Carlos Santos, Sheilla Ribeiro e Eloisa Rodrigues são os vencedores do PNJ em 2023

Ao todo concorreram ao Prémio Nacional de Jornalismo 40 trabalhos, sendo 18 da imprensa escrita, 13 da televisão e 9 da rádio.

Os jornalistas Carlos Santos (RCV), Sheilla Ribeiro (Expresso das Ilhas) e Eloisa Rodrigues (Record TV Cabo Verde) são os vencedores do Prémio Nacional de Jornalismo em 2023. Os vencedores foram conhecidos na segunda edição da Gala Liberdade de Imprensa realizada na noite desta quarta-feira, 03, na Assembleia Nacional.

Carlos Santos venceu na categoria Rádio com a reportagem “Jornalismo sob pressão da justiça”.  Esta é a segunda vez que o jornalista da RCV que também é correspondente da RTP África arrecada o troféu nesta categoria. A primeira vez foi em 2015 com uma reportagem sobre o alcoolismo em Cabo Verde.

Em declarações ao Balai, o jornalista afirmou que o prémio é um reconhecimento pelo trabalho feito sobre “um tema que é uma preocupação neste momento a nível global não apenas em Cabo Verde”. “Esta reportagem visa precisamente relançar o debate sobre a liberdade de imprensa que não é um dado adquirido ou uma coisa para eternidade e tem que ser naturalmente cultivada e preservada diariamente com o trabalho dos jornalistas e, obviamente, com a intervenção da sociedade civil”.

Carlos Santos recorda que fez esta reportagem no momento em que há colegas que estão abraços com a justiça por terem pegado num caso que já estava completamente  esquecido (desde 2014). ” … bastou os jornalistas pegarem nisso para naturalmente sofrerem as consequências, a mão pesada da justiça. Foram constituídos arguidos, neste momento estão completamente amordaçados, silenciados, porque não podem trabalhar ou trazer mais nenhum elemento em relação ao caso. Portanto essa reportagem espelha isso e relança o debate para a sociedade cabo-verdiana”.

Mais jornalismo de investigação e jornalistas especializados

Ao receber o prémio, o antigo presidente da AJOC lançou o repto para que haja em Cabo Verde mais jornalismo de investigação, bem como jornalismo especializado. E neste quesito, o jornalista reconhece que os profissionais de comunicação social também devem fazer mea culpa porque não têm feito a devida pressão dentro dos respetivos órgãos de comunicação social para que sejam de facto organizados.

Falando da realidade num órgão público de comunicação social, o jornalista reconhece que do lado da entidade patronal “não tem havido esse interesse em investir no reforço das capacidades e da qualificação técnico profissional dos jornalistas”. “Desde que entrei e comecei a dar os primeiros passos oiço falar em reportagens de investigação, em jornalismo especializado, que íamos ter editorias especializadas e a verdade é que não se organizou nesse sentido. Basta ver que o jornalista quando quer fazer uma pós-graduação ou quer fazer alguma especialização tem problemas para conseguir uma licença sem vencimento”, diz e acrescenta que as licenças passaram a ser de apenas três meses.

E nos órgãos privados, com o mercado publicitário pequeno, a situação financeira acaba por ser difícil, explica. “Fica difícil termos jornalistas especializados. Os cabo-verdianos estão a reclamar e a exigir de nós isso mesmo (…) acabamos sempre por tratar as coisas pela rama porque não temos conhecimentos profundos e não nos dedicámos com profundidade às matérias. Mesmo ao nível da organização das redações, ainda que esse jornalista não tenha competência específicas (…), mas se a redação for organizada e ao jornalista é lhe atribuída apenas, ou na maior parte das vezes, esse tema, ele vai-se esforçando e vai começando a fazer um investimento na formação. Mas, infelizmente, não é assim. Nós somos pau para toda a obra e estamos a cobrir de tudo um pouco. No fundo estamos a dar aos ouvintes, telespectadores e leitores aquilo que é uma rama, uma espuma das coisas do dia a dia.”

