O que estás a impedir de nascer?
Quem me conhece entenderá a escolha de comprar manuais e não somente materiais escolares. Sou uma amante de leitura e grande parte do que sou foi moldado pelos livros que fui lendo ao longo da vida. E nada mais essencial para um aluno do que os manuais onde estão as matérias lecionadas.
Mobilizo amigos e conseguimos, com o montante arrecadado, comprar milhares de manuais (os números das 3 edições: 188 doadores, 407.742$00 arrecadados e 14 entregas a instituições). E esses manuais conseguem assegurar que cada aluno beneficiário consegue acompanhar as matérias que são lecionadas, o que de outra forma poderia não ser possível.
Porque fiz isso em vez de apoiar os tantos outros projetos que existem? Porque pedir dinheiro a amigos e estranhos, andar de papelaria em papelaria atrás de manuais, aguentar longas filas, o calor e o incómodo que causa, horas para organizar os manuais noite e madrugada adentro e depois sair a fazer as entregas?
A única resposta a estas duas perguntas é: porque sim, porque quero e porque o posso fazer. Fi-lo, faça-o e pretendo continuar porque todos somos poucos para lutarmos contra as dificuldades e suprir as necessidades deste nosso povo. Não o faço somente pelos outros, por querer ajudar os nossos alunos e famílias, mas principalmente por mim (há sempre um motivo egoísta nas nossas decisões e escolhas).
Porque quero sentir que doo algo que é só meu (não falo de algo tão redutor como o dinheiro que posso doar, mas sim do meu tempo, de me esforçar por fazer algo para pessoas que não irei conhecer e que provavelmente nunca saberão quem sou). Faço-o porque o bem não precisa de justificação para ser feito.
Há coisas que, querendo ou não, só nós podemos fazer. A título de exemplo: há pessoas que não têm o hábito de aderir a esses projetos e campanhas, mas que devido à ligação que têm connosco decidem apoiar os que patrocinamos.
Logo, se eu não me tivesse colocado este desafio pessoal alguma criança ficaria sem os seus manuais e o doador não teria a satisfação de saber que tornou mais fácil a vida de algum aluno anónimo. Não podemos esquecer que as pessoas cumprem o seu papel na vida através de nós, das nossas ações. Que o facto de nos recusarmos a fazer aquilo que nos cabe estamos a impedir que o outro possa se descobrir, possa se cumprir.
Há situações em que consideramos que não temos nada a acrescentar e, contudo, há sempre algo nosso que podemos colocar e isso fará diferença na vida de alguém, por mais pequeno que seja. Ainda que esse alguém seja nós mesmos.
Ao pensar neste meu projeto pessoal que é materializado pelos doadores que confiaram em mim, não posso deixar de fazer uma ligação que algo que ouvi há algum tempo e o qual adotei para a minha vida: é imperativo que lancemos sementes “a torto e a direito”, o máximo que pudermos pois só assim poderemos aumentar as chances de alguma crescer e conseguir dar frutos.
Quando lançamos sementes à terra nunca sabemos quais as que vão germinar, se serão capazes de dar frutos e justificar o investimento que fizemos. Podemos escolher o melhor solo, estudar o momento certo para deitar as sementes à terra, tirar as ervas daninhas, regar, contudo, há um quê de imprevisibilidade, em ter a certeza de que elas darão o retorno que almejávamos. Há sempre variáveis que não conseguimos controlar, que não dependem da nossa conduta e vontade.
Este assunto levou-me a recordar a parábola do semeador (Mateus 13:1-23, Marcos 4:1-20 e Lucas 8:5-15), em que este saiu para semear, foi jogando as sementes e estas caíram na beira do caminho, em solo rochoso, sobre espinhos e em solo fértil. O destino de cada semente ficou dependente do lugar onde caiu, se estavam ou não reunidas as condições ideais para que a semente pudesse prosperar.
As sementes que caíram à beira da caminho foram comidas pelas aves, em solo rochoso germinaram e por falta de terra suficiente murcharam sob o calor do sol, as que caíram sobre espinhos foram sufocadas por estes ao crescerem e em solo fértil germinaram, cresceram e produziram uma colheita maior do que a quantidade semeada.
Na bíblia Jesus explica aos seus discípulos o significado da parábola esclarecendo que a semente lançada é a palavra de Deus e os solos os tipos de pessoas que a recebem e dos frutos que darão ou não.
Da parábola quero retirar o ensinamento de que a cada um de nós cabe lançar sementes, por todo o tipo de solo. É certo que lançá-las em terreno fértil aumenta a probabilidade das sementes germinarem e produzirem os frutos em quantidade superior àquela semeada.
Em toda semeadura existem os frutos imediatos, no entanto, existem outros frutos que podemos não conseguir alcançar por estarmos somente focados no fruto esperado. A semente que não brotou pode adubar o solo, tornando-o mais fértil para a sementeira seguinte, aquela semente que não germinou poderia dar um fruto impróprio para consumo e que consumiu os nossos recursos (a nossa água e tempo), que não puderam ser alocados às outras sementes.
Poderá acontecer que a colheita pretendida não ocorra, contudo, existirá sempre algo que será diferente por nos termos atrevido a fazê-lo. Poderá ser o nosso aprimoramento, a superação de uma limitação ou dificuldade nossa, haverá sempre um fruto resultante de uma semente lançada. É-nos exigível humildade suficiente para conseguirmos fazer essa leitura.
Daí que não nos devemos limitar no lançar das sementes, não ter receio de colocarmos quem somos (a nossa semente) no mundo, se acreditamos que temos algo a acrescentar e se o fazemos por ser um bem.
Não posso terminar sem agradecer a todos aqueles que se uniram a mim neste “lançar de sementes”, que sem dúvida tornará melhor a vida de centenas de alunos cabo-verdianos que nunca saberão quem foram os benfeitores. Não precisam saber. Precisam sim de saber que no mundo existem pessoas que as amaram (sem as conhecer) e quiseram dar-lhes a oportunidade de caminharem com mais ferramentas.
A cada um de vocês o meu mais sincero obrigado, por me permitirem ser e me cumprir.
Ao semeador cabe lançar sementes, façamo-lo sem esmorecer em toda a oportunidade que tivermos, que a colheita essa será certa.
Vossa Adénis
Praia, 8 de outubro de 2026.

Adénis Carvalho Silva
"Filha, mãe, esposa, advogada. Amiga dos seus amigos. Leal, honesta e direta. Uma apaixonada por música, livros e pela escrita. Amante de uma boa conversa e de aprender coisas novas. Em permanente busca de novos desafios."
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