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Santo Antão, não por acaso, apelidada de Ilha das Montanhas, é um prodígio da natureza. As suas altíssimas e escarpadas montanhas sobem, abruptamente, até terminar em enormes planaltos (Planalto Leste e Planalto Norte) ou, ainda, subir um pouco mais acima, até beijar as nuvens, no alto da coroa do rei da ilha, Topo de Coroa, a quase 2 mil metros acima do nível do mar. A descida é, quase sempre, vertiginosa, culminando em vales profundos, muitos dos quais verdejantes e com água a correr por entre as pedras ou sob a areia depositada no leito da ribeira.
Não obstante esta breve introdução, hoje não é nosso objetivo falar dos diversos atributos que fazem de Santo Antão uma ilha singular no arquipélago de Cabo Verde e, porque não, no mundo. Uma ilha única! No entanto, não se pode falar do problema dos acessos nessa ilha sem o devido enquadramento geomorfológico, que é onde se encontra a origem do isolamento de diversos sítios da ilha.
Se recuarmos cerca de meio milénio na história recente de Santo Antão, encontramos uma ilha ainda deserta, recentemente descoberta por navegadores portugueses que, segundo esses, assim a encontraram. Em toda a sua extensa costa, apenas haveriam de encontrar excelentes condições para ancorar numa enseada que existia na foz dupla das ribeiras Grande e da Torre. Foi precisamente nesse local que anos depois haveria de surgir o primeiro assentamento humano da ilha, a Povoação de Santa Cruz. Durante muitos anos, uma cordilheira que separa a ilha entre norte e sul foi considerada intransponível, dificultando o povoamento da ilha.
Assim, a estrada via montanha, que liga as cidades da Ribeira Grande e Porto Novo, é considerada um marco na história de Santo Antão. Construída na segunda metade do século XX, essa estrada é uma grande obra de engenharia, por mais se tivermos em conta o contexto em que foi executada a empreitada. Ainda na era colonial, a obra que, no projeto inicial, contemplaria túneis, foi feita, praticamente, apenas com recurso à força braçal de bravos homens, que tiveram, com enxadas, pás, picaretas e dinamite, de abrir ao meio a crista de uma montanha, para fazer passar a estrada na zona designada de Delgadinho.
Como sobressai do paragrafo anterior, desde cedo os engenheiros se aperceberam que, dada a orografia montanhosa da ilha, a abertura de túneis seria a melhor solução para a construção de estradas em Santo Antão. No entanto, os parcos recursos económicos do país sempre foram uma importante restrição à materialização dessa solução.
Assim, atualmente, a ilha dispõe de apenas dois túneis rodoviários, construídos na moderna estrada asfaltada que passou a ligar os principais aglomerados populacionais pela via marítima, a partir de 2009.
A Madeira, ilha pertencente à Região Autónoma da Madeira – Portugal, é idêntica à ilha de Santo Antão, em termos de geomorfologia. Sendo ambas de origem vulcânica, apresentam um relevo bastante acidentado, com paisagens que se recortam em altas montanhas e profundos vales. No entanto, enquanto região ultraperiférica da União Europeia, a Madeira teve acesso a fundos estruturais e de investimento que alavancaram, significativamente, o seu desenvolvimento. A sua extensa e moderna rede rodoviária contempla túneis e viadutos que vencem os abismos da natureza, conectando, assim, os diversos povoados da ilha.
Talvez seja uma utopia idealizar Santo Antão assim, tal qual a Madeira. Não dispomos das mesmas condições de acesso a fundos estruturais e de investimento e somos parte de um país cujo a dívida pública é, em muito, superior ao produto interno bruto. Por mais, a ilha vem, de forma significativa, perdendo população e capacidade de geração de riqueza. Um cenário bastante preocupante que já ameaça a viabilidade de aldeias como o Corvo, Formiguinhas, Ribeira Alta e Figueiras.
Não são casos únicos. Há muitas mais aldeias na ilha de Santo Antão que vem enfrentando dificuldades para manter a população residente, fazer chegar géneros de produtos diversos e escoar a produção agrícola, isso devido ao isolamento ditado pela falta de estrada de acesso. Nalguns casos, são aldeias localizadas na margem oposta da ribeira por onde passa estrada, a escassos metros de distância. Pode até parecer irónico que para se chegar a uma estrada que dista escassos metros de uma aldeia seja preciso fazer um percurso de mais de meia hora por um caminho vicinal. Mas, essa é a triste realidade de aldeias como Fajã de Barreira que, juntamente com as aldeias de Bento, Aguada e Agriões, fica à margem da estrada de penetração do vale de Chã de Pedras.
No caso de Fajã de Barreira, o projeto de uma ligação rodoviária remonta ao período de construção da estrada de Chã de Pedras, na segunda metade do século XX, ainda durante a era colonial. A partir da década de noventa, o projeto de ligação passou a ser promessa de campanha eleitoral a cada vez das eleições municipais. E, até hoje, nada!
A única forma que os residentes encontraram para ligar as duas margens da ribeira foi através da construção de um elevador de cargas. A iniciativa privada veio facilitar a vida dos residentes que agora não têm de suportar elevados encargos no transporte de cargas através de estafetas ou muares e asininos. Por via do cabo, as mercearias fazem chegar os seus produtos para venda, os viajantes e visitantes fazem subir e descer as suas bagagens, materiais pesados, utilizados na construção civil, tal como cimento, areia e ferro, em 10 minutos, completam a travessia, assim como produtos agrícolas e aguardente são enviados para o outro lado, para seguirem viagem de carro até o destino.
Podemos dizer que se melhorou um pouco a qualidade de vida dos residentes de Fajã de Barreira, com o elevador de cargas. No entanto, ainda é preciso que se faça muito mais. Enquanto se aguarda pela prometida ligação rodoviária, a Câmara Municipal da Ribeira Grande poderia juntar os seus esforços na melhoria e gestão do elevador de cargas, nem que fosse na subsidiação dos custos de exploração e manutenção, em especial, os encargos com a eletricidade, onde uma tarifa social poderia ser uma mais-valia. Quanto menores os encargos do explorador, maiores os benefícios dos utilizadores, a começar pelo preço.
Socram d’Arievilo, janeiro de 2023.

É natural da ilha das montanhas, lugar que preenche o seu imaginário e que serve de cenário para as suas criações. Na literatura, a sua preferência recai sobre a poesia, mas também interessam-lhe os géneros contos tradicionais e ficção científica.







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