1,2,3… Outro Plano… Ação

Foto Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas

1,2,3… Outro Plano… Ação

Uma crónica de Vandrea Monteiro.
Foto Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas

Saí do concerto da Mayra Andrade perdida numa tristeza e desânimo. Mal entrei em casa, enviei uma mensagem à minha amiga Mara, perdida em lágrimas e numa dor que me sufocava a voz. Durante largos minutos de conversa, tentamos perceber como um espetáculo tão belo, genuíno e mágico podia despertar tamanha tristeza em alguém.

Pouquíssimos dias depois, recebi a chamada de uma pessoa querida: “Jacky, encontraram um corpo no mar e suspeitam ser do Álvaro”. Confirmou-se.

Em 2020 e 2021, subi ao palco com a peça de teatro Chiquinho. O Álvaro, o nosso eterno Chiquinho, segurou durante 1 hora, um espetáculo que nos permitia dançar entre várias personagens. Ele nunca saía da cena. Nuninha e Chiquinho ficaram na boca e no coração do público. Eu e o meu Álvaro. 3 anos depois, preparava o meu regresso ao lado do Álvaro. “Escuridão bonita” juntar-nos-ia neste mês de abril; nem imaginam como isto me aconchegava docemente o peito.

Sempre amei ter o Álvaro ao meu lado nos textos, na interpretação, na nossa conexão. Interrompeu-se uma fita.. Fumaça. O Álvaro entregou-se ao mar… e este respeitou a sua vontade.

Após o reconhecimento do corpo, outrora matéria de uma bela e apaixonante alma, entreguei-me ao chão, sufoquei o grito, enchi-me de forças e prometi a mim mesma garantir um enterro digno a alguém que tanto amei como colega e artista. Reconhecimento. Respeito. Merecimento. 1,2,3… Outro Plano… Ação!

Sabem, não me lembro de ter visto alguma vez o meu Álvaro chorar, apesar da dor profunda que comia a sua alma e devorava o seu corpo. Sim, ele desabafou-nos vezes sem conta, tantas vezes, até em silêncio, a vontade de ir embora. Tentámos o mundo por ele. Elogios, psicólogo, abraços, beijos, trabalhos e muitos elogios…

Conheço o Álvaro há cerca de 17 anos e só em 2018 a sua depressão ganhou cor e cheiro intensos. Para nós. Para nós. A partir daí, a sua dor mais profunda chegou-nos aos olhos, aos ouvidos e à alma. O Álvaro sofreu toda uma vida, numa era em que a tristeza do pobre era, naturalmente, resumida à fome ou “briu di korpu”. Na maioria das vezes, apenas por “briu di korpu”.

Foram anos de dor mastigada. Sufocada. Engolida. Quando tentámos curar a alma do Álvaro, o câncer depressivo já se havia alastrado pelo seu corpo todo e devorado a sua conexão com a terra, com o divino. Sempre sorridente, olhos de sol. Nunca dizia não a ninguém e acalentava, numa disponibilidade única, sempre, a tristeza do outro.

Respeito a decisão do meu amigo. Ele sabia ser mais feliz além.

Mas sabem de uma coisa? Tenho percebido que quando a depressão do outro nos chega, já comeu todo o seu corpo e lambuzada a sua alma. Andámos a correr tanto! Como se o mundo dependesse apenas da nossa força. Pressão excessiva à minha geração. Pouco apoio da geração que nos devia segurar a mão e apoiar nos desafios… Não nos têm permitido chorar, lamentar. Gritar. O meu povo lutou tanto pela sua sobrevivência que se reservou à sua dor. Lutar, lutar, lutar sempre. “N guli-m es txoru”.

Convido-vos a permitirem-se assumir e desabafar as dores e fragilidades. Não precisamos de estar sempre bem. E está tudo bem. Precisamos aprender a aceitar e a abraçar o choro do outro. Assim como o sorriso, o choro também pode ser belo. Quando o choro é acolhido, metamorfoseia-se em sorriso, tal e qual o sol após a chuva. A natureza ensina-nos o mundo.

Por agora, permitam-me chorar o Álvaro. Por agora, permitam-me chorar o Gullander. Por agora, permitam-me chorar o Sandro. Estou em luto. Preciso de chorar… e o meu choro é tão belo quanto o meu sorriso. Estou muito triste… e está tudo bem.

 

Este texto foi originalmente publicado pela autora a 20 de junho de 2022 nas redes sociais.

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Vandrea Monteiro

Vandrea Monteiro

"Sou a Jacky lá de casa e a primeira barriga da minha mãe.
Quase nada frequentei o pré-escolar, mas as letras misturaram-se aos desenhos ainda cedo para mim. Rabisquei poemas de amor, toda minha infância e agora mulher, escrevo as vidas que me chegam, atuo sobre as escritas dos outros e até canto (desafinada, claro). As palavras fascinam-me tanto. Nas suas mais variadas formas. E não é que elas têm vida? Permita-se."

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