O amor é leviano

Esta semana recebi o meu diploma de doadora de leite materno. Um encontro de mulheres. Para mulheres. Conversámos, choramos... "Sabem, uma mulher com um bebé de até 1 ano de vida encontra-se numa fase extremamente sensível; muita coisa pode ser gatilho para uma depressão. Mesmo um assalto na rua."
Imagem de Freepik

As palavras da psicóloga caminharam mansamente até mim. Por estes dias, ando a sensibilidade em pessoa. Tenho entrado numa conversa profunda com a minha essência. Quem sou eu? Quais as minhas metas? O que tenho sido para os outros?

Sempre fui muito intensa. No amor, na dor e na mágoa. Entrego-me. E a maternidade exige, obriga-nos à entrega profunda. Animalesca, até. Mas é sabido que somos animais!

Dizem que somos a “geração nutella” da maternidade. Nutella porquê? Porque amamos até aos ossos? Porque demonstramos amor, damos beijo na boca e deixamos o filho dormir no nosso peito?

A maternidade teve outrora mais cuidado. Cuidado com a mãe que acabou de parir. De rasgar-se na dor, no corpo e na alma para trazer um ser humano à luz.
Esta “geração nutella” não fica na cama durante um mês “pa ka panha friesa”. Esta “geração nutella” não tem quem cuide dela com cachupa e mantega baka. Quem segure o bebé para um banho.

A minha mamã Juleta garantia sempre bolo de mel aos netos mais crescidos, enquanto cuidava da parida. A minha mamã Juleta ficava à porta do hospital à espera que a filha ou a nora parisse. E cantava “derrama, Senhor, derrama”, após rezar, incansavelmente, Avé Maria.

Fui mãe pela primeira vez sozinha. Fiz sopa quente para mim. Curei o umbigo da minha filha. Arrebentaram-me os pontos e caminhei, mesmo assim, pela minha filha. Por nós. Afinal, kenha ki da se pedi, ki tremi se kadera”.

Chorei saudades de casa e falta da minha mãe. Isto é ser animal. Rasgar-se aos gritos para criar um filho. Dizem que andamos a mimar muito os meninos. Mas isto é porque nunca se permitiram ao amor. Não que nunca amaram. Não é isto. Nós apenas tivemos a força, a coragem, a sensibilidade de quebrar a corrente que congelava o abraço.

 

Este texto foi originalmente publicado pela autora a 20 de junho de 2022 nas redes sociais.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Vandrea Monteiro

Vandrea Monteiro

"Sou a Jacky lá de casa e a primeira barriga da minha mãe.
Quase nada frequentei o pré-escolar, mas as letras misturaram-se aos desenhos ainda cedo para mim. Rabisquei poemas de amor, toda minha infância e agora mulher, escrevo as vidas que me chegam, atuo sobre as escritas dos outros e até canto (desafinada, claro). As palavras fascinam-me tanto. Nas suas mais variadas formas. E não é que elas têm vida? Permita-se."

Outros artigos