracia. Chegou o momento, acredito, de todos, não só os políticos, porque também nós elegemos os políticos, de ver a melhor forma de fazer política em Cabo Verde,” diz, acrescentando que os cabo-verdianos precisam sentir que os políticos podem realizar alternativas credíveis, particularmente para os jovens, para que a maioria dos jovens não pense em emigrar.

O estudo da Afrosondagem analisou ainda o papel das Forças Armadas, visto que, Cabo Verde está inserido numa sub-região onde há cada vez mais uma vaga de regimes militares. Cerca de 56 % dos cabo-verdianos consideram legítimo as Forças Armadas assumirem o controlo do governo quando os líderes eleitos abusam do poder para os seus próprios fins. Já 36 % considera que as Forças Armadas nunca devem interferir no processo político do país.

Presente na apresentação, o analista político António Ludgero Correia mostrou-se preocupado com os dados apresentados e defende que é preciso apostar na educação para que as pessoas entendam que as Forças Armadas devem ser republicanas, isto é, deve-se obter voluntariamente os poderes construídos constitucionalmente.

De recordar que esta é a terceira apresentação pública dos dados sobre a qualidade da democracia e da governação em Cabo Verde.

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Por Aline Oliveira

Jornalista e editora de conteúdos do portal Balai Cabo Verde. Contacto: aline.oliveira@balai.cv