Vamos conhecer a história de Gelsica Varela e da sua luta enquanto mãe de uma menina que nasceu com paralisia cerebral.
Foto cedida

Chamo-me Gelsica Varela tenho 29 anos e sou mãe da Alícia de 7 anos.

Tudo começou dias antes de eu dar à luz. Tive tensão alta várias vezes ao dia, resolvi ir ao hospital e deixaram-me logo internada. Em 13 dias de internamento, não tive uma baixa na tensão arterial, a médica sempre repetia que a minha filha estava com baixo peso e que a minha gravidez era de risco. Passando esses 13 dias fizeram-me uma cesariana. A minha filha nasceu e depois de reanimada, escutei depois de alguns minutos, o seu primeiro grito.

Nesta noite dormimos na mesma cama, e no dia seguinte ela teve febre alta, que a levou a ter uma convulsão e a médica e a enfermeira levaram-na para a incubadora.

Foram momentos dolorosos, que não há como esquecer, ainda mais porque eu estava longe da minha família, uma vez que tive minha filha no Hospital da Assomada e vivo na Praia.

Depois que tivemos alta continuei a luta, mas só aos 9 meses que tive a certeza de que a minha filha tinha paralisia cerebral e atraso no desenvolvimento psicomotor.

Depois dessa descoberta tudo ficou mais difícil, principalmente porque o pai dela a abandonou, não me apoiou mais nas idas e vindas do hospital. Eu estava desempregada, apenas a minha avó me apoiava e esporadicamente a minha mãe.

A minha filha tinha que fazer fisioterapia 3 vezes por semana e consultas de Neurologia, Psicologia, enfim, todas as consultas de seguimento. Consegui um trabalho de doméstica e eu tinha que levar a minha filha comigo. Trabalhava com ela “amarrada” às minhas costas, para que eu pudesse ter condições de a sustentar. Tive muitas dificuldades, mas com a ajuda de amigos, alguns que vivem no estrangeiro, inclusive alguns que nem conheço pessoalmente.

Algum tempo depois a fisioterapeuta da Alícia disse-me que para que ela andasse, tinha que usar prótese. Mais uma luta surgia e mais uma vez corri atrás para lhe dar uma vida menos sofrida. E mais uma vez com a ajuda de amigos conseguimos, ela deu o seu primeiro passo aos 3 anos de idade. A minha felicidade foi indescritível.

Com essa sua “autonomia” no andar, surgiu outra luta: frequentar a creche. Percorri várias e ouvi várias desculpas. Não desisti até conseguir e este ano ela começa o primeiro ano do ensino fundamental.

Sei que será mais uma fase difícil que teremos que enfrentar, mas estou firme e forte para ajudar a minha filha a ultrapassar todos os obstáculos que vão surgir. Ainda ela tem convulsões quase que todos os dias e temos que ir ao hospital. E quando estamos na rua, há pessoas que olham para ela e falam baixinho, mas eu não ligo, porque minha filha é linda do jeito que Deus a fez.

Este testemunho foi publicado em agosto de 2021 e faz parte de um leque de histórias inspiradoras originalmente publicadas na página Sem Tabus.

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