Da Praia à investigação científica em Coimbra: o percurso de Eliane Sanches

Jovem investigadora cabo-verdiana foi distinguida em janeiro na Universidade de Coimbra, Portugal, pela sua tese de doutoramento que investiga a ligação entre a visão e a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA).

Eliane Sanches é uma investigadora cabo-verdiana na área das Ciências Biomédicas, recentemente distinguida na Universidade de Coimbra, em Portugal, pela sua tese de doutoramento. Em entrevista ao Balai, fala sobre o seu percurso académico, marcado por escolhas, desafios pessoais e um compromisso com a investigação científica aplicada à realidade do dia a dia.

Natural da Praia, Eliane, hoje com 31 anos, conta que, numa primeira fase, talvez por gostar muito de conversar, queria ser jornalista. Foi ainda na adolescência, quando estudava na Escola Secundária Abílio Duarte (ESAD), que o interesse pelas ciências biológicas e pelo funcionamento do corpo humano levou-a a considerar a Medicina, mas na vertente da investigação.

Com o passar do tempo, percebeu que era possível ser cientista sem ser médica, o que a conduziu à área das Ciências Biomédicas.

Apesar de ter concorrido ao ensino superior em Portugal e no Brasil, em 2012 acabou por seguir a licenciatura em Ciências Biomédicas na Universidade Estadual de Londrina, no estado do Paraná, mesmo com algum receio familiar.

Enfrentou dificuldades iniciais de adaptação, mas encontrou um ambiente académico acolhedor e confessa que, para sua surpresa, rapidamente desenvolveu uma ligação à investigação científica.

“Era difícil explicar às pessoas em que consistia o curso que fui fazer. Porque primeiro tive de escolher uma profissão. E depois disso foi enfrentar as pessoas para explicar o porquê de ser aquela profissão. (…) uma coisa é quereres ser um arquiteto, um engenheiro civil, um jornalista, um professor, um médico. (…) mas quando dizes que vais fazer ciências biomédicas e tens o interesse em investigação parece uma realidade muito distante e é muito difícil de explicar”.

A opção pelo mestrado na mesma universidade, na área de Patologia Experimental, com foco em estudos com modelos animais e ferramentas para estudar doenças humanas, pareceu-lhe natural. Conseguiu uma bolsa e dedicou-se à investigação.

Conforme explica, na área da investigação existem fases naturais, mestrado e depois doutoramento, devido à constante avaliação curricular dos investigadores.

Mas quando terminou o mestrado, em 2017, Eliane já se sentia cansada, confessa. Após vários anos no Brasil sentia que tinha “perdido o sentido de norte” porque há muito tempo encontrava-se fora de Cabo Verde e o amor à terra foi algo que sempre foi incutido pela família.

Regresso a Cabo Verde

Assim, o regresso à terra natal foi um momento marcado pelo cansaço físico e emocional. “Apenas voltei para Cabo Verde”, explica, já que na altura não tinha um plano estruturado sobre o que queria fazer. “Estive dois meses deitada no sofá. Não conseguia fazer nada. Não era um estado depressivo, era mesmo cansaço”.

A tentativa de integração no mercado de trabalho revelou-se difícil, sobretudo devido às limitações existentes no país para a investigação científica. Tinha duas opções: ou a docência, mas ainda não tinha um doutoramento, e nem a licenciatura nem o mestrado que tinha feito existiam nas universidades nacionais, ou trabalhar na área de investigação onde as opções também eram escassas.

Começou a enviar currículos e chegou a trabalhar em análises clínicas no Hospital Agostinho Neto, na Praia, maioritariamente em regime de estágio do IEFP, enquanto ponderava os passos seguintes da sua carreira.

A investigação sobre PHDA

Cerca de dois anos após regressar a Cabo Verde acabaria por se candidatar a um doutoramento em Portugal, nas universidades de Coimbra e do Porto, tendo optado por Coimbra, em parte por causa da proximidade entre a instituição portuguesa e a Universidade de Cabo Verde e também porque o contexto científico era mais alinhado com os seus interesses.

O convívio com antigos colegas e amigos formados na área de Medicina acabou por influenciar a escolha da área de doutoramento, bem como da experiência da mãe, professora que lidava com crianças com dificuldades de aprendizagem.

A orientadora de Eliane, a investigadora Ana Paula Silva trabalha na área de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), bem como o Hospital Universitário de Coimbra, reconhecido pelo tratamento e acompanhamento de crianças com perturbações de neurodesenvolvimento. Além de que o projeto que a investigadora tinha na altura, chamou-lhe a atenção por se centrar numa área inovadora.

Intitulada “Alterações retinais na perturbação de hiperatividade/ défice de atenção: efeito terapêutico e uso indevido de metilfenidato (RetPHDA)”, a tese de doutoramento, que foi defendida por Eliane em janeiro deste ano com louvor, centrou-se nas alterações na retina, uma parte do olho diretamente ligada ao cérebro, na Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção, mais concretamente na análise do impacto do uso do metilfenidato, medicamento amplamente utilizado no tratamento da PHDA, na visão.

“Há alguns anos certos estudos começaram a demonstrar que muitas crianças com PHDA também têm problemas de visão, aparentemente eram duas coisas desconectadas. Mas se pensarmos, numa sala de aula, uma criança que não consegue ver o quadro, muito dificilmente vai prestar atenção na matéria (…) a componente visual na aprendizagem é muito importante”, salienta a jovem e acrescenta que nas PHDA as dificuldades de aprendizagem não têm a ver com a cognição, mas sim com a forma como as crianças interpretam os estímulos que condicionam a sua aprendizagem.

