- Gilda da Luz, Opiniao
- Outubro 21, 2026
- 9:48 am
- Gilda da Luz
O silenciar das vítimas – Violência e abuso Sexual
Os acontecimentos associados ao caso «Aurora» têm suscitado inúmeras manifestações, opiniões e debates nas redes sociais. É natural que situações desta gravidade despertem indignação, preocupação e o desejo de compreender o que aconteceu. A sociedade tem o direito de questionar, exigir respostas e defender os direitos das crianças e dos adolescentes. Mas, perante um assunto tão delicado, precisamos de refletir: – será que a forma como falamos sobre o abuso sexual contribui sempre para a proteção das vítimas ou, por vezes, pode criar mais obstáculos à coragem de quem ainda não conseguiu falar?
Há uma diferença entre falar sobre o abuso sexual e saber abordá-lo. Falar sobre esta realidade exige mais do que indignação. Exige responsabilidade, conhecimento e sensibilidade. Uma pessoa pode ter a intenção de ajudar e, ainda assim, utilizar palavras que culpabilizam a vítima, alimentam suspeitas sem fundamento, banalizam o sofrimento ou transformam um caso delicado num julgamento público.
Entre os leitores das redes sociais pode estar uma criança que nunca contou o que lhe aconteceu, um adolescente que teme não ser acreditado ou uma pessoa adulta que guarda uma experiência dolorosa há muitos anos. Imaginemos uma adolescente que vive uma situação de abuso sexual e ainda não teve coragem de contar a ninguém. Ao ler comentários que questionam por que razão uma vítima demorou a falar ou insinuam que o seu comportamento não corresponde ao de uma «verdadeira vítima», pode começar a perguntar-se: «E se também duvidarem de mim? E se me culparem?».
Talvez ninguém que escreveu aqueles comentários estivesse a pensar nela. Ainda assim, o impacto pode existir. Não podemos afirmar que cada comentário impedirá uma denúncia. Contudo, o medo de não ser acreditado, a vergonha, a culpabilização e a exposição pública podem constituir barreiras à procura de ajuda.
“Uma publicação pode terminar no ecrã de quem a escreveu, mas as suas consequências podem continuar na mente de quem a leu.”
Nossa indignação / nossas responsabilidades
É legítimo exigir justiça, questionar falhas institucionais e pedir transparência. Mas existe uma diferença entre exigir responsabilidade e assumir o papel de investigador ou juiz sem dispor de todos os elementos necessários. A divulgação de informações não verificadas, a especulação sobre testemunhos e a apresentação de hipóteses como factos podem prejudicar pessoas, comprometer a privacidade das vítimas e dificultar um debate responsável. A presunção de inocência deve ser respeitada.
Ao mesmo tempo, as denúncias devem ser recebidas com seriedade, sem humilhar nem culpabilizar quem procura ajuda.
Respeitar os direitos de todas as pessoas envolvidas não significa relativizar a violência sexual. Significa exigir justiça com responsabilidade, rigor e respeito pela dignidade humana. – Isto não significa que a sociedade deva ficar calada perante possíveis falhas. Significa distinguir a crítica legítima da especulação e a sensibilização da exposição indevida.
Ajuda quem menos atrapalha!
Quem trabalha com crianças e adolescentes sabe que uma revelação de violência exige cuidado. Nem sempre a vítima consegue contar tudo de uma só vez. Pode sentir medo, vergonha ou confusão e recear as consequências familiares e sociais de falar. Proteção não se resume a receber uma denúncia. Envolve avaliar riscos, respeitar a privacidade, encaminhar a situação e procurar evitar sofrimento desnecessário.
As redes sociais podem contribuir para a sensibilização e pressionar por melhores respostas institucionais. Contudo, não substituem os serviços de proteção, os profissionais qualificados nem as autoridades competentes.
Também é importante reconhecer que quem trabalha na proteção deve refletir sobre a sua própria atuação, corrigir eventuais falhas e prestar contas quando necessário. A confiança constrói-se através de práticas responsáveis.
Em momentos de grande comoção social, podemos sentir que precisamos de comentar tudo e apresentar uma posição sobre cada informação que circula. Mas nem sempre falar mais significa ajudar mais. Às vezes, proteger é não partilhar uma informação que não conseguimos confirmar, não divulgar detalhes que identifiquem uma vítima, não reproduzir conteúdos que exponham a sua intimidade e não transformar uma suspeita numa certeza. Não se trata de impedir as pessoas de se manifestarem. Trata-se de promover uma cultura de responsabilidade na comunicação, em que a liberdade de expressão não seja exercida à custa da dignidade e da segurança de quem sofreu violência
Vítimas em silêncio…
Enquanto discutimos um caso concreto, há outras crianças e outros adolescentes que podem estar a viver situações de violência. Há vítimas que ainda não encontraram uma forma segura de contar e que observam as reações da sociedade para tentar perceber o que poderá acontecer se falarem.
O que encontram nas nossas palavras? Acolhimento ou julgamento? Informação ou especulação? Esperança de proteção ou mais motivos para ter medo?
Não podemos controlar todas as interpretações de uma mensagem, mas podemos escolher não culpabilizar, não expor, não divulgar rumores e não tratar o sofrimento de alguém como entretenimento. Antes de publicar, precisamos de perguntar a nós próprios: estou a divulgar informações confirmadas? Estou a proteger a identidade das
vítimas? Estou a contribuir para a prevenção e para a procura de ajuda ou a incentivar a exposição pública?
A prevenção começa antes de uma denúncia e continua depois dela. Inclui a forma como educamos, escutamos, comunicamos e reagimos quando alguém nos confia uma situação de violência.
A voz que protege
Não escrevo estas palavras para impedir ninguém de se manifestar sobre o caso «Aurora». Escrevo porque acredito que precisamos de aprender a falar sobre violência e abuso sexual com mais responsabilidade.
A indignação é legítima. A exigência de justiça é necessária. A defesa das crianças e dos adolescentes não pode ser negociada, mas, não basta dizer que estamos do lado das vítimas. Precisamos de perguntar se as nossas palavras e atitudes são coerentes com essa posição.
Podemos acreditar que estamos a sensibilizar e, sem perceber, contribuir para o medo de quem ainda não falou. Podemos pensar que estamos a defender uma vítima e acabar por expô-la. Verdadeira proteção exige mais do que emoção. Exige conhecimento, prudência, humanidade e responsabilidade.
Para além do caso que ocupa as redes sociais, existem pessoas a observar em silêncio, à procura de coragem e de alguém em quem possam confiar. Precisam de saber que serão escutadas com seriedade, tratadas com dignidade e encaminhadas para a proteção adequada.
“Que a nossa indignação não se transforme em mais uma razão para uma vítima permanecer em silêncio. Que a nossa voz ajude a abrir caminhos para a proteção, e não a fechar as portas de quem ainda procura coragem para falar.”
Prof.ª Gilda da Luz
Mentora do projeto Aprenda Brincando Educa
Técnica da Fundação Dret.u
Prevenção da violência e do abuso sexual de crianças e adolescentes

Gilda da Luz
Pofessora há 27 anos, ativista dos direitos da criança e do adolescente, palestrante e técnica da Fundação Dret.u, onde trabalha atualmente. Dinamiza workshops, formações para professores e monitores de pré-escolar, bem como atividades com associações comunitárias. É mentora do projeto Aprenda Brincando Educa.
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