A solidão das mães atípicas

No início do ano letivo, numa das várias reuniões com professores, instituições ou terapeutas, cruzei-me com a mãe de uma criança com necessidades especiais. Uma semana depois, estava eu numa papelaria quando ela me abordou. Ficámos quase uma hora a conversar sobre os nossos filhos e as nossas vidas.

Voltei para casa a pensar na solidão dos pais atípicos, mas, sobretudo, na das mães, que tantas vezes carregam o peso do mundo às costas. São muitas as mulheres que, após o diagnóstico dos filhos, acabam por enfrentar a maternidade praticamente sozinhas, porque os pais das crianças decidem partir.

Como refere Josi Boccoli, após a separação do pai da criança, a mulher «continua a ter os mesmos conflitos e as mesmas dificuldades de antes, só que, agora, ela está sozinha e com o dobro de responsabilidades».

Não consigo precisar os números, mas existem referências a percentagens elevadas de famílias que se tornam monoparentais após o diagnóstico de uma criança com necessidades especiais. Independentemente dos números exatos, há uma realidade que não podemos ignorar: algumas mães são abandonadas precisamente quando mais precisam de apoio.

Este é, digamos assim, o primeiro abandono visível da mãe atípica. Mas é apenas o início de uma longa caminhada de solidão.

Para além da ausência do pai, há a falta de uma rede de apoio, o preconceito da sociedade, que infelizmente continua a existir, embora com diferentes intensidades consoante os contextos, e a sobrecarga que recai sobre a mulher nos cuidados à criança.

A mulher vê-se sem tempo e sem disponibilidade para manter uma vida social ativa. O seu dia é dividido entre a escola, as terapias, as consultas e os cuidados da rotina diária, que podem ser particularmente exigentes, para além da gestão de crises e de situações inesperadas.

E tudo se torna ainda mais difícil quando é necessário conciliar tantas responsabilidades com um emprego. Porque, além de toda a carga emocional, psicológica e física, existe também a preocupação financeira. A mãe precisa garantir o sustento da família e de contribuir para que nada falte ao filho.

No meio de tudo isto, onde fica o tempo para si própria?

Muitas destas mulheres não têm tempo para cuidar de si, descansar ou simplesmente parar. Vivem em permanente estado de alerta, atentas às necessidades dos filhos, antecipando dificuldades e tentando encontrar soluções para os desafios de cada dia.

Mas a solidão não se resume à ausência de um companheiro ou à falta de tempo.

Há também os amigos que desaparecem. Deixas de ser convidada para determinados momentos sociais porque nunca estás disponível, porque não tens ninguém com quem deixar o teu filho ou porque há quem não queira conviver com o barulho, com os comportamentos que não compreende ou com aquilo a que, injustamente, chama «falta de educação».

Outros afastam-se simplesmente porque não sabem como lidar contigo. Não sabem o que dizer, como agir ou como estar presentes. E, por não saberem, escolhem afastar-se.

Também os comportamentos dos filhos condicionam a escolha dos lugares e dos ambientes frequentados pelas famílias. Nem todos os espaços são acolhedores ou adequados às suas necessidades. Por vezes, sair de casa transforma-se num desafio tão grande que algumas famílias acabam por evitar fazê-lo.

E, quando falamos de relacionamentos amorosos, a questão torna-se ainda mais complexa. Para muitas destas mulheres, encontrar espaço para uma relação parece quase uma utopia. Falta tempo, falta disponibilidade e, muitas vezes, falta energia. A isto junta-se o receio de deixar entrar alguém na sua vida sem saber se essa pessoa compreenderá, respeitará e acolherá verdadeiramente o seu filho.

Assim, entre abandonos, ausências, incompreensão e falta de apoio, estas mulheres vão ficando cada vez mais isoladas. Vivem os dias em função dos filhos, enquanto carregam uma preocupação que nunca as abandona: como será o futuro? Quem cuidará deles quando elas já não puderem fazê-lo?

É impossível falar da solidão destas mães sem falar também da sua saúde mental. A ansiedade, o esgotamento emocional e a depressão podem surgir num contexto em que as exigências são constantes e as oportunidades de descanso, escassas.

Estas mulheres são cuidadoras, mas também precisam de ser cuidadas. Precisam que alguém olhe por elas, que lhes pergunte como estão e que esteja verdadeiramente disponível para ajudar. Precisam de uma rede de apoio que não dependa apenas da boa vontade de familiares ou amigos. Precisam de políticas públicas que reconheçam as suas dificuldades e lhes ofereçam respostas concretas.
Porque cuidar de quem cuida também é uma responsabilidade da sociedade.

E talvez o primeiro passo para combater esta solidão seja tão simples quanto difícil: deixar de olhar apenas para a criança e começar a olhar também para a mãe que está ao seu lado.

A mãe que sorri, que luta, que organiza, que resolve, que protege e que continua, mesmo quando está exausta.

A mãe que, tantas vezes, se esquece de si porque sente que não pode falhar.

A mãe que também precisa de colo, de descanso, de companhia e de alguém que lhe diga: «Hoje, deixa que eu cuide de ti.»

Mas, como gosto de dizer, este é tema para uma outra conversa.

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Iranita Andrade

Iranita Andrade

Profissional com competências em Comunicação, Marketing, Publicidade e Jornalismo. Mas a minha função principal é ser mãe … mãe de uma criança autista. Apaixonada por uma boa conversa e por aprender coisas novas.

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