“Tentamos estudar o que pode estar na retina e que, poderia ou não, estar a interferir com isso”, afirma e reconhece que há uma dificuldade em diagnosticar as PHDA.

Quiseram também estudar se há alterações que podem ser identificadas a nível de exames oculares e que podem ser associadas diretamente à PHDA, explica. Nos estudos foram usados modelos animais e culturas celulares para identificar essas alterações e os efeitos do uso do metilfenidato (nome comercial Ritalina ou Concerta).

“Conseguimos demonstrar que existem alterações na retina que podem ter uma ligação direta com a PHDA e que o metilfenidato nessas condições teve um efeito benéfico para a parte ocular, no contexto do PHDA. Só que por outro lado, em condições em que não há PHDA, o uso de metilfenidato é prejudicial para a função ocular e da retina (…)”.

Um dos grandes objetivos do trabalho de Eliane é contribuir para o desenvolvimento de ferramentas complementares de diagnóstico da PHDA, através de exames oftalmológicos não invasivos, como a tomografia de coerência óptica e a eletroretinografia. Estas técnicas poderiam, no futuro, ajudar a tornar o diagnóstico mais preciso, reduzindo o peso exclusivo das entrevistas clínicas.

A próxima fase passa por validar os resultados em seres humanos, nomeadamente crianças e jovens.

Afirma que após a publicação da tese, acabou por ser contactada por pais com filhos com PHDA ou até por pessoas com diagnóstico à procura de respostas e de formas de ter mais qualidade de vida.

Questionada sobre se existe um sobre-diagnóstico da PHDA, uma questão que inclusive foi-lhe colocada durante a defesa da sua tese, a investigadora responde: “Existe um sobre-diagnóstico de PHDA, mas mais do que sobre-diagnóstico, existe uma falsa perceção do que é a perturbação de hiperatividade e défice de atenção”, afirma e dá um exemplo de estudos que notaram que em crianças que estudam com colegas mais velhos, com uma maturação cerebral diferente, existe um aumento de diagnósticos de PHDA. Nesta linha, não se faz, em Portugal, segundo a cientista, diagnóstico a crianças menores de 6 anos. Paralelamente, existem vários critérios para o diagnóstico da perturbação.

“Existe um sobre-diagnóstico de PHDA, mas mais do que sobre-diagnóstico, existe uma falsa perceção do que é a perturbação de hiperatividade e défice de atenção (…)”

“Primeiro, a criança tem que ter entre 6 e 12 anos, para fazer o diagnóstico, os sintomas têm que ser presentes tanto na escola como em casa e tem de ser persistentes por mais de 6 meses”, explica.

“Além de todos os critérios que existem, dentro das PHDA existem três subtipos: o subtipo das crianças e adolescentes que são mais desatentos, ou seja, têm défice de atenção, e outro subtipo que é o da hiperatividade e impulsividade, crianças que chamam mais a atenção e que não param quietas. Além do subtipo combinado, que é ao mesmo tempo desatento, mas também irrequieto”.

Segundo a investigadora, principalmente as crianças do subtipo da hiperatividade e impulsividade é que são mais diagnosticadas.

O impacto dos estímulos digitais nas crianças

Eliane Sanches chama a atenção para o impacto do excesso de estímulos no desenvolvimento das crianças a partir dos anos 2000. “Atualmente temos crianças com 1 ou 2 anos que sabem mexer nos telemóveis sozinhas”, diz e acredita que as crianças começam a ser estimuladas muito precocemente e que este é um problema que não deve ser ignorado.

“Biologicamente continuamos como há 35 anos em que não havia telemóveis. O nosso cérebro precisa de um amadurecimento que não está a ser respeitado”.

Para a investigadora, o sistema de recompensa rápida incentivado pelo consumo de vídeos curtos nas redes sociais ensina as crianças a esperar gratificação imediata nas atividades diárias. Nesta linha, acredita que é necessário resgatar as brincadeiras, brinquedos e hábitos que incentivam a imaginação.

“Sim, de facto existe um sobre-diagnóstico e um aumento da percepção do que são sintomas de PHDA. Mas a questão é que, de fato, não é uma doença que esteja a ser criada. Uma criança que é estimulada tão cedo pelas telas, com estímulo e recompensa rápidas, desenvolve sintomas de PHDA. E, de fato, pensamos, mas será que ela tem mesmo? Sim, se ela tem sintomas. Depois, é lhe dado metilfenidato, ela melhora”, afirma e esclarece que depois é complexo descobrir se quando a criança ainda era um embrião aconteceu alguma alteração que a levou a ter PHDA.

Para a investigadora, o mais importante é garantir às crianças e jovens condições para uma aprendizagem inclusiva, uma melhor qualidade de vida e um desenvolvimento pleno.

Olhar para o futuro

Apesar de trabalhar na investigação em Portugal e de atualmente estar ligada, até 2027, à gestão de um projeto europeu ligado ao envelhecimento, Eliane acredita que já encontrou a sua área, o neurodesenvolvimento, e quer procurar oportunidades de financiamento para implementar o seu estudo ou outros em países africanos.

A jovem também manifesta o desejo de aplicar o conhecimento adquirido atualmente na área do envelhecimento em Cabo Verde.

Para outros jovens que queiram seguir a área de investigação, Eliane aconselha a investigar bastante antes da escolha de uma licenciatura, como Medicina e Ciências Farmacéuticas, a traçar um objetivo e a ter um plano de carreira desde cedo.

Quanto a um regresso definitivo a Cabo Verde, Eliane admite que só deverá acontecer a partir de 2027.

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