Mónica Sofia: “A nossa vontade de ajudar é maior do que a possibilidade que temos”

Fundada em 2016 na República Checa, a Fundação Naděje Cabo Verde conta desde novembro deste ano com uma sede física em Santa Cruz, no interior de Santiago. Um sonho tornado realidade, nas palavras da promotora da iniciativa a emigrante e empresária cabo-verdiana Mónica Sofia.

Natural de Achada Bel Bel, no interior de Santiago, Mónica Sofia Silva Duarte ou simplesmente Mónica Sofia é uma empresária, ativista social e empreendedora cabo-verdiana de 30 anos que reside na República Checa há vários anos. Foi nesse país europeu que fundou a organização de cariz social Fundacão Naděje Cabo Verde que desde novembro deste ano passa a contar também com uma sede no município de Santa Cruz (Santiago).

“Depois de muitos anos de luta, conseguimos implementar uma filial da Fundação Naděje em Cabo Verde (…) Temos muitos projetos para realizar. Tem sido um trabalho enorme fazer a gestão da fundação em simultâneo com outros trabalhos que tenho”, avança Mónica Sofia em entrevista ao Balai.

Uma das primeiras ações no terreno foi a entrega de uma ambulância de standard europeu para o município da Ribeira Brava, em São Nicolau, que segundo Mónica Sofia não tinha um veículo dessa natureza. O objetivo é até 2023 conseguir uma ambulância deste género para cada município de Cabo Verde, segundo a promotora.

Além dos trabalhos diários com a entrega de donativos, medicamentos, materiais desportivos, bens alimentares e ainda uma campanha de Natal com a entrega de ursos nos municípios de Santiago, a jovem adianta que atualmente a fundação está focada no projeto Casa dos Sonhos, que começou a ser implementado há cerca de dois anos no arquipélago.

Trata-se de um projeto que vai abranger 110 habitações familiares nos 20 municípios. “A nossa vontade de ajudar é maior do que a possibilidade que temos”, lamenta a jovem e adianta que este projeto está orçado em 500 mil euros.

O primeiro município abrangido pela Casa dos Sonhos é o de Calheta de São Miguel, mas o projeto também já está a ser implementado em Santa Cruz, Santa Catarina e Ribeira Grande de Santiago e ainda nas ilhas de São Nicolau e da Boa Vista. Segundo a promotora, o objetivo é reabilitar casas já existentes, de preferência de mulheres chefes de família com idade até os 40 anos. Em média, recuperar cada habitação deverá ter o custo de 7 mil euros (mais de 700 contos) e o projeto já começou a ser implementado em conjunto com as câmaras locais.

Formação e Educação Cívica para Desenvolvimento

Ainda se lembra do dia em que conheceu o antigo presidente da República, Pedro Pires, há largos anos durante uma apresentação da escola primária. Este ano, Mónica Sofia convidou o antigo chefe de Estado para abraçar a iniciativa “Formação e Certificação em Educação Cívica para o Desenvolvimento” que vai arrancar em janeiro de 2022 em Santa Cruz, um dos municípios que mais precisam em Cabo Verde, segundo Mónica.

A formação é dirigida a homens, pais e encarregados de educação e pretende educar para a mudança e promover uma paternidade de proximidade e de afetos. “Ensinar os pais a amar e a cuidar dos seus filhos”, explica a fundadora da Naděje Cabo Verde.

Os formadores serão António Pinto e Eugénio Tavares, ambos professores de Santa Cruz, e o objetivo é tentar levar a iniciativa a outros municípios.

Câmara de Comércio Checo – Cabo-verdiana

Formada em Engenharia Físico-Tecnológica em Lisboa e com um mestrado em Finanças, Mónica Sofia é também vice-presidente da Câmara de Comércio Checo – Cabo-verdiana que fundou em 2019 com o apoio institucional do governo checo.

Segundo a empresária, a Câmara de Comércio Checo – Cabo-verdiana tem incentivado a vinda de turistas checos a Cabo Verde desde o início da retoma turística, este ano.
Um dos objetivos de Mónica Sofia é incentivar a vinda de cidadãos checos a Cabo Verde e nos últimos três meses, mais de 100 checos visitaram a ilha de Santiago, adianta a empresária e explica que desde fevereiro deste ano há um voo semanal de Praga, capital checa, para a Boa Vista.

