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Tradicionalmente, os debates sobre gestão costeira têm privilegiado abordagens técnicas centradas na engenharia, no ordenamento do território e na monitorização ambiental. Embora estes instrumentos sejam indispensáveis, eles são insuficientes quando ignoram um elemento fundamental, que são as pessoas.
É precisamente neste ponto que as Ciências Sociais assumem um papel decisivo. Compreender como as comunidades utilizam os recursos costeiros, como percebem os riscos ambientais e como participam nos processos de tomada de decisão é tão importante quanto medir a erosão de uma praia ou monitorizar a qualidade da água. Trata-se de, oferecer ferramentas essenciais para analisar as relações entre sociedade e ambiente, contribuindo para políticas mais eficazes e socialmente justas.
As comunidades costeiras possuem conhecimentos acumulados ao longo de gerações. Pescadores artesanais, peixeiras, operadores turísticos e moradores locais conhecem os ciclos do mar, os períodos de reprodução de determinadas espécies e as transformações que ocorrem no litoral. Ignorar este conhecimento é desperdiçar uma fonte valiosa de informação para a gestão sustentável dos recursos naturais.
Por outro lado, uma gestão inteligente das zonas costeiras depende cada vez mais da literacia. Não se trata apenas da capacidade de ler e escrever, mas da aptidão para compreender informações, interpretar dados, avaliar riscos e participar conscientemente nos assuntos públicos. Uma população com elevados níveis de literacia ambiental e científica está mais preparada para compreender os efeitos das alterações climáticas, da poluição marinha, da erosão costeira e da perda de biodiversidade.
A literacia fortalece a cidadania. Cidadãos informados tornam-se mais capazes de exigir transparência nas decisões públicas, apoiar iniciativas de conservação e contribuir para soluções inovadoras. Da mesma forma, programas de educação ambiental podem transformar comportamentos individuais e coletivos, promovendo uma relação mais equilibrada entre desenvolvimento económico e proteção dos ecossistemas.
Em Cabo Verde, esta realidade torna-se particularmente evidente. O crescimento do turismo costeiro, a expansão urbana junto ao litoral e os impactos das alterações climáticas colocam desafios complexos à sustentabilidade das nossas ilhas. A construção de infraestruturas turísticas, por exemplo, pode gerar emprego e riqueza, mas também criar pressões sobre ecossistemas frágeis, como as praias de desova das tartarugas marinhas. Encontrar o equilíbrio entre desenvolvimento e conservação exige diálogo, conhecimento e participação.
É por isso que a gestão costeira não pode ser uma responsabilidade exclusiva dos especialistas ou das instituições públicas. Ela deve envolver escolas, universidades, organizações comunitárias, associações ambientais, empresas e cidadãos. A construção de uma cultura de participação e corresponsabilidade é uma das condições essenciais para garantir a proteção dos recursos costeiros para as gerações futuras.
Num mundo marcado por rápidas transformações ambientais, investir em Ciências Sociais e em literacia é investir na capacidade de as sociedades compreenderem os desafios que enfrentam e construírem respostas mais inteligentes e sustentáveis. A tecnologia e a ciência continuarão a ser aliadas indispensáveis, mas nenhuma solução será duradoura se não considerar os comportamentos humanos, os valores culturais e o conhecimento das comunidades.
A gestão inteligente das zonas costeiras começa, afinal, pelo reconhecimento de uma verdade simples: proteger o mar e o litoral é também investir nas pessoas. E são as pessoas, quando informadas, conscientes e participativas, que podem garantir um futuro mais resiliente para as nossas costas e para o nosso país.
PhD em Ciências Sociais, com uma trajetória académica e profissional voltada para o estudo e fortalecimento das comunidades locais. Sua pesquisa tem como foco o Capital Social e o Desenvolvimento Local, temas fundamentais para compreender e promover o crescimento sustentável de pequenas localidades, especialmente nas regiões litorâneas.







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