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Em tempos em que a inteligência emocional virou quase item de currículo, um requisito básico para se manter vivo e funcional , praticá-la no mundo real não é tarefa para qualquer gato pingado. Mas a minha amiga, essa guerreira da luz interior, conseguiu.
Acordou, fez a sua reza habitual, focou-se no propósito com a convicção de um monge zen e, após as eternas voltas que dá antes de sair de casa (porque o caos precisa de um ritual), lá seguiu para o ponto de autocarro.
Neste Atlântico onde o sol nunca falta, a luz, infelizmente, nem sempre entra onde deveria, no coração dos que comandam o volante do Sol Atlântico.
Mal entrou no autocarro, a minha amiga testemunhou o espetáculo matinal. O motorista, um legítimo representante do clube dos iluminados do volante, expulsava uma senhora por não ter troco. Uma cena digna de campo de batalha. Afinal, no sagrado regulamento não escrito dos senhores do volante, a obrigação de ter troco é sempre do passageiro. E, claro, só eles leram esse regulamento.
A minha amiga, empática como ela só, interveio. Disse à senhora para ficar, que ela pagaria os dois bilhetes. Um gesto bonito, carregado de humanidade. Retirou da bolsa a sua nota empática, pronta para salvar o dia. Mas o nosso ser de luz, com a luz já a piscar, rosna:
— Anhos sta na trossa! Amim cá tem troco!… Nhos dixi…
Foi aí que a empatia da minha amiga evaporou-se no calor da indignação. E disparou:
— Sr., quem tem que ter troco é nhos!
Nesse momento, o ser de luz virou labareda. Sem cerimónias, vociferou:
— Cambada de pobres! Por isso é que continuam pobres! Nem carro têm, e ainda infernizam a vida dos outros logo cedo!
A minha amiga riu. Riu como quem sabe que já não vale a pena discutir com quem prefere buzinar à escuta. A senhora, a verdadeira protagonista silenciosa, decidiu sair do silêncio. Com voz firme, cravou a sua resposta:
— Mas tu também és pobre. Estás aqui a rodar o volante para lá e para cá, a gritar com os passageiros. Pobre também és tu.
Mas o ser de luz não se deu por vencido:
— Euuuuu? Tenho carro! Não sou pobre como vocês que andam sempre de autocarro!
Moral da história:
Compre o seu carro. Deixe de ser pobre. Porque trabalhar num autocarro é digno, mas ir de autocarro para o trabalho… é, aparentemente, o limiar da pobreza.

"Cheila Delgado escreve como quem sussurra segredos antigos ao vento. Filha da ilha das montanhas - Santo Antão e mora entre palavras, onde as ilhas se encontram, a saudade ganha sotaque e a mulher cabe inteira. Poeta quando quer, cronista quando sente, é das que acreditam que escrever é uma forma de continuar."







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