Além do turismo, a Câmara de Comércio Checo-Cabo-verdiana tem programas virados para o investimento e negócios em Cabo Verde. “Queremos que as pessoas conheçam não só os projetos sociais, como os projetos comerciais. Eu sempre tento procurar o equilíbrio entre o social e o comercial. As pessoas, por vezes, não entendem e reclamam que eu tenho uma Câmara de Comércio e uma Fundação, mas o desenvolvimento de um país está a 100 por cento no equilíbrio entre o social e o económico” e explica porquê citando o exemplo do Projeto Redonda.

Trata-se de um novo investimento a ser implementado em Santa Cruz que pertence a um investidor checo-israelita, está avaliado em 250 milhões de euros e já foi entregue na CV Trade Invest. O objetivo deste projeto é evitar que se repitam situações semelhantes ao que aconteceu na ilha da Boa Vista com o bairro da Barraca. “Queremos que haja equilíbrio económico social”, explica.

 

Quero criar uma comunidade checa em Cabo Verde, apesar de reconhecer que já existe uma pequena comunidade nas ilhas da Boa Vista e do Sal. “Temos mais checos a viver em Cabo Verde, do que cabo-verdianos na República Checa”.

Marca Mónica Sofia com produtos locais

Diz que as pessoas lhe perguntam como é que consegue apoiar tanto? “Respondo que é resultado de muito esforço e trabalho por isso tenho onde ir buscar (os fundos)”.
“Costumo dizer que se consegue tirar os cabo-verdianos de Cabo Verde, mas não se consegue tirar Cabo Verde dos cabo-verdianos (…) É como eu com a minha vertente social, é difícil as pessoas tiram-me isso, eu nasci com isso (…) Eu vim da pobreza e é essa a minha raiz”.

Há mais de cinco anos que criou na República Checa a sua marca de calçado e acessórios intitulada Mónica Sofia e brevemente conta abrir um espaço para comercializar os seus produtos em Cabo Verde.

Para já tem uma pequena produção de peças da marca na sede da fundação Nadeje em Santa Cruz que alberga também um espaço onde são produzidas peças com produtos locais, nomeadamente, lava e pedra do vulcão. Atualmente emprega dois artesãos cabo-verdianos com experiência que com a sua orientação já produzem peças.

Questionada sobre se não há um conflito entre a marca e a fundação, a promotora, que foi durante alguns anos modelo na República Checa, explica que a fundação não tem financiamento e precisa de fundos e que esta é uma forma de conciliar as duas coisas.

“Na Fundação temos de ter como financiar as pessoas, então temos de gerar rendimentos. Não somos apoiados pelo estado, somos uma fundação de iniciativa privada. A minha empresa Monica Sófia é uma das principais parceiras da fundação. Tendo emprego, rendimento e lucro na empresa, conseguimos financiar os projetos sociais na fundação (…)”, explica.

Critica uma certa romantização do empreendedorismo que “está na moda em Cabo Verde”. “O empreendedorismo não é brincadeira e as pessoas têm de entender isso (…) há uma lógica, um processo, um trabalho por detrás”, argumenta.

Projetos não lhe faltam. A jovem ambiciona igualmente juntar artesãos de Santiago num só espaço em Santa Cruz.

Diz que precisa de mais pessoas para desenhar, mas também para produzir as peças. O objetivo é comercializar os produtos da marca produzidos localmente tanto em Cabo Verde como no exterior.

Apesar de já ter um espaço físico para a futura loja da marca situado no Platô, na cidade da Praia, a abertura da mesma está prevista para início de 2022.

A residir na Europa desde os 17 anos, altura em que partiu para Portugal para fazer a licenciatura, atualmente, Mónica Sofia tem conciliado a vida entre Cabo Verde e a República Checa de modo a coordenar as atividades que desenvolve tanto no arquipélago como na Europa.

Hospital Naděje

Segundo a empresária o Hospital Naděje é uma parceria público-privada que está a ser idealizada desde 2020. “O projeto está lá agora estamos com falta de financiamento”, mas a jovem acredita que este projeto checo-cabo-verdiano deve arrancar em 2022.

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