À primeira vista, estes números poderiam ser lidos como um sinal de empoderamento. As mulheres acedem ao crédito, criam os seus próprios negócios, geram rendimento para as suas famílias. E, de facto, há razões para celebrar. O Banco Jovem e Mulher, plataforma digital de financiamento, aprovou 1.680 créditos, com 85% dos projetos financiados liderados por mulheres. O projeto de Empoderamento e Autonomia Económica das Mulheres e Jovens formou e capacitou mais de 500 mulheres e jovens em situação de vulnerabilidade. No programa de incubação “Semente de Ideias”, 45% dos empreendedores integrados eram mulheres.
Mas é precisamente aqui que o paradoxo se instala. Se as mulheres são maioria no microcrédito e na informalidade, por que razão são minoria na liderança das MPME formalizadas?O Recenseamento Empresarial de 2022 é inequívoco: a maioria das empresas ativas em Cabo Verde são chefiadas ou geridas por homens, representando cerca de 71,3%.
Entre o microcrédito que recebe e a microempresa registada, com contabilidade organizada e acesso a mercados mais alargados, há um percurso que muitas mulheres cabo-verdianas nunca conseguem completar. Não por falta de talento, ambição ou de capacidade de gestão. Mas porque, ao contrário dos homens, o seu tempo não lhes pertence por inteiro. A pobreza de tempo é o muro invisível que as separa do crescimento.
Os obstáculos comuns a todas as MPME
Antes de aprofundar o fosso de género, importa reconhecer que as MPME cabo-verdianas, sejam lideradas por homens ou por mulheres, enfrentam um ecossistema adverso. O acesso ao crédito é o mais evidente: o setor bancário tradicional exige garantias reais que a maioria das MPME não possui, uma cobertura média de 201% do valor do empréstimo, segundo o Banco Mundial. A burocracia, a fragilidade da gestão financeira e a falta de literacia empresarial são desafios partilhados. A informalidade, que atinge 44,8% da população empregada, é um teto que aprisiona tanto homens como mulheres.
Mas há um obstáculo que, embora não seja exclusivo das mulheres, as afeta de forma desproporcional e estrutural: o trabalho de cuidados não remunerado.
O mais recente estudo sobre o Uso do Tempo e Trabalho Não Remunerado em Cabo Verde, apresentado em 2025, é revelador: 88,83% das mulheres realizam trabalho não remunerado, contra 70,21% dos homens. As mulheres dedicam, em média, 22 horas e 42 minutos por semana a tarefas domésticas e cuidados familiares, enquanto os homens dedicam 14 horas. Esta diferença de quase nove horas semanais, mais de um dia de trabalho por semana, é o fosso invisível que separa o empreendedorismo feminino do masculino.
O Banco Mundial, na sua Atualização Económica de Cabo Verde de 2025, é inequívoco: as mulheres passam quase três vezes mais horas do que os homens em atividades de cuidado e o dobro do tempo em tarefas domésticas. Este desequilíbrio começa cedo e prolonga-se por toda a vida ativa, condicionando a disponibilidade das mulheres para investir na formação, na procura de mercados, na inovação e na gestão estratégica dos seus negócios.
A pobreza de tempo como barreira à competitividade
A “pobreza de tempo” não é um conceito abstrato. É a realidade de milhões de mulheres que, depois de um dia de trabalho no seu negócio, regressam a casa para uma segunda jornada, a dos cuidados. É a impossibilidade de frequentar uma formação em literacia financeira porque não há quem fique com os filhos. É a dificuldade de participar numa feira empresarial noutra ilha porque os transportes são caros e a logística familiar é complexa. É a renúncia a um contrato de maior dimensão porque o tempo para o executar simplesmente não existe.
Enquanto um empresário homem pode dedicar à totalidade do seu tempo ao crescimento do negócio, a mulher empreendedora vê o seu capital intelectual e produtivo constantemente desviado para a manutenção da esfera privada. O sistema económico, ao não contabilizar nem valorizar o trabalho de cuidados, oferece uma competitividade estruturalmente desigual.
Este fosso não é apenas uma injustiça social, é um desperdício económico colossal. O Banco Mundial estima que eliminar as desigualdades de género no emprego e nos rendimentos poderia aumentar o PIB de Cabo Verde em até 12,2% a longo prazo. Este crescimento, sublinha a instituição, seria alcançado sem a construção de um único hotel ou a chegada de um novo investidor estrangeiro. Basta libertar o potencial económico que já existe, mas que permanece refém da pobreza de tempo.
O novo ciclo político herda um ecossistema de políticas públicas que, nos últimos anos, começou a reconhecer o papel das mulheres na economia. O Plano Nacional de Cuidados, estruturado desde 2017, e o Fundo Adicional do Projeto Capital Humano, financiado pelo Banco Mundial em 3,19 milhões de euros para alargar o acesso a creches e jardins-de-infância, são passos na direção certa. Mas são passos ainda pequenos para a dimensão do desafio.
O que agora se impõe é a capacidade de transformar estas iniciativas numa política de Estado, com escala e continuidade. Três medidas concretas, à luz dos diagnósticos nacionais, são inadiáveis.
Primeiro, a criação de uma rede pública e privada de infraestruturas de cuidado como creches, centros de dia para idosos, transportes escolares, que liberte as mulheres empresárias do ónus exclusivo dos cuidados. Não se trata de um custo social, mas de um investimento económico que permitirá às mulheres dedicar o seu tempo ao crescimento dos seus negócios.
Segundo, a institucionalização de linhas de crédito de transição que reconheçam a especificidade do empreendedorismo feminino, com prazos alargados, taxas incentivadoras e, sobretudo, assistência técnica para a formalização e escalabilidade. O microcrédito, tal como está desenhado, mantém as mulheres na economia de subsistência. O crédito produtivo, com critérios de género, pode levá-las à economia de crescimento.
Terceiro, a criação de programas de mentoria e capacitação empresarial que integrem a dimensão do tempo. Formação em gestão de tempo, em delegação de tarefas, em literacia digital e financeira, mas que não ignore que, para muitas mulheres, o maior obstáculo não é a falta de conhecimento, é a falta de horas no dia.
O Dia das MPME2, que ora celebramos, deve ser mais do que uma data no calendário. Deve ser o momento em que o país reconhece que o empreendedorismo feminino não pode continuar confinado ao microcrédito e à informalidade, e que as principais barreiras não é somente a falta de crédito, é igualmente a falta de tempo.
O talento, a resiliência e a capacidade de gestão das mulheres cabo-verdianas estão à vista de todos. O que falta é a arquitetura institucional que lhes devolva o tempo que o sistema lhes rouba. O novo governo tem agora a oportunidade de o fazer. Porque o desenvolvimento de Cabo Verde não será pleno enquanto metade do seu potencial empreendedor continuar a ser consumido pelo trabalho invisível que sustenta a vida, mas que a economia insiste em não valorizar.