Cabo Verde e Açores: Município de Vila do Porto homenageia pioneiros da comunidade cabo-verdiana que ligou Sal a Santa Maria em 1975

As ilhas de Santa Maria (Açores) e do Sal (Cabo Verde) reforçaram, nesta segunda-feira, os laços históricos de amizade e cooperação, numa homenagem à comunidade cabo-verdiana que, há meio século, protagonizou a histórica ponte aérea de 1975.

O acto integrou-se no programa das celebrações “Homenagens 50 anos Cabo Verde – Tempo de Reencontros”.

Esta iniciativa assume um “significado profundo” ao evocar a memória de todos os que foram tocados por este processo histórico: os que partiram de Cabo Verde em busca de novas oportunidades, os que ficaram nas ilhas a construir a nova nação e os que regressaram ao arquipélago após a independência.

O evento, decorrido em Vila do Porto, serviu especificamente para condecorar as famílias que deixaram a ilha do Sal, nas vésperas da independência, para se fixarem em solo açoriano.

Em representação do município do Sal, o vereador Jucelino Cardoso enalteceu a iniciativa da autarquia açoriana e expressou a sua “profunda gratidão” pelo acolhimento, classificando os migrantes de 1975 como os “primeiros embaixadores” de Cabo Verde na linha do Atlântico.

“Partiram da nossa querida ilha do Sal rumo a uma outra ilha, no Atlântico, com o nome também da nossa cidade de Santa Maria. Venho aqui enaltecer a resiliência do povo das ilhas. A partida sempre causa dor e saudade, mas trouxe também um pedaço do Sal para Santa Maria”, sublinhou Jucelino Cardoso.

Por seu turno, a presidente da Câmara Municipal de Vila do Porto, Bárbara Chaves, recordou o espírito de sacrifício e a coragem daqueles que, “de mãos vazias, mas cheios de esperança”, abraçaram os Açores como um novo lar, contribuindo de forma activa para o desenvolvimento social e económico da ilha.

A autarca destacou a presença do senhor João Rodrigues, o único chefe-de-família sobrevivente dessa primeira vaga de migração. João Rodrigues, que era funcionário no Aeroporto do Sal, fixou-se em Santa Maria para trabalhar na central eléctrica do aeroporto local, levando consigo os filhos e a perspectiva de um futuro promissor.

Na sua alocução, Bárbara Chaves evocou ainda a memória dos já falecidos Nicolau Cruz, António Silva e Nicolau Ramos, cujos descendentes encontram-se hoje “plenamente integrados” na sociedade mariense, desempenhando funções em associações locais e em diversas actividades profissionais.

Para além da vertente migratória, a missão oficial serviu para identificar áreas de cooperação mútua.

O vereador Jocelino Cardoso lembrou que a partilha entre as duas ilhas também se fez no sentido inverso, evocando o exemplo de António de Sousa, um cidadão natural de Santa Maria que se radicou na Vila de Palmeira (Sal) e ali introduziu modernas técnicas açorianas de navegação e de pesca de alto mar (atum e lagosta).

Jocelino Cardoso sublinhou a urgência de o Sal “investir na agricultura e diversificar a sua economia”, de forma a mitigar a dependência exclusiva do turismo, uma fragilidade evidenciada durante a crise da covid-19.

A agenda da comitiva incluiu visitas a organizações de produtores locais, às estações espaciais e às infra-estruturas da NAV Portugal.

Ao nível técnico, os territórios encontram-se ligados pela gestão dos corredores aéreos oceânicos.

A Biblioteca Municipal acolhe hoje uma conferência técnica com a NAV Portugal e a ASA (Aeroportos e Segurança Aérea de Cabo Verde) para desenhar cooperação no controlo de tráfego aéreo.

Em breve, uma equipa coordenada pelo jornalista, investigador científico e coordenador do programa, Ildo Fortes, realizará um documentário focado na trajectória da família de João Rodrigues, imortalizando este meio século de cumplicidade transatlântica.

Inforpress

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest