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No comunicado conjunto, a UE reconheceu Cabo Verde como parceiro-chave da Global Gateway e destacou o seu papel de ponte entre a Europa e África, no espaço da Macaronésia, que inclui também Madeira, Açores e Canárias.
O reconhecimento tem consequências bastante práticas. A agenda comum inclui energia renovável, modernização dos portos, economia azul, conectividade digital e turismo sustentável. O comunicado refere ainda que a UE apoiou o estudo de viabilidade de um Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial para a Macaronésia. Esta iniciativa poderá criar uma plataforma de cooperação económica entre os arquipélagos e os países africanos próximos.
Considero esta uma ótima perspetiva sobre a importância de investir na Macaronésia. Como tenho defendido há muito, este espaço vai muito além da partilha de biodiversidade a que muitos ainda o reduzem.
Cabo Verde levou esta ambição ao Fórum Global Gateway de 2025. Segundo o comunicado europeu de outubro deste ano, o país apresentou então uma carteira de investimentos próxima dos 400 milhões de euros, em áreas como energias renováveis, economia azul, infraestruturas marítimas e transformação digital. Este valor merece ser lido com rigor e não significa que esse montante sejaentregue de uma só vez.
A informação publicada pela Comissão Europeia sobre o Fórum de 2025 refere o anúncio de mais de 200 milhões de euros em novos investimentos, entre os quais o projeto eólico e de armazenamento Cabeólica, a modernização de portos e o apoio a reformas e serviços públicos.
O desafio, agora, é transformar anúncios e oportunidades em obras concluídas, empresas locais mais fortes e empregos qualificados. Para isso, Cabo Verde precisa de apresentar projetos bem preparados, com estudos, financiamento, prazos e benefícios claros. Precisa também de regras estáveis, processos de licenciamento previsíveis e transparência na contratação.
Estabilidade e previsibilidade são essenciais para atrair investimento e para que as empresas queiram permanecer no país. Cabo Verde tem dado provas de que está no bom caminho.
E é aqui que a Macaronésia pode ganhar um sentido novo. Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde partilham desafios insulares, mas também podem, e devem, ligar conhecimento, empresas, universidades, logística e cultura. A proximidade entre estes arquipélagos pode servir de ponte entre a experiência europeia e as oportunidades da África Ocidental.
É com esta convicção que, esta semana, a Associação de Promoção da Macaronésia da Madeira (APMM) está representada em Bruxelas na Semana Europeia das Regiões e dos Municípios. A APMM participa, por exemplo, num debate do Comité Económico e Social Europeu (CESE) sobre os futuros Planos Nacionais e Regionais de Parceria da União Europeia para 2028–2034, ligados ao próximo orçamento europeu.
Esta reunião é especialmente importante porque aborda uma questão decisiva: como garantir que as regiões, as comunidades locais e as organizações da sociedade civil participam na preparação e na execução desses planos. A participação da sociedade civil não deve limitar-se a ser ouvida depois de as decisões estarem tomadas. É essencial que as organizações possam contribuir desde a preparação dos planos e acompanhar a sua execução, ajudando a perceber se as prioridades e os fundos europeus correspondem às necessidades concretas dos territórios.
Para a APMM, este debate é uma oportunidade para compreender de que forma as organizações que representam territórios insulares, como a Madeira e a Macaronésia, podem fazer ouvir as suas necessidades e acompanhar se as decisões e os fundos europeus chegam efetivamente às regiões. A participação da sociedade civil reforça a transparência e aproxima as políticas europeias das pessoas e das comunidades a que se destinam.
A agenda da APMM para esta semana inclui ainda debates sobre coesão territorial, competitividade e serviços essenciais, a cerimónia do Pacto de Autarcas e um encontro da Conferência das Regiões Periféricas Marítimas. Participaremos também numa conferência da EURODOM dedicada às Regiões Ultraperiféricas. O encontro coloca as especificidades destas regiões no debate europeu, num momento em que a União prepara novas medidas para estes territórios e se discute o próximo quadro financeiro.
Para a Madeira e para a Macaronésia, é fundamental que a insularidade, a distância e os custos acrescidos sejam considerados nas decisões europeias. Estes encontros permitem às ilhas afirmar, em conjunto, o seu lugar e o seu contributo para o futuro da Europa. Mas, para que as suas necessidades sejam verdadeiramente tidas em conta, é essencial que a sociedade civil tenha voz e participe também na definição das decisões que moldarão esse futuro.
Ainda no Comité Económico e Social Europeu, tive oportunidade de defender os interesses da Macaronésia, alertando para as dificuldades de mobilidade e conectividade entre os nossos arquipélagos e para a necessidade de uma participação efetiva das organizações da sociedade civil na definição das políticas europeias. Defendi ainda o reforço dos mecanismos de cooperação existentes, como o Interreg MAC, para que as decisões tomadas em Bruxelas se traduzam em respostas concretas às necessidades dos nossos territórios.
Este texto foi originalmente publicado no Diário de Notícias da Madeira.

Cônsul Honorária de Cabo Verde na Região Autónoma da Madeira, Presidente da Associação de Promoção da Macaronésia da Madeira e Diretora Pedagógica da Associação Amigos da Diáspora e Emigrantes Madeirenses, mestre em Educação, pós-graduação em MBA/Gestão,cronista do Jornal da Madeira, escritora, encantada por música, livros e pela prática desportiva. Apaixonada por Cabo Verde, pelo seu povo, pela sua rica cultura, pelas mornas, empenhada em aprender crioulo e em estreitar relações entre a Madeira e Cabo Verde e na promoção da Macaronésia.







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