O vencedor do PNJ salienta que “não há jornalismo de investigação sem meios financeiros“, já que “há despesas que o jornalista tem que fazer e os meios de comunicação social que não têm essa possibilidade”. “Ultimamente acho que estamos a regredir porque uma vez até saíamos e fazíamos reportagens noutras ilhas, que é uma coisa que hoje praticamente não existe. Nós saímos para cobrir o Presidente da República ou o primeiro-ministro às expensas deles (…) que acabam por cobrir boa parte ou, se calhar, a totalidade das despesas. Quer dizer isto até condiciona digamos o raio de cobertura e a esfera de atuação do próprio jornalista”.

Questionado sobre o que faz um bom jornalista de rádio, o profissional acredita que “é sobretudo a sensibilidade” e que um jornalista de rádio “é alguém que tem a sensibilidade que consegue aprender quais são os anseios e sonhos e que fala para as pessoas com empatia”.

Ainda na mesma categoria, o júri atribuiu uma Menção Honrosa à jornalista Ariana Vaz, mais conhecida por Nany Vaz, da RCV, que participou com o tema sobre a origem do Mercado do Plateau. Em 2021, a jornalista da RCV ganhou uma Menção Honrosa com a reportagem “Saxofonista Totinho”. “Para mim foi um prazer receber este prémio. Receber mais um prémio quer dizer que estou a fazer um bom trabalho.”

A jornalista do Expresso das Ilhas Sheilla Ribeiro venceu o PNJ na categoria Imprensa Escrita com a reportagem “Estudar fora ou pretexto para emigração? A questão de um fenómeno a esclarecer”. No final, a profissional confessou ao Balai que não estava à espera de receber a distinção, mas que sabia que a reportagem tinha potencial quando começou a escrever. “Não estava à espera que ganhasse porque na imprensa temos muitos bons jornalistas com muitos mais anos de carreira, eu tenho apenas quatro anos de jornalismo”.

Na sua estreia enquanto premiada nos PNJ, Sheila Ribeira diz ainda que o prémio serve de incentivo para escrever sobre temas do género. Segundo a jornalista, a reportagem vencedora fala “sobre jovens que vão estudar no estrangeiro e como as suas famílias em Cabo Verde têm muitas dificuldades financeiras, a escola acaba por ficar em segundo plano, porque eles têm de ir trabalhar para se sustentar”. A peça fala ainda sobre estudantes que não vão para fora com a intenção de estudar, mas sim usam os estudos como um pretexto para sair de Cabo Verde à procura de melhores condições de vida.

“A intenção da reportagem não é dificultar a saída de pessoas de Cabo Verde, mas sim mostrar aos nossos governantes o que está errado e o que pode estar a levar os jovens a sair de Cabo Verde“, esclarece e explica que a reportagem traz igualmente a opinião de especialistas sobre o que esta fuga de jovens quadros representa para o país.

A Menção Honrosa nesta categoria foi para a jornalista Romice Monteiro do A Nação que concorreu com a reportagem “Há fome em Cabo Verde e a culpa não é só da covid”. No seu discurso, Romice agradeceu à colega Lousiene Lima que colaborou na elaboração deste artigo.

O troféu na categoria Televisão foi para Eloisa Rodrigues, jornalista da Record TV Cabo Verde que concorreu com a reportagem “Praia fustigada com onda de criminalidade”. Já a Menção Honrosa foi para a Edneia Barros também da Record TV Cabo Verde com a reportagem “Como ficam os filhos em caso de Feminicídio?”.

Ao todo concorreram 40 trabalhos, dos quais 18 da imprensa escrita, 13 da televisão e 9 da rádio. Segundo a presidente da Comissão do júri do PNJ, Maria Jesus Barros, é a primeira vez que o PNJ foi tão concorrido, tendo registado uma melhoria na qualidade dos trabalhos apresentados.

A segunda edição da Gala Liberdade de Imprensa contou com animação dos artistas Arnestina Lopes, Manuel de Candinho, Ló de Pina, Luna Cruz, Mindela Soares, George Tavares, Rui de Pina e Zul Alves.

A gala foi transmitida em direto na TVA – Televisão África e através do canal da MEO na internet.

AO e CM

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