AJOC acusa Ministério Público de desrespeitar liberdade de imprensa

O presidente da Associação Sindical dos Jornalistas (AJOC), Geremias Furtado acusou hoje o Ministério Público do arquipélago de desrespeitar a liberdade de imprensa, após mandar apurar indícios de crimes pela divulgação de notícias por um portal.

“O Ministério Público, em vez de fortalecer a democracia, insiste em miná-la com perseguições seletivas e um preocupante desrespeito pela liberdade de imprensa”, referiu Geremias Furtado à Lusa.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) cabo-verdiana mandou apurar indícios de violação de segredo de justiça contra desconhecidos e de desobediência qualificada contra o portal de notícias Santiago Magazine.

Em causa, está um processo que envolve o ex-ministro do Turismo e Transportes, Carlos Santos, por suspeitas de lavagem de capitais, e notícias “que tornaram públicos pormenores do processo, ainda em investigação, relativos a atos processuais cobertos pelo segredo de justiça, incluindo fotografias do auto de constituição de arguido a que o jornal teve acesso”, anunciou a PGR, em comunicado.

“O Ministério Público deveria saber que ninguém viola segredos que desconhece: só se pode quebrar um segredo quando, de facto, se tem acesso a ele”, referiu o presidente da AJOC.

Segundo aquele responsável, “se há fugas de informação, que a Justiça investigue onde e por quem foram feitas, em vez de tentar silenciar o jornalismo”.

“A Justiça que guarde os seus segredos e o jornalista que faça o seu trabalho”, acrescentou.

Geremias Furtado questionou o papel do Procurador-Geral da República, referindo que “parece mais interessado em mostrar serviço do que em garantir a equidade da Justiça”.

“Há inúmeros outros casos em que o procedimento é o mesmo, mas, curiosamente, nunca vemos o PGR a levantar a bandeira da violação do segredo de justiça”, concluiu.

Há seis dias, após a notícia ter sido divulgada pelo portal Santiago Magazine, Carlos Santos confirmou, numa declaração sem direito a perguntas, que colocou o cargo ministerial à disposição por ter sido constituído arguido num processo – e explicou que o mesmo diz respeito a factos anterior à sua entrada no Governo.

Hermínio Silves, jornalista e diretor do Santiago Magazine, reagiu no portal à abertura de instrução, hoje anunciada pela PGR, considerando a posição do Ministério Público “descabida e desacertada” porque o próprio arguido convidou os jornalistas para falar sobre o processo.

“O objetivo da PGR é tentar descortinar quem foi a fonte do Santiago Magazine”, proteger o ex-membro do Governo e “intimidar toda a imprensa cabo-verdiana”, argumentou.

Ainda segundo Hermínio Silves, o código de processo penal cabo-verdiano iliba os jornalistas do delito de violação do segredo de justiça, tornando inverosímeis suspeitas por desobediência qualificada.

Lusa

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest